Anchor Deezer Spotify

Da moda às artes plásticas, conheça iniciativas que transformam lixo em matéria-prima

Da moda às artes plásticas, conheça iniciativas que transformam lixo em matéria-prima

Empresas e profissionais economizam ao aproveitar resíduos de restaurantes, hotéis, salões e fábricas com criatividade

De cascas de frutas a uniformes usados, passando por cabelos, borra de café, retalhos de tecido e partes de peixes que normalmente ficam fora do prato, negócios da Zona Sul encontram novas funções para aquilo que antes terminava no lixo. Em alguns casos, o reaproveitamento nasce de uma preocupação ambiental; em outros, ajuda a reduzir custos, criar produtos e até revelar novos sabores.

Na moda e no design, a lógica também é transformar descarte em matéria-prima. Gilson Martins criou o projeto Lixo Nobre, em 2005, a partir dos resíduos da própria produção de bolsas e acessórios. O que começou com retalhos e sobras que seriam descartados ganhou novas formas em acessórios, mas também abriu caminho para uma experiência artística. Em 2017, ao observar os recortes que sobravam dos cortes das bolsas, Martins começou a fazer testes com mosaicos inspirados no Rio, usando seus elementos mais conhecidos. Foi assim que nasceu “Matrizes — O lixo como origem”, série de obras únicas que transformam os pedaços de material em telas. A exposição já passou pelo MGallery de Santa Teresa; pelo Grand Mercure, na Avenida Atlântica; e pela Galeria Caza Alimo, em Copacabana; e atualmente está na galeria de Martins, dentro de sua loja em Ipanema.

— Comecei a enxergar um jeito de aproveitar sobras do corte de bolsas e passei a criar, fazer testes de mosaicos do Rio. Entendi que tinha um outro resultado que era mais que uma bolsa, era mais para uma arte. Fui movimentando esses pedaços de materiais, e eles viraram telas, que são arte. Costumo dizer que o lixo é a nova matéria-prima. Aprendi esse olhar em casa, com meus pais — diz Martins.

Gilson Martins. Designer cria telas com sobras do recorte das bolsas: mostra está em sua galeria, em Ipanema — Foto: Divulgação/Gilson Martins
Gilson Martins. Designer cria telas com sobras do recorte das bolsas: mostra está em sua galeria, em Ipanema — Foto: Divulgação/Gilson Martins

A Dash Uniformes, em Ipanema, mantém desde 2017 o projeto Recicle Seu Uniforme Velho. As peças que ainda estão em boas condições são encaminhadas a instituições parceiras, depois da retirada dos logotipos. Quando não podem ser usados como roupa, os tecidos podem virar colchas e fronhas.

— É uma maneira simples de prolongar a vida útil dos materiais e, ao mesmo tempo, transformar uma ação de descarte em uma iniciativa de impacto social — afirma Marcela Ohana.

No Belina Ateliê, em Laranjeiras, nenhum tecido é descartado: os retalhos são separados por peso e tipo, podendo virar detalhes de vestidos, botões e outras peças ou ser disponibilizados para artesãos que trabalham com a equipe.

A estilista Flavia Pisco trabalha com upcycling, transformando materiais que já tiveram outra função em novas peças de roupa e acessórios. Em vez de partir de um tecido novo, ela começa pelo que encontra: amostras e sobras da indústria têxtil, gravatas de brechó, camisetas, relógios, objetos usados e até bolas de futebol furadas. Em uma coleção recente, por exemplo, as bolas foram desmontadas e transformadas em tops; em outra, cápsulas de café entraram na criação. O processo começa pelo próprio material e pelas possibilidades que ele oferece, e não por um desenho pronto. Há sete anos dedicada ao upcycling, Flavia também desenvolve peças a partir de objetos levados pelos próprios clientes e oferece oficinas e cursos sobre a técnica.

— Gosto de começar pelos materiais. Muitas vezes encontro uma coisa e não sei ainda em que ela vai se transformar. É justamente essa descoberta que me interessa, entender as características daquele material e imaginar possibilidades que talvez ninguém tivesse pensado para ele — conta Flavia.

Flavia Pisco. A estilista mostra o trabalho feito com gravatas de brechó — Foto: Divulgação/Flávia Pisco
Flavia Pisco. A estilista mostra o trabalho feito com gravatas de brechó — Foto: Divulgação/Flávia Pisco

Até o cabelo cortado no salão pode escapar do lixo. No Care Body & Soul, em Ipanema, os fios são separados e enviados à Fiotrar, startup que pesquisa o uso de cabelos e pelos para a produção de barreiras capazes de reter óleo. Cerca de 300 metros dessas estruturas já foram instalados na Baía de Guanabara, em um projeto de pesquisa apoiado pela Fundação Grupo Boticário.

— Você pensa que o cabelo que fica no chão do salão é lixo? Não é. Somos o primeiro salão no Rio que está com reciclagem de cabelos para a fundação — diz Ivani Werneck, proprietária do salão.

Do tecido dos sofás às sobras de frutas

No Teva Bistrô, o chef Daniel Biron transformou o próprio mobiliário em matéria-prima para novos objetos. Os tecidos reciclados das garrafas PET que eram usados nos sofás viraram cachepôs e também foram aproveitados nos porta-talheres usados nas mesas do restaurante, enquanto as flores utilizadas na decoração ganharam uma segunda vida pelas mãos da Balaio, que as seca para prolongar seu uso.

— Não é só legal, mas muito importante esse trabalho de dar uma nova vida aos materiais — conta Biron.

Teva Bistrô. Reaproveitamento dos tecidos dos sofás e  uso de flores  secas — Foto: Divulgação/JocaVidal
Teva Bistrô. Reaproveitamento dos tecidos dos sofás e uso de flores secas — Foto: Divulgação/JocaVidal

Na cozinha, o que sobra também pode render. No Bar São Miguel, a chefe de bar Laura Paravato reaproveita limões, laranjas e outros cítricos usados no serviço. As rodelas que não vão para os copos são desidratadas e viram guarnição de coquetéis. Morangos, abacaxi e cítricos também entram em cordiais, geleias, pós e outros preparos. Só com esse trabalho, a economia chega a cerca de R$ 240 a R$ 250 por mês.

— Para mim é meio que inconcebível a gente separar o lixo, mas não ter essa mesma consciência com os insumos que manipula — diz Laura.

No Ocyá, no Leblon, o chef e sócio Gerônimo Athuel leva a ideia para o mar. A casa trabalha com espécies menos comerciais, em parceria com pescadores e com o projeto Mar Ensina, e procura utilizar o peixe por inteiro. Bonito, ubarana, sororoca, faqueco, guaivira, carapeba e pitangola aparecem entre os pescados valorizados pelo restaurante. Cascas de camarão também entram em caldos, manteigas, óleos, farofas e outros preparos.

— Todo peixe é nobre. O Ocyá nasce dessa inquietação de entender melhor o que o mar daqui oferece e usar o que eu quero com a mesma curiosidade de quem fica com brilho nos olhos ao usar um produto que, em tese, é raro — diz.

Laura  Paravato.  No São Miguel,  a chefe de bar trabalha com o reaproveitamento de insumos — Foto: Divulgação/Bar São Miguel
Laura Paravato. No São Miguel, a chefe de bar trabalha com o reaproveitamento de insumos — Foto: Divulgação/Bar São Miguel

Do peixe à borra de café

Fora da cozinha, Gerônimo Athuel leva a mesma lógica para o Patsü, estúdio de design que criou com Esteban Mateu. A dupla recupera madeiras descartadas, muitas encontradas no mar e nas margens de lagoas, e transforma cada fragmento em peça autoral. Em vez de impor uma forma à matéria, o trabalho parte das marcas, fibras, texturas e irregularidades que a madeira já carrega.

— Na natureza, quase nada se perde e, assim como fazemos na cozinha, o nosso trabalho com a madeira parte do resgate e da reinvenção do que foi descartado — conta Athuel.

A mesma lógica aparece no San Omakase, onde Martin Vidal resume a filosofia em uma palavra japonesa: mottainai, associada ao respeito pelos recursos e à ideia de não desperdiçar.

— Um peixe não se resume ao filé ou às partes mais nobres. Dependendo da espécie, diferentes partes podem ter destinos distintos na cozinha, com técnicas e preparos próprios — explica Vidal.

Patsü. Peça do estúdio de design elaborada com madeira reaproveitada e que pode ser usada na decoração — Foto: Divulgação/Patsü
Patsü. Peça do estúdio de design elaborada com madeira reaproveitada e que pode ser usada na decoração — Foto: Divulgação/Patsü

No Polvo Bar, na Polvo Marisqueria e no Crudo Bar, Monique Gabiatti também trabalha com o peixe inteiro: cabeças e espinhas viram caldos, aparas entram em arrozes e embutidos do mar, e os cortes são escolhidos de acordo com a espécie e a textura.

Há reaproveitamento até onde o cliente talvez não imagine. No Zazá Bistrô, a fibra de caju, produzida a partir de resíduos da indústria, entra na receita de guiozas com tucupi. O restaurante também recicla, faz compostagem e destina mais de 1.600 litros de óleo vegetal por ano a um projeto social.

— A questão da sustentabilidade sempre foi norteadora para nós. Começamos a adotar diversas práticas quando o tema ainda não fazia parte das conversas do setor — diz a sócia Zazá Piereck.

No La Villa, em Botafogo, o chef e proprietário Gregoire Fortat transforma cascas, talos, sementes e aparas em caldos, molhos e outros preparos. Cascas de batata viram chips para a equipe, enquanto aparas de carnes, carcaças de frango e espinhas de peixe entram em fundos (caldos concentrados usados como base em outras preparações) e molhos.

— Tenho um pensamento moldado pela história da França, onde o combate ao desperdício vem da memória da escassez de duas guerras mundiais. Levo o lema “Nada se perde, tudo se transforma” muito a sério na cozinha e também na minha vida pessoal — destaca Fortat.

Cafezinho.  No Conserva,  a casca da laranja  é infusionada com cachaça — Foto: Divulgação/Tomás Rangel
Cafezinho. No Conserva, a casca da laranja é infusionada com cachaça — Foto: Divulgação/Tomás Rangel

Em Copacabana, o Conserva usa a casca da laranja em uma infusão de cachaça que entra no Cafezinho, servido com caramelo salgado, café, laranja, chocolate e flor de sal.

— A consciência de consumo com os alimentos é primordial! O Brasil é um país tão rico, e ainda temos grande desperdício de alimentos. A ideia é otimizar o produto de várias maneiras sem gerar desperdício — diz Thiago Teixeira, mixologista e sócio da casa.

Na cozinha do Maya Café, em Laranjeiras, a borra de café também ganhou destino próprio: são cerca de dez a 12 quilos por mês utilizados como adubo no jardim. No Talho Capixaba, no Leblon, uma composteira própria transforma resíduos orgânicos da loja em adubo para frutas vermelhas cultivadas no Vale das Nascentes, na Serra Fluminense. Depois, as frutas retornam ao circuito, usadas em gelatos e sobremesas da casa.

No Belisco, em Botafogo, o aproveitamento começa antes mesmo de o ingrediente chegar à panela. O restaurante trabalha com cardápio sazonal e sugestões do dia para acompanhar a oferta dos pequenos produtores.

— Fazemos assim exatamente para termos um melhor aproveitamento dos insumos que recebemos e como consequência oferecer receitas sempre frescas. Como muitos dos nossos ingredientes vêm diretamente de pequenos produtores, gosto de adaptar de acordo com a oferta que recebo deles — explica Gabi Teixeira, sócia e sommelière do bar.

O lixo como indicador de eficiência

No Nam Thai, no Leblon, o óleo usado na cozinha é recolhido semanalmente: são cerca de 50 litros armazenados e encaminhados a uma empresa especializada.

A preocupação chega também aos hotéis. No Sheraton, um biodigestor processa até 150 quilos de resíduos orgânicos por dia, o equivalente a cerca de quatro toneladas por mês. Desde a implantação, segundo a administração, aproximadamente 192 toneladas deixaram de seguir para aterros. O hotel também mantém, desde 2023, parceria com a ONG Comida Invisível para destinar alimentos ainda próprios para consumo, com doações que chegam a 800 quilos ou até uma tonelada por mês.

— Em uma operação de hotelaria, o desperdício é um tema que exige atenção o tempo todo. A parceria com a Comida Invisível nasceu justamente deste cuidado de dar um destino responsável para alimentos que ainda podem ser consumidos — afirma o chef Ataniel Souza.

Hotel Arpoador. Certificação  de Lixo Zero aponta ótimo índice de boas práticas — Foto: Divulgação/Grupo City & Sea
Hotel Arpoador. Certificação de Lixo Zero aponta ótimo índice de boas práticas — Foto: Divulgação/Grupo City & Sea

No Othon Palace Copacabana, o controle começa no café da manhã. A equipe pesa o que é produzido e o que retorna do bufê para identificar excessos e ajustar a quantidade preparada. Frutas maduras podem virar vitaminas, e vegetais entram em sucos.

— Esse é um trabalho que queremos ampliar cada vez mais. Ao acompanhar os números e entender melhor o nosso consumo, conseguimos tomar decisões mais assertivas sobre a produção e buscar novas formas de aproveitar os alimentos com segurança e responsabilidade — diz Jorge Chaves, diretor comercial e de operações da Rede Othon.

No Santa Teresa Hotel RJ — MGallery, a estratégia passa por planejamento de compras, controle de estoque, aproveitamento integral dos ingredientes e ajuste da produção de acordo com a ocupação. A unidade também reduziu o uso de plástico em amenities e substituiu sacos de lixo por papel kraft.

Já o Grupo City & Sea, responsável pelo Hotel Arpoador e pelo Ipanema Inn, informa que 92% dos resíduos dos dois hotéis deixam de ir para aterros, entre reciclagem e compostagem. Em quatro anos, foram 85 toneladas de recicláveis recuperados e 270 toneladas de resíduos orgânicos compostados. No programa Food Save, o desperdício de alimentos caiu 40% nos primeiros cinco meses e, em 14 meses, mais de dez toneladas deixaram de ser descartadas.

— O lixo deixou de ser algo invisível e passou a ser um indicador de eficiência operacional. Hoje, a destinação correta faz parte da rotina diária, com monitoramento constante e metas claras — diz Daniel Gorin.