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Cientistas criam “espantalho marinho” para proteger espécies ameaçadas

Cientistas criam “espantalho marinho” para proteger espécies ameaçadas

Dispositivo com uma cabeça giratória e uma pipa em formato de ave de rapina reduziram em até 71% as chances de captura acidental durante testes no Reino Unido

Um “espantalho flutuante” desenvolvido por cientistas do Reino Unido pode ajudar a evitar que aves marinhas sejam capturadas acidentalmente por redes de pesca. Em testes realizados na costa da Cornualha, o dispositivo e uma pipa em formato de ave de rapina reduziram em cerca de dois terços o risco de duas espécies de aves mergulhadoras ficarem presas nas redes.

A captura acidental é um problema para animais como o airo-comum e o airo-de-asa-branca. Estima-se que 95 mil aves marinhas mergulhadoras morram afogadas todos os anos após ficarem presas em redes de emalhar ao longo da costa europeia. Os resultados do novo estudo foram publicados em 30 de setembro na revista Conservation Letters.

Para tentar diminuir esse impacto, cientistas da Fishtek Marine desenvolveram, em parceria com a organização de conservação RSPB, a Looming Eye Buoy (LEB), ou “boia de olhos ameaçadores” (em português). O dispositivo funciona como uma espécie de espantalho sobre a água: sua cabeça giratória apresenta um efeito de olhos animados que busca afastar as aves e evitar que elas mergulhem nas proximidades das redes.

Um dispositivo assustador

Além da boia, os pesquisadores testaram uma segunda estratégia: uma pipa comercial com aparência de ave de rapina, usada para assustar pássaros. Os dois métodos foram avaliados durante dois anos em parceria com dez pescadores da Cornualha, que tiveram câmeras instaladas em seus barcos para registrar os efeitos dos dispositivos sobre a captura acidental.

Os resultados indicaram que as duas estratégias diminuíram o risco para as aves. Com as boias LEB, as chances de captura foram reduzidas em 59%, Já com as pipas, a redução chegou a 71%. Os dados dos testes foram analisados por cientistas da Universidade de Exeter.

Dispositivos de dissuasão acima da água: boia de olhos ameaçadores (item A) e pipa com aparência de ave de rapina (item B) — Foto: Tom Hooper/Conservation Letters
Dispositivos de dissuasão acima da água: boia de olhos ameaçadores (item A) e pipa com aparência de ave de rapina (item B) — Foto: Tom Hooper/Conservation Letters

A participação dos pescadores também permitiu que os pesquisadores identificassem quando e onde os equipamentos poderiam ser mais úteis. Na Cornualha, a maior parte das capturas de aves marinhas ocorreu durante o inverno e se concentrou em determinados locais. Com isso, os dispositivos podem ser empregados principalmente nos períodos e áreas de maior risco, em vez de serem utilizados de forma aleatória.

“Este estudo fornece algumas das evidências mais robustas até o momento de que medidas dissuasoras simples e práticas podem reduzir substancialmente a captura acidental de aves marinhas em pescarias com redes de emalhar”, afirmou Tom Horton, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Exeter, em comunicado.

Uma solução que não impeça a pesca

Um dos objetivos do projeto era justamente encontrar uma estratégia capaz de proteger as aves sem impedir a atividade dos pescadores que utilizam redes de emalhar. Segundo Tom Hooper, cientista sênior de pesca da Fishtek Marine, qualquer tecnologia destinada ao uso no mar precisa ser simples e resistente. A colaboração com os pescadores durante os testes ajudou a equipe a entender como os equipamentos funcionam durante a rotina de pesca e a identificar maneiras de aprimorá-los.

Encontrar soluções para redes de emalhar vinha sendo um desafio. De acordo com a RSPB, tecnologias adotadas em outros tipos de pesca já conseguiram reduzir a captura acidental de aves marinhas em mais de 90%. Na Namíbia, as chamadas “linhas espanta-aves” diminuíram o problema em 98% em barcos de pesca com palangre (ou espinhel) — um aparelho de pesca—, enquanto, na África do Sul, a redução chegou a 95% em arrastões de pesca.

Agora, os pesquisadores pretendem continuar trabalhando com pescadores, a RSPB e a Universidade de Exeter para aperfeiçoar os novos dispositivos. Para Micky Bacon, pescador da Cornualha que participou dos testes, a colaboração também é uma maneira de envolver quem trabalha no mar na busca por soluções ambientais.

“O mar é o meu local de trabalho e acho importante participarmos de projetos que possam afetar a nossa forma de trabalhar e ajudar a melhorar o ambiente”, disse, em comunicado.