Seca de rios globais em 2025 foi uma das piores em 35 anos
OMM alerta sobre o declínio contínuo dos recursos hídricos do planeta, com redução das vazões dos rios, retração das geleiras e queda dos níveis de águas subterrâneas.
O ciclo global da água está cada vez mais instável, alternando entre escassez e excesso, e um episódio de El Niño considerado sem precedentes pode intensificar essa tendência, alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU, nesta quinta-feira (17/09).
Segundo o relatório Estado Global dos Recursos Hídricos, 2025 esteve entre os anos mais secos para os rios do planeta nos últimos 35 anos. Mais de um terço das bacias hidrográficas do mundo registrou vazões abaixo da média histórica, enquanto o volume de água que corre pelos rios globais atingiu um dos três menores níveis das últimas três décadas e meia.
Reservas naturais de água em declínio
O documento mostra que os recursos hídricos globais vêm se tornando mais escassos nos últimos anos, com redução das vazões dos rios, retração das geleiras e queda dos níveis de águas subterrâneas em diversas regiões. O armazenamento de água nos continentes, que inclui aquíferos, lagos, solos, vegetação, neve e gelo, está em declínio contínuo há mais de uma década.
A OMM advertiu que essa tendência tem “sérias implicações futuras”, pois essas reservas funcionam como uma proteção natural contra períodos prolongados de seca. As mudanças climáticas provocadas pela atividade humana, o aumento da demanda por água associado ao crescimento da população mundial e a variabilidade natural do clima estão entre os fatores que explicam as alterações observadas nos recursos hídricos, segundo Wayne Jenkinson, diretor da divisão de Hidrologia e Criosfera da organização.
Embora alguns componentes do ciclo hidrológico, como chuvas, vazão dos rios e umidade do solo, respondam rapidamente às condições meteorológicas, outros atuam como reservas de longo prazo. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, demonstrou preocupação especial com a redução dessas reservas mais lentas, como as águas subterrâneas e as geleiras.

Segundo ela, esses recursos historicamente ajudavam a evitar que uma estação seca se transformasse rapidamente em uma crise hídrica.
“Estamos esgotando essa conta de poupança”, afirmou Saulo. “Estamos consumindo nossas reservas.” Em comunicado que acompanhou o relatório, ela destacou que o armazenamento global de água em continentes vem apresentando uma tendência persistente de queda desde o período entre 2014 e 2016.
Águas subterrâneas atingem níveis preocupantes
O quadro das águas subterrâneas é particularmente preocupante. Segundo o relatório, quase dois terços dos poços monitorados no mundo apresentaram, em 2025, níveis de água abaixo da média de longo prazo. A Europa Central e Oriental esteve entre as regiões mais afetadas pela redução dessas reservas, registrando déficits expressivos em comparação com a média observada entre 2014 e 2024. Poucas outras regiões apresentaram uma deterioração tão acentuada. Em contraste, grande parte do norte da Europa registrou níveis de águas subterrâneas superiores à média histórica.
Além da escassez observada em diversas áreas, algumas bacias hidrográficas apresentaram excesso de água, especialmente em partes do sul da Ásia, refletindo um ciclo hidrológico cada vez mais errático e imprevisível, segundo a OMM.
As geleiras também continuam encolhendo em ritmo acelerado. O ano de 2025 marcou o quarto período consecutivo de perda significativa de massa de gelo em todas as regiões monitoradas. A organização alertou que essa tendência poderá aumentar a insegurança hídrica nas próximas décadas.
Entre 2023 e 2025, as geleiras perderam de forma acumulada cerca de 1.400 gigatoneladas de água. Segundo a OMM, esse volume equivale à quantidade necessária para encher aproximadamente 560 milhões de piscinas olímpicas ou a cerca de um terço de toda a retirada anual de água doce realizada no mundo.
El Niño pode agravar secas e enchentes
Saulo destacou que a deterioração das reservas de água ocorre paralelamente ao aumento dos desastres relacionados à água. A secretária-geral citou especialmente o atual episódio de El Niño, que deve ser o mais intenso desde o início das séries comparáveis de registros, há cerca de quatro décadas.
O fenômeno corresponde à fase quente de um ciclo climático natural que ocorre de cada dois a sete anos. Caracteriza-se por temperaturas acima da média na superfície do Oceano Pacífico e provoca alterações nos ventos e nos padrões de chuva em diferentes partes do mundo.
“O fortalecimento do El Niño aumentará o risco de seca em algumas regiões e de inundações em outras”, alertou Saulo. Mesmo antes da intensificação do fenômeno, os rios já apresentavam vazões consideradas anormais em várias partes do planeta. A OMM classificou 2025 como um dos três anos mais secos para os rios nos últimos 35 anos.
Pelo sétimo ano consecutivo, as bacias hidrográficas com condições consideradas normais foram minoria. Apenas 36% registraram vazões dentro da média histórica. Outros 36% apresentaram níveis abaixo do normal, enquanto 21% ficaram acima da média.
A organização ressaltou a importância da coleta e do compartilhamento de dados para acompanhar as mudanças no ciclo da água e advertiu que ainda existem lacunas significativas de monitoramento em regiões particularmente afetadas.
“O clima não respeita fronteiras, e isso é especialmente verdadeiro para a água”, afirmou Saulo. Ela defendeu a ampliação do intercâmbio de dados, da padronização de informações e dos sistemas de alerta precoce.
“A água que alimenta uma bacia hidrográfica muitas vezes vem de outro país”, observou. “E um desastre relacionado a geleiras em um país pode provocar devastação em outro, como vimos recentemente na tragédia envolvendo China e Nepal.”
gq/cn (AFP, Reuters, DPA, EFE)
