Planeta perde vida selvagem, mas quadro não é irreversível
Eles nunca andam sozinhos pela floresta. De pelagem alaranjada e baixa estatura, de até 20 centímetros, o mico-leão-dourado já é avistado em maior quantidade na única região onde vive, no interior do Rio de Janeiro. Quem tem a sorte de cruzar com um bando desses primatas se emociona com o encontro.
A situação desses animais hoje é incomparável ao que se viu em 1970, quando quase desapareceram de vez. Ameaçado criticamente de extinção, resumidos a 200 indivíduos à época, o mico ganhou proteção nas últimas décadas e pode se reproduzir em paz.
“Foram mudanças na legislação, criação de áreas protegidas, redução drástica do desmatamento e engajamento social”, cita alguns ingredientes da receita Luis Paulo Ferraz, secretário executivo da Associação Mico-Leão-Dourado.
Atualmente, cerca de 4,8 mil micos circulam pela Mata Atlântica. O caso é um dos maiores sucessos da história da conservação no Brasil. O roteiro deu certo e pode funcionar em qualquer lugar do mundo. Mas ainda é uma exceção diante da velocidade com que a vida selvagem desaparece.
América Latina e Caribe são os lugares onde esse declínio é mais acentuado. Entre 1970 e 2022, populações de espécies monitoradas encolheram 95%. O retrato é capturado pelo Índice Planeta Vivo, da ONG WWF, divulgado nesta quinta-feira (08/10).
O número é uma má notícia, mas o foco da equipe responsável pelo levantamento está em outro ponto: na chamada ciência da esperança.
“O dado negativo é real. Mas há razões, evidências científicas, para ter a esperança de que mudar é possível. E queremos mostrar isso apontando espécies que se recuperaram e, assim, incentivar ações parecidas”, diz à DW Kirsten Schuijt, diretora geral do WWF.
Documentando queda e recuperação
Publicado a cada dois anos, o índice quase sempre traz a mensagem devastadora: grupos de animais selvagens estão em queda. A média global mostra um declínio de 73,2% entre 1970 e 2022.
A taxa é calculada com base no monitoramento de 35.803 populações de mais de 5 mil espécies de vertebrados. O índice mede mudanças relativas no tamanho dessas populações e mostra que aproximadamente metade delas está estável — ou crescendo. As perdas na outra metade são tão grandes que puxam a média para baixo.
“Se você continua repetindo a mesma mensagem negativa, há um risco de levar as pessoas à apatia. As pessoas pensam que, não importa o que elas façam, o cenário não vai mudar”, explica Schuijt a estratégia de propagar a esperança.
A trajetória recente dos tigres selvagens, maiores felinos da Terra e sob forte ameaça, também traz um alento. Nos últimos quinze anos, o número global estimado desses animais saltou de 3,2 mil para 5,7 mil, um aumento de 70%.

Segundo o relatório, essa é a primeira reversão documentada do declínio de longo prazo. A receita não foi muito diferente daquela aplicada no caso dos micos: planos nacionais, áreas protegidas, profissionalização da fiscalização, combate ao tráfico e cooperação. Mas ainda existe um longo caminho, já que os tigres ocupam menos de 8% de seu território original.
Perda mais rápida na América Latina
No mapa global, a perda da vida selvagem tem sido mais rápida na América Latina e Caribe. Nesse ranking negativo, a próxima da lista é a África (com 80% de declínio), Ásia-Pacífico, (-49%), América do Norte (-28%), Europa e Ásia Central (-23%).
“Na América do Norte e Europa a taxa é menor porque a maior perda ocorreu antes de 1970, ou seja, antes do período considerado no índice”, ressalta Andrew Terry, diretor de conservação da Sociedade de Zoologia de Londres, em conversa com a imprensa.
No caso dos países latino-americanos, que abrigam a maior biodiversidade do planeta, o desmatamento das florestas é uma das principais causas por trás do sumiço de espécies. A expansão de pastagens, poluição e represamento de rios, superexploração de recursos e as mudanças climáticas também pressionam a vida selvagem na região.
“De forma geral, conservar é mais barato que restaurar. A experiência mostra que demora um tempo para colher benefícios depois que projetos conseguem a recuperação de populações perdidas. E além de tudo, é preciso persistir”, afirma Helga Correa, do WWF-Brasil.
Conservar espécies não basta
Para além da ciência da esperança ancorada em evidências científicas, o relatório afirma que mudanças são urgentes em três grandes motores que movem o planeta: energia, produção de alimentos e mercado financeiro.
A queima de carvão, petróleo e gás para gerar energia e eletricidade é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa — o acelerador das mudanças climáticas. E esse cenário, que traz instabilidade no sistema de chuvas, por exemplo, impacta profundamente animais, plantas e toda a biodiversidade.
A destruição de vegetação nativa para expansão da agricultura em larga escala também destrói habitats e aumenta a carga de gases que aquecem o planeta. Tudo isso é alimentado por um sistema financeiro que ainda apoia atividades que degradam a natureza: segundo o relatório, o montante de dinheiro que financia a destruição é 30 vezes maior que aquele destinado às soluções.
“Transformar esses sistemas e reverter esse acúmulo de perda de biodiversidade tem de ser objetivo conjunto da humanidade, uma responsabilidade compartilhada”, ressalta Correa.
O efeito dominó
Na natureza, os mico-leões-dourados hoje circulam por áreas protegidas. Quem está envolvido na recuperação da espécie comemora os avanços, mas não considera o trabalho terminado. Em 2017, por exemplo, um surto de febre amarela matou 32% da população. Como os animais estão concentrados em uma área relativamente pequena, um evento do tipo significa uma ameaça significativa.
“Celebramos todas as conquistas com a antena ligada”, diz Luís Paulo Ferraz, dedicado há quinze anos ao projeto iniciado na década de 1980. “Há pessoas envolvidas nisso há mais 40 anos. Essa continuidade permitiu não apenas aumentar a população do mico, mas recuperar partes da floresta e estabelecer uma nova relação entre a conservação e as comunidades da região˜, complementa.
O mico funciona como porta de entrada para uma questão maior. Com uma aparência que cativa, essa espécie-bandeira capaz de mobilizar o público ensina que sua existência depende da saúde de seu habitat, a Mata Atlântica. O bioma, o mais devastado do país, também é importante regulador do clima e fornecedor de água para as cidades.
“O desafio agora é garantir que esse trabalho sobreviva às próximas décadas. Mudanças de governo, alterações na legislação e oscilações nas políticas ambientais podem comprometer esforços que dependem, sobretudo, de continuidade”, alerta Ferraz.
