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G1 20 anos: a ‘Arca de Noé das sementes’ que guarda a comida do futuro

G1 20 anos: a ‘Arca de Noé das sementes’ que guarda a comida do futuro

Em uma montanha no Ártico, cofre reúne cópias de sementes preservadas por bancos genéticos de vários países. A ideia é proteger a diversidade dos alimentos contra guerras, desastres e um clima em transformação.

Como proteger hoje os alimentos que ainda vão alimentar nossos netos?

Parte da resposta está a milhares de quilômetros do Brasil, dentro de uma montanha no Ártico. Ali funciona o Cofre Global de Sementes de Svalbard, na Noruega, criado para guardar cópias de segurança de sementes conservadas por bancos genéticos de diferentes partes do planeta.

É uma espécie de “Arca de Noé das sementes”. Só que, no lugar de animais, entram variedades de arroz, milho, trigo, feijão e outros cultivos que fazem parte da história da agricultura — inclusive aquelas que praticamente deixaram de ser plantadas.

A lógica é simples: se uma variedade desaparecer de um banco genético por causa de uma guerra, incêndio ou outro desastre, a cópia guardada em Svalbard pode permitir que ela seja recuperada. O cofre não substitui os bancos espalhados pelo mundo. Funciona como o backup deles.

E guardar essa diversidade não significa apenas se preparar para uma catástrofe distante. Uma semente pouco usada hoje pode carregar justamente a característica necessária para produzir alimentos em um futuro com mais secas, temperaturas mais altas, novas doenças ou condições diferentes das atuais.

“Se elas não forem cultivadas, mais cedo ou mais tarde vão desaparecer”, afirma ao g1 Fuad Gaši, coordenador do Banco Global de Sementes de Svalbard.

➡️ Os bancos genéticos tentam evitar justamente esse desaparecimento. Neles, cientistas conservam diferentes variedades de plantas para que continuem disponíveis para pesquisa e possam voltar a ser usadas décadas depois.

Na prática, preservar essas variedades amplia as opções dos cientistas para desenvolver cultivos adaptados às condições do futuro.

Banco Global de Sementes de Svalbard, em Longyearbyen, na Noruega, em fevereiro de 2025. — Foto: Michael Major/Crop Trust/Wikimedia Commons

Banco Global de Sementes de Svalbard, em Longyearbyen, na Noruega, em fevereiro de 2025. — Foto: Michael Major/Crop Trust/Wikimedia Commons

Um seguro que já precisou ser usado

Durante a guerra na Síria, iniciada em 2011, a utilidade dessa rede deixou de ser apenas uma hipótese.

Com o conflito, pesquisadores do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas (Icarda) tiveram de abandonar um importante banco genético que funcionava no país. Parte de sua coleção, no entanto, já havia sido duplicada e enviada para Svalbard.

As sementes puderam ser retiradas do cofre e usadas para reconstruir as coleções em instalações no Líbano e no Marrocos.

“Se não fosse pelo Svalbard Global Seed Vault e pelo envio dessa coleção para o cofre, muitas dessas amostras teriam desaparecido hoje”, diz Gaši.

O caso da Síria expôs justamente o risco de concentrar uma coleção inteira em um único lugar. Bancos genéticos podem levar décadas para reunir e conservar sementes, variedades e outros materiais importantes para a agricultura. Uma guerra, um terremoto, um furacão ou outra emergência pode destruir esse patrimônio em pouco tempo.

Sarada Krishnan, diretora de programas do Crop Trust, organização que participa da operação de Svalbard, explica que cada país mantém seus próprios bancos genéticos.

O cofre no Ártico funciona então como uma reserva dessas coleções, para que o material possa ser recuperado caso os exemplares originais sejam perdidos.

“As sementes enviadas a Svalbard, no entanto, continuam pertencendo às instituições que fizeram o depósito. Elas não ficam disponíveis para retirada ou distribuição por outros países: apenas a instituição responsável pode solicitar de volta o material que armazenou”, diz.

Imagem do Icarda após a transferência das atividades da Síria para unidades no Líbano e no Marrocos, em meio à guerra. — Foto: J. Owens/VOA/Wikimedia Commons

Imagem do Icarda após a transferência das atividades da Síria para unidades no Líbano e no Marrocos, em meio à guerra. — Foto: J. Owens/VOA/Wikimedia Commons

O Brasil também guarda a comida do futuro

O Brasil também participa dessa rede de conservação. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresa pública federal de pesquisa ligada ao Ministério da Agricultura, mantém bancos genéticos em diferentes unidades do país e um acervo nacional em Brasília.

Parte desse material também é enviada para Svalbard, onde fica armazenada como uma cópia extra de segurança.

Este ano, o Brasil tem pelo menos 8.149 amostras depositadas no cofre norueguês, com predominância de arroz, milho e feijão. O acervo inclui ainda soja, trigo, caju, fava, amendoim, mamona e gergelim.

Essas coleções, porém, não servem apenas para situações extremas. Elas também podem ser usadas em pesquisas para enfrentar problemas que já afetam a produção agrícola.

A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, cita como exemplo a vassoura-de-bruxa da mandioca no Amapá. Com o avanço da doença, pesquisadores recorreram a materiais conservados nos bancos genéticos para estudar variedades mais resistentes.

E a mesma estratégia pode ajudar diante da mudança do clima. Variedades preservadas hoje podem ter características úteis para o desenvolvimento de plantas mais tolerantes à seca, ao calor, ao frio e a novas doenças.

“É para garantir a segurança alimentar. Em primeiro lugar, garantir a segurança alimentar do nosso país e também ajudar a garantir a segurança alimentar para o mundo todo”, afirma Massruhá ao g1.

Caixa com sementes da Embrapa é entregue no Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega. — Foto: Embrapa

Caixa com sementes da Embrapa é entregue no Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega. — Foto: Embrapa