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Crise habitacional: ninhos artificiais ajudam cacatuas ameaçadas a sobreviver

Crise habitacional: ninhos artificiais ajudam cacatuas ameaçadas a sobreviver

Com a perda de mais de 60% dos ocos naturais usados para reprodução, aves criticamente ameaçadas encontram abrigo em estruturas feitas por humanos.

A perda de locais naturais para reprodução ameaça a sobrevivência de cacatuas-de-crista-amarela (Cacatua sulphurea) que vivem em Hong Kong. Em uma cidade onde tempestades e podas de árvores reduziram drasticamente a disponibilidade de ocos para a construção de ninhos, caixas artificiais instaladas em parques e escolas oferecem às aves uma alternativa para criar seus filhotes.

A espécie está criticamente ameaçada de extinção, com menos de 2 mil indivíduos restantes em sua área de distribuição nativa, no leste da Indonésia e em Timor-Leste. Hong Kong abriga cerca de 200 cacatuas selvagens, aproximadamente um décimo desse total. A população local é formada, segundo pesquisadores, por descendentes de aves que escaparam do cativeiro ou foram libertadas após serem mantidas como animais domésticos.

Embora o número de indivíduos na cidade permaneça estável, a disponibilidade de locais para reprodução diminuiu. Mais de 60% dos ocos naturais utilizados pelas cacatuas foram perdidos, comprometendo o acesso a espaços adequados para a construção de ninhos.

“Na cidade, eles não têm essa opção luxuosa disponível”, disse Astrid Andersson, bióloga e pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Hong Kong. Ela descreveu a escassez de ocos nas árvores como uma “crise habitacional” para as aves.

Abrigo para a reprodução

Para enfrentar o problema, Andersson se uniu ao arborista e ambientalista Harry Wong na criação do projeto HK Cockatoo Watch. A iniciativa adapta modelos de caixas-ninho utilizados na Austrália às condições de umidade de Hong Kong e instala câmeras em seu interior para acompanhar o comportamento reprodutivo das cacatuas sem a necessidade de observação presencial constante.

Desde março de 2025, a equipe instalou 15 caixas-ninho em parques públicos e instituições de ensino, incluindo a St. Louis School e a ISF Academy. Quatro estruturas já estão ocupadas por casais de cacatuas.

A iniciativa também envolve estudantes na observação da vida selvagem urbana. Os alunos fotografam as aves durante os intervalos escolares e produzem desenhos para livretos educativos, aproximando as novas gerações dos animais que compartilham o espaço urbano com os seres humanos.

Na St. Louis School, o professor de artes visuais Winster Wong procurou os ambientalistas depois de observar um casal de cacatuas tentando escavar um buraco para nidificação no campus.

“Acredito que eles queriam construir um lar para si mesmos”, afirmou.

Um dos episódios acompanhados pela equipe ocorreu em maio, quando um filhote foi encontrado dentro de uma saída de ar-condicionado de um apartamento. A ave foi transferida para uma caixa-ninho artificial nas proximidades, onde seus pais conseguiram reencontrá-la e retomar os cuidados.

“Os pais conseguiram alimentá-lo e criá-lo desde um bebezinho até um pássaro adulto”, relatou Andersson.

O resultado demonstra a possibilidade de utilizar estruturas artificiais para oferecer condições de reprodução a aves que perderam parte dos locais naturais de nidificação. O projeto, porém, ainda enfrenta desafios. Harry Wong trabalha para modificar as caixas de PVC, com o objetivo de reduzir as temperaturas internas e melhorar as condições oferecidas às cacatuas.

Uma população importante para a espécie

A proteção das cacatuas de Hong Kong também pode ter implicações para a sobrevivência da espécie em sua área de distribuição nativa. Testes genéticos recentes identificaram alta diversidade genética entre as aves que vivem na cidade, característica que pode representar uma contribuição importante para futuros esforços de recuperação das populações selvagens no Sudeste Asiático.

A descoberta amplia a importância de proteger esses animais, mesmo quando sua presença em Hong Kong está associada à fuga ou à libertação de indivíduos que foram mantidos como animais de estimação. A população urbana pode funcionar como uma reserva genética para uma espécie cuja sobrevivência está ameaçada.

As caixas-ninho oferecem uma resposta imediata à falta de espaços para reprodução, mas a proteção das cacatuas também depende da manutenção de árvores e de ambientes capazes de sustentar suas necessidades naturais. A coexistência com a fauna urbana exige que as cidades considerem os animais no planejamento de seus espaços e evitem que intervenções humanas eliminem os locais de que eles precisam para viver.