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Sem adaptação, mudanças climáticas podem custar até 50% do PIB global até 2070, aponta relatório

Sem adaptação, mudanças climáticas podem custar até 50% do PIB global até 2070, aponta relatório

Estudo da Morphosis Solutions com FGVces, Instituto Itaúsa, Paulson Institute e Basilinna propõe framework de sete eixos de políticas públicas para destravar mercados de adaptação

Incêndios florestais, tempestades, inundações e secas ligados às mudanças climáticas causaram, em 2024, perdas econômicas globais superiores a US$ 300 bilhões — o equivalente a menos de 0,3% do PIB (Produto Interno Bruto) global. É o que aponta o relatório “O surgimento da economia de adaptação: Investindo em Adaptação e Resiliência em um mundo com temperatura média acima de 1,5°C”, divulgado em novembro de 2025 pela Morphosis Solutions em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), o Instituto Itaúsa, o Paulson Institute e a Basilinna.

Segundo o documento, essas perdas, que estão concentradas majoritariamente em 55 países, onde vivem 3,6 bilhões de pessoas consideradas altamente vulneráveis pela ONU, são apenas o começo. Sem uma resposta ambiciosa de adaptação, o relatório projeta que os prejuízos podem chegar a 20% do PIB global até 2050 e a 50% até 2070.

Os autores alertam que o risco não se resume a números, mas envolve competição crescente por recursos essenciais como água e alimentos, exclusão de países mais vulneráveis do acesso a capital em condições favoráveis e erosão da governança e da solidariedade internacionais, um cenário que resultaria em uma economia global menor, mais frágil e mais desigual.

O relatório soma-se a um sinal de mudança de prioridades. Depois de uma década de foco quase exclusivo em metas de redução de emissões, a experiência recente com eventos climáticos extremos tem levado governos, empresas e sociedade civil de diferentes orientações políticas a cobrar ações também no campo da adaptação.

O documento define a “economia da adaptação” como o conjunto de atividades, políticas e instituições que entregam bens, serviços e sistemas capazes de sustentar prosperidade inclusiva em um mundo impactado pelo clima.

Apesar do crescente interesse do mercado — fundos como o soberano de Singapura (GIC) já projetam esse mercado saltando de US$ 1 trilhão hoje para US$ 4 trilhões até 2050 —, o relatório descreve um cenário de financiamento ainda insuficiente e concentrado em poucos setores.

Em 2023, do total de US$ 1,9 trilhão em fluxos financeiros climáticos globais, apenas 3,4% (cerca de US$ 65 bilhões) foram destinados à adaptação, concentrados principalmente em água saneamentomudança do uso da terra e gestão de riscos de desastres. Para efeito de comparação, os países em desenvolvimento precisariam, segundo o estudo, de US$ 222 bilhões por ano até 2030 apenas para reduzir os impactos econômicos das mudanças climáticas.

O relatório também aponta que tratar a adaptação apenas como um desafio de financiamento tem sido pouco eficaz. Uma análise de quase 50 mil artigos e relatórios científicos sobre ações de adaptação já implementadas no mundo tentou responder a uma pergunta simples: o que, de fato, tem sido feito na prática — e não apenas planejado ou anunciado? Do total analisado, apenas uma parcela pôde ser verificada de forma robusta, ou seja, com comprovação real de que a ação ocorreu e teve efeito. Essa parcela verificada mostrou um padrão consistente: as adaptações eram, em sua maioria, fragmentadas (iniciativas isoladas, sem conexão entre si), locais (restritas a uma comunidade, bairro ou município, sem alcance regional ou nacional) e incrementais (ajustes pontuais, como elevar uma casa ou trocar uma cultura agrícola, em vez de mudanças estruturais mais profundas).

O levantamento encontrou poucas evidências de “adaptação transformadora”, ou seja, de mudanças que reorganizam sistemas inteiros, como o replanejamento urbano de uma cidade para conviver com enchentes. Também identificaram poucas evidências de que essas ações, de fato, reduziram o risco das populações afetadas. Para os autores do relatório, esse retrato reforça a tese de que tratar a adaptação apenas como um problema de financiamento não tem sido suficiente: falta uma estrutura de políticas públicas capaz de sustentar essas ações em maior escala.

Solução: framework de 7 eixos de políticas públicas

Em vez de recomendar medidas isoladas, o relatório propõe o primeiro framework de políticas públicas de aplicação geral voltado a catalisar mercados de adaptação, estruturado em sete campos:

  1. resiliência econômica;
  2. expectativas de risco e mudança comportamental;
  3. capacidade do mercado financeiro;
  4. empreendedorismo, inovação e difusão tecnológica;
  5. qualidade e robustez da infraestrutura;
  6. eficiência e integridade da governança;
  7. coesão social.

A lógica é a mesma que, segundo os autores, transformou a energia renovável em um mercado de trilhões de dólares nas últimas décadas. Citam tarifas feed-in, contratos de compra de energia e padrões técnicos, entre outras políticas, como indutoras de previsibilidade a investidores e , consequentemente, contribuíram para reduzir o risco percebido e ampliar a possibilidade de investimento. Para a adaptação, ainda não existe um “manual” equivalente, o que, segundo o relatório, não deveria ser motivo para abordagens improvisadas, mas sim a justificativa para padronizar políticas.

O documento traz exemplos concretos de países que já aplicam, mesmo sem usar o termo, alavancas alinhadas ao framework. No Brasil, o Programa de Subsídio ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) reduziu o custo dos seguros agrícolas e ajudou a direcionar o comportamento de produtores para escolhas mais resilientes ao clima. Na China, a Estratégia de Dupla Circulação priorizou a resiliência de cadeias de suprimento domésticas em setores como agricultura e infraestrutura hídrica. No Quênia, reformas regulatórias no seguro agrícola indexado ampliaram o acesso de pequenos produtores a instrumentos de proteção contra riscos climáticos.

Segundo o relatório, quando governos oferecem a combinação certa de políticas, instituições e incentivos, conseguem atrair o talento, a tecnologia e o capital necessários para expandir esses mercados, reduzindo, ao mesmo tempo, a dependência de fundos públicos cada vez mais escassos: a dívida pública média dos países da OCDE, por exemplo, mais que dobrou na última década, e a ajuda internacional ao desenvolvimento caiu 7,1% em termos reais em 2024.

Investimento privado em adaptação ainda é baixo

Apesar do apetite crescente de investidores por exposição a soluções de adaptação, o relatório mostra que o sentimento predominante do mercado ainda é de que esses investimentos não são lucrativos nas condições atuais. As barreiras identificadas incluem dados insuficientes sobre risco climáticosinais de preço distorcidos, subsídios que favorecem práticas insustentáveis e expectativas de consumidores pouco desenvolvidas.

Esse ciclo, segundo o documento, cria subvalorização e subinvestimento em empresas e ativos de soluções de adaptação, o que restringe inovação e escala. Assim, na prática, limita o acesso de famílias de baixa e média renda a soluções básicas, da refrigeração residencial ao acesso à água potável.

Essa distância entre o desenho de políticas e a realidade de quem já convive com os efeitos das mudanças climáticas aparece de forma direta no projeto Retrato das Enchentes, conduzido pelo Instituto Decodifica com apoio do Instituto Itaúsa. A pesquisa, de caráter preliminar, combinou grupos focais, oficinas territoriais e 718 entrevistas domiciliares em quatro comunidades — Acari e Kennedy, no Rio de Janeiro, e Passarinho e Dois Carneiros, em Pernambuco —, alcançando 2.177 pessoas.

Os dados revelam alta vulnerabilidade socioeconômica: quase 70% dos entrevistados vivem com até dois salários mínimos, e um terço sobrevive com até um salário mínimo mensal. Em relação às enchentes, 64,1% relataram já ter tido a casa invadida pela água e, em 53,3% dos casos, o nível chegou a ultrapassar um metro dentro das residências.

O estudo conclui que as enchentes são um problema estrutural nas periferias brasileiras, agravado pela baixa renda, pela falta de saneamento e pela oferta insuficiente de serviços públicos. Cerca de 40% dos moradores afirmaram já ter feito adaptações por conta própria — como elevar o térreo, ampliar escadas ou construir novos pavimentos —, mas o apoio institucional segue limitado e desigual: em vários territórios, a maior parte da ajuda recebida chega apenas em situações emergenciais e é considerada insuficiente pela maioria dos moradores.

Para os autores do relatório, a adaptação não deve ser tratada como mais um segmento vertical ao lado de baixo carbono e natureza, mas como uma lente sistêmica sobre como toda a economia precisará se reorganizar diante de um mundo com aquecimento superior a 1,5°C — muito provavelmente, acima dos 2°C.

O relatório defende que as finanças precisam estar a serviço dessa transformação mais ampla. Décadas de trabalho sob a bandeira das “finanças sustentáveis” mostraram o potencial, mas também os limites, de tentar resolver a adaptação apenas pelo lado da oferta de financiamento.

Os investidores, argumenta o estudo, precisam entender onde estará a fonte de valor do futuro em um mundo com impactos climáticos severos. Esse valor, destaca os autores, só deve ser alcançado em nações resilientes e em empresas e ativos de soluções de adaptação capazes de entregar os produtos e serviços que as pessoas vão precisar e conseguir pagar.

O framework proposto é apresentado como uma primeira iteração, ainda em construção, que continuará sendo testado, revisado e detalhado, inclusive com o desenvolvimento de uma versão indexada que permita comparar o progresso de políticas entre diferentes países ao longo do tempo.