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Aumento da temperatura eleva chance de internação de crianças por infecção gastrointestinal, aponta estudo

Aumento da temperatura eleva chance de internação de crianças por infecção gastrointestinal, aponta estudo

Dossiê sobre o El Niño reúne evidências científicas sobre os efeitos das mudanças climáticas na saúde infantil. Além das infecções gastrointestinais, o material alerta para o agravamento de doenças respiratórias e alérgicas, especialmente em cenários de calor extremo e queimadas

O aumento das temperaturas e as mudanças no regime de chuvas associados ao El Niño podem ampliar os riscos à saúde infantil, inclusive o de infecções gastrointestinais. Um estudo nacional identificou que um aumento de 5 °C na temperatura média diária esteve associado a uma chance 22% maior de hospitalização por esse tipo de infecção nos nove dias seguintes.

Publicado na revista científica Science of the Total Environment em 2022, o estudo analisou dados de 1.814 municípios brasileiros, que abrangiam mais de 78% da população do país, entre 2000 e 2015. A associação foi mais forte para infecções transmitidas pela água e pelos alimentos, e os bebês menores de 1 ano foram identificados como o grupo mais suscetíve.

Os resultados integram o dossiê El Niño: impacto das mudanças climáticas na saúde de adultos e crianças. O material reúne informações sobre os possíveis impactos das condições climáticas na saúde, incluindo doenças infecciosas, problemas respiratórios e quadros alérgicos.

“Reforçar os impactos de um fenômeno natural na saúde da população é fundamental para disseminar hábitos de prevenção das doenças associadas ou caminhos adequados de tratamento”, afirma Thamiris Tavares, líder da área científica da Opella, empresa patrocinadora do dossiê.

Como as mudanças no clima afetam a saúde intestinal

As temperaturas elevadas podem favorecer a proliferação de microrganismos e acelerar a deterioração dos alimentos, aumentando o risco de infecções gastrointestinais. Já as alterações no regime de chuvas podem comprometer o acesso à água potável e a qualidade do abastecimento, especialmente em períodos de seca ou após enchentes.

Quando a água ou os alimentos estão contaminados, aumenta o risco de transmissão de agentes infecciosos que provocam diarreia e outros problemas gastrointestinais. Além disso, o calor intenso pode agravar a perda de líquidos pelo organismo, tornando a desidratação uma preocupação adicional, sobretudo entre crianças pequenas.

A saúde intestinal também depende do equilíbrio da microbiota, conjunto de microrganismos que vivem no trato digestivo e contribuem para o funcionamento do organismo.

“A abordagem preventiva diante dos eventos climáticos deve olhar para a saúde do tubo digestivo como um todo. Isso envolve desde a higiene e segurança dos alimentos até o cuidado contínuo com a imunidade e a integridade da microbiota”, afirma Cristina Targa Ferreira, gastropediatra da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre que participou do dossiê.

Bebês menores de 1 ano estão entre os mais vulneráveis

Em bebês menores de 1 ano, episódios de diarreia e vômitos exigem atenção especial, já que a perda de líquidos pode levar à desidratação rapidamente. Nessa faixa etária, é importante observar mudanças no comportamento e sinais de que a criança não está recebendo ou retendo líquidos suficientes.

O risco também está relacionado às condições de vida e ao acesso a serviços essenciais. Famílias que enfrentam dificuldades para obter água potável, manter condições adequadas de higiene ou chegar aos serviços de saúde podem encontrar obstáculos adicionais para prevenir infecções e buscar atendimento durante eventos climáticos extremos.

El Niño afeta as regiões brasileiras de formas diferentes

O El Niño pode provocar efeitos distintos em cada região do Brasil. “O El Niño não afeta todas as regiões da mesma forma. Seus impactos variam conforme a intensidade do evento, a época do ano e a atuação conjunta de outros fatores climáticos”, explica Marcelo de Paula Corrêa, meteorologista especialista em efeitos do tempo e do clima sobre a saúde humana e participante do dossiê.

No Norte e no Nordeste, períodos prolongados de seca, calor intenso e baixa umidade podem reduzir a disponibilidade de água e pressionar os sistemas de abastecimento. Na Amazônia, a vegetação mais seca também favorece queimadas, que aumentam a exposição da população à fumaça. A escassez de água potável pode dificultar a higiene e o preparo seguro dos alimentos.

Em algumas localidades, a redução do nível dos rios prejudica o deslocamento dos moradores e o acesso a medicamentos e serviços de saúde.

Já no Sul, episódios de chuva intensa e enchentes podem provocar alagamentos, sobrecarregar os sistemas de saneamento e comprometer a qualidade da água. A contaminação da água e dos alimentos nessas situações pode aumentar o risco de infecções gastrointestinais e outras doenças.

A intensidade e a duração dos eventos, a atuação de outros fatores climáticos e as condições de infraestrutura de cada comunidade também influenciam os riscos para a população.

Os impactos do El Niño não se restringem ao sistema digestivo

As mudanças climáticas também podem afetar a saúde respiratória. A fumaça das queimadas contém partículas muito pequenas, como o material particulado PM2,5, que podem chegar aos pulmões e agravar problemas respiratórios e alergias. As crianças são mais vulneráveis à poluição do ar porque seu sistema respiratório ainda está em desenvolvimento.

Outro ponto de atenção é a dengue. Uma pesquisa que analisou dados de 57 países das Américas e da Ásia, entre 1980 e 2024, estimou que as condições climáticas associadas ao El Niño e à La Niña estavam relacionadas a cerca de 63% da variação anual no número de casos da doença, de acordo com o modelo utilizado pelos pesquisadores.

Isso não significa que esses fenômenos sejam responsáveis por todos esses casos, já que a transmissão também depende de fatores como a circulação do vírus, as condições locais e o controle do mosquito.

Como proteger as crianças contra infecções gastrointestinais

Medidas de higiene e segurança dos alimentos ajudam a reduzir o risco de infecções gastrointestinais, especialmente em períodos de calor intenso, seca ou enchentes. Entre os cuidados recomendados estão:

Oferecer água de origem segura: utilizar água potável para beber, preparar alimentos e higienizar utensílios. Quando houver orientação das autoridades sanitárias, seguir as recomendações de tratamento da água.

Lavar as mãos: higienizar as mãos com água e sabão antes de preparar refeições, antes de comer e depois de usar o banheiro ou trocar fraldas.

Redobrar a atenção aos alimentos: lavar frutas e verduras, cozinhar bem os alimentos e armazenar os perecíveis sob refrigeração adequada. Evitar consumir alimentos que tenham entrado em contato com água de enchente.

Manter a hidratação: oferecer líquidos adequados à idade da criança, com atenção especial aos dias quentes e aos episódios de diarreia ou vômitos. Para bebês, seguir as orientações do pediatra, mantendo o aleitamento materno quando aplicável.

Acompanhar as condições sanitárias: observar alertas das autoridades sobre a qualidade da água e evitar o uso de água de procedência duvidosa.

Sinais de alerta para desidratação

Em crianças pequenas, a desidratação pode evoluir rapidamente. Diminuição da quantidade de urina, boca seca, ausência de lágrimas ao chorar e sonolência excessiva ou prostração são sinais de alerta. Diarreia intensa, sangue nas fezes, febre ou vômitos persistentes também exigem avaliação médica.

Diante desses sintomas, é importante procurar atendimento de saúde. Em bebês, especialmente menores de 1 ano, a avaliação deve ser rápida, uma vez que, nessa faixa etária, a perda de líquidos pode representar um risco maior.