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Como o petróleo reacendeu o conflito sobre as Ilhas Malvinas

Como o petróleo reacendeu o conflito sobre as Ilhas Malvinas

Argentina ameaça iniciar uma ofensiva jurídica internacional contra o Reino Unido para barrar exploração de petróleo na região. Buenos Aires também impôs sanções contra envolvidos no projeto.

Lar de menos de 4.000 habitantes e situado em uma região isolada do Atlântico Sul, as ilhas Malvinas raramente ganha algum destaque no noticiário econômico internacional.

No entanto, um projeto de exploração de petróleo liderado por empresas do Reino Unido e de Israel na Bacia Norte das Malvinas está reacendendo tensões históricas entre a Argentina e os moradores do arquipélago.

A Argentina reivindica as Malvinas há dois séculos, uma batalha travada até no nome do arquipélago, chamado de Falklands pelo Reino Unido e grande parte do mundo. Em 1982, a disputa pela soberania do território levou a uma guerra entre os dois países, embora o controle britânico tenha sido rapidamente restabelecido após a invasão das ilhas por tropas argentinas.

Um referendo sobre a soberania do arquipélago realizado em 2013 teve 99,8% dos votos favoráveis à permanência do status de Território Britânico Ultramarino autônomo vinculado ao Reino Unido.

O projeto do campo petrolífero Sea Lion trouxe a questão de volta ao centro do debate. No mês passado, o presidente argentino, Javier Milei, ameaçou iniciar uma ofensiva jurídica internacional contra o Reino Unido caso o empreendimento não fosse interrompido em duas semanas.

O projeto é conduzido pela empresa israelense Navitas Petroleum e pela britânica Rockhopper Exploration e conta com apoio integral da Assembleia Legislativa das Ilhas Malvinas, que vem promovendo a iniciativa desde 2010. As empresas planejam iniciar a extração de petróleo no campo Sea Lion no início de 2028.

Milei afirma que o projeto representa “a pilhagem ilegal dos nossos recursos” e diz que levará o caso ao Tribunal Internacional do Direito do Mar, órgão judicial independente responsável pela aplicação da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

União em torno da bandeira?

Stacy Bragger, integrante da Assembleia das Ilhas Malvinas, composta por 12 membros, disse à DW que a disputa “não é novidade” e que a Argentina está usando o projeto petrolífero como “um meio para avançar sua reivindicação de soberania”.

Ele acredita que Milei pode estar intensificando o discurso de olho nas eleições argentinas de 2027. “Sempre que há eleições se aproximando, as Malvinas são uma ferramenta muito conveniente para unir as pessoas e distraí-las dos problemas domésticos”, afirmou.

Henry Ziemer, analista do programa para as Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington, diz que as Malvinas são “uma ferida crônica da política argentina” e que, desde os anos 1980, diferentes governos levantam o tema para mobilizar apoio e “alimentar as chamas do nacionalismo”.

No entanto, ele considera a intervenção de Milei digna de nota porque o presidente havia demonstrado anteriormente abertura para melhorar as relações com o Reino Unido sobre a questão. Ziemer concorda que a iniciativa pode ser uma estratégia para “aumentar os índices de aprovação num momento em que o governo enfrenta forte pressão doméstica”.

Javier Milei em discurso oficial de salão na Casa Rosada
O presidente da Argentina, Javier Milei, afirma que está tomando medidas legais contra o projeto do campo petrolífero Sea LionFoto: Argentina’s Presidency Press Office/AFP

Potencial de transformação para as Malvinas

Mesmo que Milei enxergue ganhos políticos na controvérsia, a possibilidade de o projeto Sea Lion ser bem-sucedido aumenta significativamente a importância econômica da disputa para todos os envolvidos.

O projeto tem orçamento de 1,8 bilhão de dólares (cerca de R$ 9,3 bilhões) e poderá gerar receitas mais que duas vezes superiores a esse valor para as ilhas Malvinas. As empresas esperam que, no pico da produção, o campo alcance até 50 mil barris por dia e permaneça ativo por até 35 anos.

Isso elevaria substancialmente o atual Produto Interno Bruto (PIB) anual das Malvinas, hoje dependente quase exclusivamente do setor pesqueiro, sujeito a fortes oscilações, e do turismo. A administração local chegou a estudar a possibilidade de criar um fundo soberano caso o projeto seja bem-sucedido.

“É um projeto extremamente importante para nós e com grande potencial para o nosso futuro”, disse Stacy Bragger. “Foi necessário muito esforço para chegar até aqui e, se tudo ocorrer conforme o planejado, queremos reter o máximo de valor possível.”

No entanto, além dos benefícios políticos internos, Milei também pode enxergar uma oportunidade para posicionar a Argentina como um ator relevante no setor energético em meio à guerra no Irã e às dificuldades no estreito de Ormuz.

O setor petrolífero argentino também está em expansão, impulsionado pelo avanço da produção em Vaca Muerta, na Patagônia, uma das maiores formações de petróleo e gás de xisto do mundo. Caso as iniciativas jurídicas de Milei tenham êxito, os ganhos para o país poderiam ser ainda maiores. “Quando recursos naturais se sobrepõem a disputas territoriais já existentes e a ressentimentos históricos, isso costuma intensificar conflitos”, afirmou Ziemer.

Bragger, porém, rebate dizendo que Milei e a Argentina não têm autoridade legítima sobre as Malvinas nem sobre qualquer riqueza petrolífera que venha a ser extraída nos próximos anos. “Eles não respeitam nosso direito à autodeterminação”, disse. “Não respeitam nosso direito de desenvolver nossos próprios recursos. Apenas querem nos colonizar.”

Gaivota sobrevoa o mar perto da costa, onde há casas coloridas
O projeto tem o potencial de transformar a pequena economia das Ilhas MalvinasFoto: Ashley Cooper/Pond5 Images/IMAGO

Mais pressão econômica da Argentina

Milei pretende pressionar as Malvinas ampliando sanções econômicas já em vigor. Andrea Clausen, chefe do governo das ilhas desde 2025, descreveu recentemente essa campanha como uma “guerra econômica”.

Muitos fornecedores internacionais e companhias de navegação já se recusam a atender as Malvinas por receio de desagradar a Argentina. Agora, o governo Milei iniciou sanções contra 60 pessoas envolvidas no projeto Sea Lion.

Em um pronunciamento no mês passado, o presidente argentino também prometeu impor sanções às empresas envolvidas na iniciativa. Uma medida desse tipo pode lançar dúvidas sobre a viabilidade do projeto, que já fracassou anteriormente, em 2014 e 2020, devido a problemas de financiamento, à fraqueza dos preços do petróleo e a atrasos provocados por sanções.

A Navitas confirmou nesta semana que duas empresas contratadas abandonaram o projeto por preocupações relacionadas às sanções e que estão sendo substituídas. Também existem receios de que Milei consiga amparo internacional para sua posição, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu recentemente que o apoio americano ao atual status das ilhas estava “sob revisão”.

Bragger minimizou a declaração e destacou comentários recentes do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reafirmando apoio às Ilhas Malvinas. Ziemer afirmou que seria “muito surpreendente” se os Estados Unidos passassem a apoiar a posição argentina.

Embora haja incerteza sobre se o projeto petrolífero sairá efetivamente do papel, há pouca expectativa de que a disputa possa resultar em um novo conflito armado como o de 1982. “Isso seria um passo além do limite, e a situação teria de se deteriorar drasticamente para que víssemos a possibilidade de um conflito militar”, disse Ziemer.