Agricultura e biodiversidade: uma relação essencial para o futuro da produção
Pesquisadores e agricultores já experimentam bioinsumos e tecnologias regenerativas que utilizam conhecimentos locais e microrganismos para reduzir a dependência de produtos químicos
O Brasil reúne ciência, tecnologia e conhecimento dos agricultores para enfrentar um dos principais desafios do sistema agroalimentar: produzir sem destruir a biodiversidade. O País está entre os mais avançados nessa direção, com experiências que utilizam bioinsumos e conhecimentos locais para construir uma agricultura tropical regenerativa.
Desde a década de 1960, a agricultura passou a apostar em um modelo de produção que não se preocupa tanto com a proteção do meio ambiente. O modelo de produção passou a apostar em sementes de alta produtividade, fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, criando ambientes mais homogêneos e voltados para uma única finalidade: aumentar a produção. Nesse processo, fungos, insetos e microrganismos passaram a ser vistos como ameaças às plantações, e não como parte do equilíbrio dos sistemas agrícolas.
Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) e do Instituto de Energia e Ambiente (IEE-USP), explica que o uso crescente de agrotóxicos cria um ciclo de dependência. Ao eliminar organismos considerados inimigos das plantações, a agricultura acaba selecionando aqueles que conseguem resistir aos produtos utilizados. Com o aumento da resistência, surge a necessidade de desenvolver e aplicar novos agrotóxicos.
As consequências atingem tanto o País quanto os agricultores. Para o Brasil, a dependência de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos importados deixa a produção agropecuária vulnerável, apesar de o País ser uma potência global na oferta de alimentos. Além dos impactos ambientais, como a poluição das águas e a emissão de gases de efeito estufa, há uma dependência externa de insumos essenciais à produção. Para os agricultores, o aumento do uso desses produtos significa custos cada vez maiores, reduzindo a segurança econômica da atividade.
Agricultura regenerativa

Uma das alternativas apontadas é a chamada agricultura tropical regenerativa, que busca reduzir drasticamente o uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos e substituí-los por tecnologias biológicas e descentralizadas. No Brasil, agricultores já trabalham em conjunto com comunidades científicas na produção de microrganismos capazes de aumentar a resistência das plantas sem destruir a biodiversidade. A proposta vai além da simples substituição de produtos químicos por bioinsumos: envolve tecnologias adaptadas às características de cada território e valoriza o conhecimento dos próprios agricultores, que passam a participar também da produção dessas soluções.
A discussão também encontra respaldo em um estudo publicado na revista Nature Sustainability, que defende a adaptação de estratégias usadas na conservação da biodiversidade em ambientes naturais para a proteção da agrobiodiversidade. A perspectiva se aproxima da crítica feita por Ricardo Abramovay ao modelo agrícola que, desde os anos 1960, passou a separar produção e biodiversidade. Para o pesquisador, a agricultura precisa deixar de tratar fungos, insetos e microrganismos apenas como ameaças e passar a manejá-los como parte dos próprios sistemas produtivos. A proposta de integrar conservação e produção reforça, assim, a ideia de que preservar a biodiversidade não significa apenas proteger florestas, mas também transformar a forma como os alimentos são produzidos.
