Extensão de cílios pode gerar irritação ocular, obstrução das glândulas e aparecimento de ácaros
Estudo com mulheres jovens encontrou ácaros em quase todas as participantes que usavam extensões regularmente e identificou alterações nas glândulas responsáveis pela proteção da superfície ocular
A busca por cílios mais longos e volumosos pode vir acompanhada de alterações na saúde das pálpebras. Um estudo apresentado no 44º Congresso da Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Refrativa (ESCRS) encontrou o ácaro Demodex folliculorum em 24 das 25 mulheres que faziam extensões de cílios regularmente. A pesquisa também identificou sinais de irritação nas pálpebras e alterações nas glândulas de Meibômio, estruturas responsáveis pela produção da camada oleosa que ajuda a impedir a evaporação das lágrimas.
O Demodex folliculorum é um ácaro microscópico que pode viver nos folículos dos cílios e em outras regiões da pele. Sua presença, por si só, não significa que exista uma doença. Esses organismos podem fazer parte da microbiota normal da região ocular. O problema aparece quando ocorre uma proliferação associada a inflamação e sintomas.
Entre as participantes que apresentaram os ácaros, 18 tinham sinais compatíveis com irritação relacionada ao organismo. Os sintomas incluíam coceira e irritação ao redor das pálpebras, vermelhidão, inchaço, cílios grudados e descamação na base dos pelos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Departamento de Oftalmologia da Universidade Nacional de Medicina Pirogov, na Ucrânia. A equipe investigou 345 mulheres com idades entre 16 e 28 anos. Quase um quarto delas já havia utilizado extensões de cílios.
A frequência de aplicação chamou atenção. Entre as mulheres que recorriam ao procedimento, 58% faziam novas extensões a cada três ou quatro semanas. Quase metade desse grupo, 47,6%, relatou algum tipo de desconforto depois da aplicação, como vermelhidão, lacrimejamento, coceira ou irritação.
Glândulas que ajudam a manter os olhos hidratados
Além dos ácaros, os pesquisadores investigaram o funcionamento das glândulas de Meibômio. Localizadas nas pálpebras, elas liberam uma substância oleosa que integra o filme lacrimal e reduz a evaporação da lágrima.
Para observar essas estruturas, a equipe utilizou a meibografia, técnica que emprega luz infravermelha para visualizar as glândulas através das pálpebras. Entre as mulheres que haviam realizado extensões de cílios pelo menos dez vezes, 85% apresentavam sinais de disfunção dessas glândulas.
A alteração pode envolver obstrução dos canais ou produção inadequada da secreção oleosa. Como consequência, a superfície ocular pode ficar mais vulnerável ao ressecamento e à irritação.
A relação entre o procedimento estético e essas alterações ainda precisa ser investigada com maior profundidade. O adesivo utilizado nas extensões é aplicado próximo à base dos cílios naturais, justamente em uma região próxima às estruturas analisadas no estudo.
Esse posicionamento também pode dificultar a identificação de sinais associados ao Demodex. Um deles são os chamados colaretes, pequenas formações semelhantes a anéis esbranquiçados que ficam ao redor da base dos cílios e podem ser compostas por restos de ácaros, fezes, ovos, células da pele e oleosidade.
Quando um organismo comum se torna um problema
A presença do Demodex exige uma interpretação cuidadosa. Como esses ácaros podem fazer parte da microbiota ocular, encontrá-los nos cílios não significa automaticamente que exista uma infestação ou uma doença.
A situação muda quando aparecem sinais de inflamação, desconforto persistente ou alterações nas pálpebras. Nesses casos, o quadro pode estar relacionado à demodicose ou à blefarite associada aos ácaros.
A pesquisa reforça, portanto, a importância de observar sintomas após procedimentos estéticos realizados muito próximos aos olhos. Coceira recorrente, vermelhidão, descamação, inchaço e sensação de irritação merecem avaliação profissional, principalmente quando persistem.
A higiene adequada das pálpebras também pode contribuir para reduzir problemas. Os pesquisadores apontam a possibilidade de utilizar, sob orientação adequada, produtos em gel hipoalergênicos e sem conservantes desenvolvidos especificamente para a higiene terapêutica das pálpebras. A limpeza pode ser feita duas vezes ao dia com uma escova própria para cílios.
Quando uma infestação por Demodex é confirmada e está associada a sintomas, um profissional de saúde pode avaliar a necessidade de tratamento antiparasitário.
O que o estudo ainda não consegue responder
Apesar dos resultados chamarem atenção, a pesquisa tem limitações importantes. O grupo analisado foi pequeno na etapa de investigação dos ácaros e não houve um grupo de comparação formado por mulheres jovens que nunca utilizaram extensões de cílios.
Isso impede determinar se as extensões são responsáveis pelo aumento da presença dos ácaros ou pelas alterações observadas nas glândulas de Meibômio. Também não é possível estabelecer, com os dados disponíveis, uma relação direta entre a frequência do procedimento e o surgimento dos sintomas.
Estudos maiores, com participantes que usam e que nunca utilizaram extensões, podem ajudar a esclarecer essas associações. A quantidade de ácaros, a frequência das aplicações, os produtos utilizados e o estado das glândulas também precisam ser considerados em pesquisas futuras.
Os resultados, portanto, não indicam que toda pessoa que utiliza extensões desenvolverá problemas oculares. O alerta está relacionado principalmente à higiene, à observação dos sintomas e ao acompanhamento adequado diante de alterações persistentes.
Para profissionais de beleza, o estudo reforça a importância de orientar clientes sobre os cuidados com a região dos olhos e os possíveis sinais de irritação. Para quem realiza o procedimento, manter os cílios e as pálpebras limpos e buscar avaliação diante de sintomas recorrentes pode ajudar a preservar a saúde ocular.
