A glamourização da maconha e a depressão dos jovens
É preocupante a glamourização que tem acontecido nos últimos tempos em relação à cannabis (maconha).
A forma como alguns personagens da música, da TV, influenciadores digitais, e até parte da mídia têm falado desta droga, deixa transparecer que é algo inofensivo, podendo se constituir num verdadeiro milagre terapêutico para diversos males que afetam o corpo humano.
É fato que alguns componentes extraídos da planta da maconha, em especial o canabinoide, denominado Canabidiol ou CBD, têm demonstrado resultados promissores para a melhoria ou alívio de alguns sintomas relacionados a certas doenças como: convulsões, insônia, ansiedade, estresse etc. Contudo, mesmo em se tratando do possível uso terapêutico, é preciso deixar claro que as pesquisas em relação ao uso dos componentes da cannabis ainda são prematuras, sem o devido conhecimento dos possíveis efeitos colaterais que poderão advir deste “remédio experimental”. Também é importante frisar que há uma grande diferença entre o uso de um derivado da planta (canabinoide), isolado, e na quantidade certa para cada caso, e o consumo da maconha na forma fumada, com todas as suas inúmeras propriedades tóxicas.
Em geral as informações estão sendo transmitidas de forma genérica, com frases nada educativas como: “maconha é natural”, “maconha é remédio”, “trata-se de uma planta, portanto inofensiva” etc., passando a impressão, especialmente para os jovens, que estamos diante de algo inofensivo e até benéfico. E isso não é verdade. A maconha é uma substância tóxica, viciante, cujo consumo, em especial quando fumada, poderá acarretar sérios problemas de saúde aos seus usuários.
Nos últimos anos, pelo menos uma dezena de estudos científicos confiáveis relacionados ao tema em comento, foram divulgados e todos são unânimes em afirmar que existe uma relação direta entre o uso da maconha e alguns distúrbios psiquiátricos como a depressão, por exemplo, sendo tais riscos mais evidentes no público jovem.
Um desses tratados é a pesquisa da Universidade da Colúmbia – EUA, com 70 mil adolescentes com idades entre 12 e 17 anos sobre álcool, drogas ilícitas, especialmente cannabis, e saúde mental. Tal estudo afirma que, mesmo o consumo casual da maconha, tem impacto elevado na saúde mental dos jovens.
Diz ainda o referido documento que, “…adolescentes que usam maconha para fins recreativos, têm duas a duas vezes e meia mais riscos de desenvolverem distúrbios psiquiátricos, como depressão e tendências suicidas, do que os não usuários. E, aqueles que já são dependentes desta droga, 3,5 a 4,5 vezes mais riscos de serem acometidos de tais males. Além disso, tal consumo indevido expõe esses jovens usuários a comportamentos indesejáveis, inadequados e ou de riscos como: baixo desempenho acadêmico, evasão escolar, problemas com a lei, além de outras consequências negativas relacionadas à saúde física e mental.
Ainda em relação aos distúrbios psiquiátricos, vários especialistas concordam que aquelas pessoas, adolescentes ou não, que já sofrem de depressão ou que possuem predisposição a este mal, podem mais facilmente passarem a usar a maconha ou outras drogas, como forma de aliviar seus sofrimentos, sendo que, tal comportamento, em geral, provoca uma piora da doença, mesmo que momentaneamente camufle os sintomas desagradáveis deste transtorno.
É preciso lembrar que, na adolescência, não apenas o aspecto físico dos jovens passa por mudanças, estes também enfrentam instabilidades emocionais relacionadas à identidade, a pressão social, as cobranças advindas da família, da escola etc. Esta busca de identidade que é um processo natural da idade deixa estes jovens frágeis e inseguros internamente, embora os mesmos detestem admitir tal condição, sobretudo para os seus pares e também para os seus pais.
Tais mudanças, por si só, os tornam mais vulneráveis e por vezes propensos a serem acometidos de problemas de saúde mental como os já citados. E tal fato, acrescido da influência dos amigos, poderá impulsioná-los para o uso indevido de substâncias psicoativas, lícitas e ou ilícitas. E a ação destas substâncias no organismo, comumente compromete aspectos importantes do desenvolvimento físico e psicológico / emocional desses jovens usuários.
Além disso, é importante registrar que, a probabilidade do uso recreativo de drogas se transformar em dependência é três a cinco vezes maior quando o consumo destas substâncias tiver sido iniciado antes dos 15 anos de idade, quando comparado com aquelas pessoas que só tiveram tal “batismo” nas drogas após os 21 anos.
Assim, é importante que os diversos segmentos sociais, país, escolas, igrejas, imprensa etc., assumam a responsabilidade de ajudar nesta missão de bem informar, especialmente o público jovem, que é a presa mais vulnerável em relação aos riscos relacionados ao consumo destas substâncias. Para tanto, uma das iniciativas relevantes é evitar a glamourização destas substâncias, sejam estas legais ou ilegais, pois desta forma todos estarão contribuindo para a edificação da saúde física, social e emocional, não apenas dos jovens como na sociedade como um todo.
Educador físico, psicólogo e dvogado. Especialista em Criminologia e Psicologia Criminal Investigativa. Ex-agente Especial da Polícia Federal Brasileira, sócio da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas e do Instituto Brasileiro de Justiça e Cidadania. Autor de livros sobre drogas.
