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Dezenas de organizações e institutos se unem para coordenar ações diante de possível ‘Super El Niño’

Dezenas de organizações e institutos se unem para coordenar ações diante de possível ‘Super El Niño’

Articulação liderada pelo Instituto Itaúsa reúne cerca de 40 organizações filantrópicas corporativas e prevê ações em nas frentes de educação, apoio a municípios, comunicação de risco e repasse de recursos a organizações comunitárias

Enquanto instituições filantrópicas e empresas se preparam para possíveis impactos de um novo episódio de El Niño, uma articulação liderada pelo Instituto Itaúsa tenta mudar a lógica de resposta a eventos climáticos extremos no Brasil. Em vez de esperar a emergência acontecer para então mobilizar recursos, a proposta é coordenar previamente ações, investimentos e capacidade de resposta.

O movimento reúne cerca de 40 organizações, entre institutos e fundações empresariais e áreas de responsabilidade social de companhias com atuação em diferentes regiões do país, incluindo o Valor Social, quem coordena as ações de responsabilidade social e compromisso público da Globo. O grupo se encontrou há cerca de duas semanas, em uma reunião promovida pelo Instituto Itaúsa, para discutir como a filantropia poderia atuar de forma coordenada diante de um eventual agravamento dos impactos associados ao fenômeno climático.

Em entrevista ao Um Só Planeta, Marcelo Furtado, responsável pela área de sustentabilidade da Itaúsa, contou que a discussão partiu de uma questão central, sobre como fazer com que os recursos destinados a emergências tenham maior impacto quando são mobilizados de forma conjunta.

“A gente juntou 40 filantropias no nosso escritório, a maioria filantropias corporativas que têm operações pelo Brasil afora, que sabem que se tiver um cenário muito catastrófico, vão fazer aportes emergenciais”, afirmou Furtado.

A proposta, segundo ele, é ir além da simples soma de esforços. “Será que a gente consegue fazer o um mais um dar onze?”, questionou. A ideia é que organizações que já teriam de qualquer forma destinado recursos a uma emergência climática possam coordenar previamente suas ações para evitar sobreposição, ampliar a eficiência dos investimentos e fazer com que o dinheiro chegue mais rapidamente aos territórios afetados.

Quatro frentes de ação

Do encontro saíram quatro frentes de atuação que já começaram a ser estruturadas pelas entidades participantes. A articulação é coordenada por Natália Cerri, gerente de projetos do Instituto Itaúsa, que também participou da conversa com o Um Só Planeta.

A primeira proposta é criar um pacto para evitar que eventos climáticos extremos provoquem a interrupção da trajetória escolar de crianças. A experiência das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, mostrou como escolas podem ser utilizadas como abrigos emergenciais, comprometendo a continuidade das aulas. Uma das alternativas discutidas é utilizar estruturas como quadras esportivas para essa finalidade, preservando os espaços destinados à educação.

A segunda frente é o apoio a municípios pequenos e médios, que muitas vezes não dispõem de equipes, dados e ferramentas suficientes para elaborar planos de emergência e adaptação climática. A ideia é contribuir para que essas cidades estejam mais preparadas antes da chegada de eventos extremos.

A terceira envolve comunicação de risco. Segundo Cerri, empresas com grande capacidade de comunicação e capilaridade, como a Globo e a rede de farmácias RD Saúde, que poderiam participam da articulação para ajudar a levar informações à população sobre os riscos associados ao fenômeno e sobre como se preparar.

A quarta frente busca fortalecer as organizações comunitárias que atuam diretamente nos territórios atingidos. A experiência da pandemia de covid-19 mostrou, segundo Cerri, a importância de fazer com que os recursos cheguem rapidamente a organizações que conhecem as comunidades e conseguem mobilizar respostas locais.

“Garantir que esse recurso vai chegar onde precisa, com rastreabilidade e com confiança”, afirmou Cerri, ao descrever o desafio dessa frente.

Coordenação antes da emergência

Após o encontro, o grupo fez uma relatoria com o mapeamento dos principais temas e territórios identificados durante a discussão. A próxima etapa é formar grupos de trabalho temáticos entre as organizações participantes.

A intenção é que essas estruturas estejam funcionando antes do verão, período com maior risco de enchentes no Sul do país, entre dezembro deste ano e março de 2026. O encontro também contou com uma apresentação do pesquisador Gilvan Sampaio, coordenador geral da área ambiental do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o fenômeno.

A lógica, segundo Furtado, não é criar uma nova estrutura filantrópica, mas melhorar a coordenação de recursos que as organizações já destinariam a situações de emergência. “Você já iria investir de qualquer jeito. A gente só está querendo dar mais qualidade para esse investimento, mais governança, coordenação e planejamento”, afirmou ao Valor.

Cerri deu um exemplo do tipo de ineficiência que a articulação busca evitar. Em situações de emergência, diferentes empresas podem acionar simultaneamente a Defesa Civil ou identificar, de forma isolada, necessidades como veículos para combater incêndios florestais. A proposta do grupo é justamente coordenar essas iniciativas para evitar sobreposição de esforços e direcionar os recursos para onde sejam mais necessários.

Furtado retomou o exemplo para reforçar a ineficácia de decisões tomadas de forma isolada. Segundo ele, durante os incêndios no Pantanal, por exemplo, ficou evidente que a resposta mais eficiente não necessariamente passa pela compra de equipamentos pelas empresas. “Em incêndios florestais, a rapidez para chegar ao local é determinante, e brigadas voluntárias e indígenas costumam estar mais próximas das áreas afetadas”, afirmou. Por isso, na avaliação do executivo, financiar e estruturar essas brigadas pode ser mais eficiente do que cada empresa adquirir individualmente um caminhão de bombeiros.

Cerri completou dizendo que já existem estruturas capazes de direcionar esse tipo de investimento com mais eficiência, como o Fundo Casa Socioambiental, que treina brigadas antes de mobilizá-las.

Segundo ela, apesar de a articulação ter nascido em resposta ao El Niño, o grupo saiu do encontro com a percepção de que emergências climáticas se tornaram “o novo normal” para as filantropias, o que exige uma arquitetura permanente de resposta, e não apenas mobilizações pontuais. Questionada sobre a participação de organizações do setor de seguros, um dos mais impactados pelas mudanças do clima, ela comenta que esta é uma lacuna já identificada e que deve ser trabalhada nas próximas rodadas de discussão.