Diante da crise climática, Dia Mundial dos Animais pede olhar além da comemoração
Enquanto animais perdem água, alimento e habitat para secas, incêndios e temperaturas extremas, data convida a enxergar o planeta a partir daqueles que também sofrem as consequências da destruição ambiental.
O mundo celebrou neste domingo (04/10) o Dia Mundial dos Animais, mas não há muito a comemorar quando a destruição dos habitats, a crise climática e a exploração continuam restringindo a vida de milhões de indivíduos. Com o tema “Ver o mundo através dos olhos deles”, a data propõe uma mudança de perspectiva. Em vez de enxergar os animais apenas como parte da natureza ou como recursos à disposição humana, o convite é reconhecer suas vidas, seus interesses e o direito de existir sem violência e exploração.
As mudanças climáticas tornam esse desafio ainda mais urgente. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas, as inundações, os incêndios florestais e as alterações nos períodos de chuva transformam os ambientes onde os animais encontram alimento, água e abrigo. Quando esses lugares desaparecem ou deixam de oferecer condições para a sobrevivência, os animais são obrigados a enfrentar consequências que não provocaram.
Na África, a pressão sobre a vida animal já alcança diferentes ecossistemas. Ibrahima Yakubu, chefe de comunicação e estratégias da African Climate Reporters, alerta que as mudanças climáticas representam uma ameaça crescente tanto para animais silvestres quanto para aqueles mantidos em sistemas de exploração humana.
Florestas, pastagens, pântanos e rios fornecem condições essenciais para a vida de inúmeras espécies. A degradação desses ambientes obriga animais a percorrer distâncias maiores em busca de água e alimento, aumentando a exposição a riscos e reduzindo as possibilidades de sobrevivência.
O calor extremo pode provocar estresse térmico, desidratação e morte. A seca prolongada reduz a vegetação e compromete fontes de água. Inundações e incêndios destroem áreas de reprodução, ninhos e abrigos. Cada alteração no ambiente pode significar uma nova barreira para animais que precisam encontrar alimento, formar grupos, reproduzir-se e simplesmente permanecer vivos.
A crise também interfere nos ciclos naturais. Mudanças de temperatura e nas condições sazonais podem alterar os períodos de migração, reprodução e alimentação. Para espécies que já convivem com a destruição de habitats, a caça, a poluição e outras formas de violência provocadas pela ação humana, a emergência climática acrescenta uma ameaça capaz de empurrá-las ainda mais perto da extinção.
Os efeitos não se limitam aos animais que vivem em ambientes naturais ou àqueles submetidos à exploração econômica. Animais domésticos que convivem com seres humanos também estão expostos às consequências de um planeta mais quente e instável.
Cães, gatos e outros animais domésticos podem sofrer com temperaturas elevadas, desidratação e estresse térmico. Em períodos de calor intenso, a dificuldade para dissipar o excesso de temperatura pode comprometer a saúde e, em situações extremas, levar à morte. A falta de água e as alterações na disponibilidade de alimentos também podem agravar a vulnerabilidade desses animais.
Eventos climáticos extremos representam outro risco. Enchentes podem separar animais de suas famílias, destruir locais onde vivem e dificultar o acesso a alimento, água e atendimento. Incêndios florestais e queimadas também podem obrigar famílias a deixar suas casas às pressas, muitas vezes em situações nas quais animais são deixados para trás ou não conseguem ser retirados com segurança.
Animais domésticos em situação de abandono enfrentam condições ainda mais severas. Sem acesso regular a água, alimento e abrigo, ficam diretamente expostos às temperaturas extremas e aos eventos climáticos. A crise climática, nesse caso, aprofunda uma vulnerabilidade que já existe em razão do abandono e da falta de políticas públicas de proteção animal.
Não são apenas os animais silvestres que sofrem.
Bois e outros animais explorados pela pecuária também estão cada vez mais expostos ao calor extremo, à escassez de água, à redução das pastagens e a doenças influenciadas pelo clima. A situação evidencia uma das contradições de um sistema que transforma animais em mercadorias e, ao mesmo tempo, os torna vulneráveis às consequências ambientais desse próprio modelo de exploração.
A crise climática, portanto, não pode ser tratada apenas como uma questão econômica, ambiental ou de conservação. Ela também é uma questão de direitos dos animais.
Um animal que perde seu habitat não perde apenas um espaço físico. Perde as condições que sustentam sua própria existência. Um animal submetido a temperaturas extremas não experimenta apenas uma alteração climática. Sente calor, sede, fraqueza e sofrimento. Uma espécie expulsa de seu território não enfrenta apenas uma mudança geográfica. Seus indivíduos precisam sobreviver em ambientes cada vez mais hostis.
Para Yakubu, governos, organizações de conservação, comunidades e grupos ambientalistas precisam ampliar os esforços para restaurar ecossistemas degradados, proteger florestas e zonas úmidas, melhorar a gestão da água e reduzir atividades que contribuem para as mudanças climáticas.
Ele também defende uma cobertura jornalística mais robusta sobre a relação entre a emergência climática, a sobrevivência dos animais e a preservação dos ecossistemas. A imprensa, segundo ele, pode chamar atenção para o desaparecimento de habitats, a redução das fontes de água e as alterações nos padrões de vida das espécies, além de apresentar soluções capazes de protegê-las.
Esse olhar é necessário porque os animais raramente têm espaço para defender seus próprios interesses nas decisões que determinam o futuro de seus territórios. Florestas podem ser derrubadas, rios podem ser desviados, áreas úmidas podem ser destruídas e animais podem ser deslocados sem que sua vontade seja considerada.
O Dia Mundial dos Animais é importante justamente para questionar essa realidade.
Celebrar animais enquanto seus habitats são destruídos e suas vidas continuam submetidas à exploração significa preservar apenas uma imagem conveniente da relação humana com outras espécies. Respeitá-los exige mais do que desejar sua proteção. Exige reconhecer que suas vidas têm valor independentemente da utilidade que possam ter para os seres humanos.
“Ver o mundo através dos olhos deles” significa perguntar como um animal experimenta um mundo cada vez mais quente, seco e devastado. Significa compreender que a perda de uma floresta pode ser a perda de uma casa, que a seca pode significar sede e fome e que um incêndio pode destruir, em poucas horas, o lugar onde uma vida inteira se desenvolveu.
Também significa reconhecer que a crise climática não atingirá todos da mesma maneira. Animais não participaram das decisões políticas e econômicas que agravaram o aquecimento do planeta, mas estão entre os seres que sofrem suas consequências.
Ao defender que a proteção dos animais passa pela proteção de seus habitats e ecossistemas, Yakubu chama atenção para uma verdade que deveria ultrapassar a data comemorativa. Não existe proteção real quando a vida continua sendo tratada como propriedade, recurso ou matéria-prima.
O Dia Mundial dos Animais pode ser uma celebração. Mas, diante da dimensão da crise climática e da violência que ainda estrutura a relação humana com outras espécies, ele precisa ser também um chamado à mudança.
“Proteger os animais das mudanças climáticas significa proteger seus habitats, ecossistemas e o futuro da própria vida”, afirmou Yakubu.
A frase sintetiza um dos desafios centrais deste Dia Mundial dos Animais. Não basta celebrar a existência dos animais enquanto seus habitats são destruídos e suas vidas continuam submetidas à exploração. Garantir que possam viver exige enfrentar as causas que ameaçam sua liberdade, sua integridade e a continuidade dos ecossistemas dos quais fazem parte.
