“A tecnologia deve servir às pessoas – e não o contrário”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na Cerimônia de Abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, 17 de julho.
Vossa Excelência, presidente Xi Jinping,
Muito obrigado pelo seu gentil convite e pela sua calorosa hospitalidade nesta maravilhosa cidade de Xangai.
Excelências, senhoras e senhores,
A inteligência artificial pode ser a maior oportunidade da humanidade no século 21.
Também pode se tornar um de seus maiores riscos.
Como nos lembra o tema da Conferência, um futuro mais promissor depende de parcerias.
E agradeço à China por nos reunir nesse espírito.
O lançamento, pelo presidente Xi, em 2023, da Iniciativa Global de Governança da IA foi uma mensagem muito forte do compromisso e da liderança da China, e a WAICO é seu desdobramento natural.
A parceria também está no centro do Pacto Digital Global adotado pela Assembleia Geral da ONU – com total apoio da China.
O Pacto deixou claro:
- A tecnologia que moldará o futuro da humanidade deve ser moldada por toda a humanidade.
- Ela não pode ser governada por um punhado de países ou por um punhado de empresas.
- Cada nação precisa de um lugar à mesa.
E essa mesa foi montada por meio do Diálogo Global sobre Governança da IA – conforme previsto no Pacto.
O primeiro desses diálogos, realizado neste mês em Genebra – e com base nas recomendações do Painel Científico Internacional Independente –, transmitiu uma mensagem primordial:
A tecnologia deve servir às pessoas – e não o contrário.

Excelências,
Poucas áreas oferecem maior promessa para o nosso futuro comum do que a aplicação da IA ao desenvolvimento sustentável:
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A IA pode acelerar avanços médicos.
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Transformar a educação.
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Fortalecer os sistemas alimentares e a produtividade agrícola.
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Impulsionar novas indústrias e criar empregos dignos.
Em resumo, a IA pode ajudar a promover um salto quântico em todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Mas isso não acontecerá se as injustiças históricas do passado se repetirem nas tecnologias do futuro.
E, no entanto, um terço da humanidade ainda está sem acesso à internet.
Muitos países continuam enfrentando lacunas em conectividade, infraestrutura e acesso à energia.
O poder de computação, os recursos de dados e o conhecimento técnico permanecem concentrados.
Centenas de bilhões de dólares em investimentos privados inundam o setor de inteligência artificial – enquanto muitos países em desenvolvimento recebem apenas uma ínfima parte dele.
A IA corre o risco de empurrar o mundo para desigualdades ainda maiores… maiores divisões de renda, de oportunidades, de segurança… maiores disparidades entre o Norte e o Sul.
Não podemos deixar que isso aconteça.
O desafio que temos diante de nós é garantir que a inteligência artificial se torne uma força para maior inclusão e progresso compartilhado.
A China tem um papel essencial a desempenhar – assim como todos e todas nós.
Sinto-me encorajado pelo fato de mais de 20 países – incluindo a China – já terem respondido ao meu convite e indicado centros para uma Rede Global de Intercâmbio e Cooperação em Capacitação em IA, apoiada pela ONU, a serviço dos países em desenvolvimento.
E também apresentarei em breve recomendações para um Fundo Global para a IA com o mesmo objetivo.
Peço seu total apoio a ambas as iniciativas.
Ao olharmos para o futuro, gostaria de destacar três prioridades para ajudar a garantir que todos os países possam se beneficiar da revolução da IA.
Primeiro – capacidade.
Os países em desenvolvimento trazem enormes recursos para a era da IA.
Talento. Ideias. Populações jovens e dinâmicas.
Cada país deve ser capaz de adaptar essa tecnologia às suas próprias necessidades: com suas próprias competências, seus próprios dados e em seus próprios idiomas.
Nas Nações Unidas, a China ajudou a promover a primeira resolução da Assembleia Geral sobre capacitação em IA, adotada por consenso.
E os países em desenvolvimento merecem apoio para desenvolver essa capacitação.
As plataformas e ferramentas discutidas aqui em Xangai mostram o que a parceria pode oferecer.
Tecnologia desenvolvida com os países em desenvolvimento, para os países em desenvolvimento.
E isso significa modelos abertos que os países possam adaptar.
A estratégia de código aberto da China é um enorme sucesso global.
É preciso fornecer o poder de computação que eles possam pagar.
E treinamento para as pessoas que irão utilizá-los.
Segundo – segurança.
Sistemas que ultrapassam fronteiras precisam de padrões que ultrapassem fronteiras.
Precisamos de abordagens comuns para testes, avaliação de riscos e responsabilidade.
Precisamos de uma governança que seja inclusiva, em rede e ancorada no direito internacional.
Os direitos humanos devem ser protegidos.
Os seres humanos devem manter o controle sobre todas as decisões de vida ou morte.
E nenhum sistema de IA deve ser colocado nas mãos de uma criança antes de ter sido comprovado que é seguro.
E, em terceiro lugar – sustentabilidade.
A IA pode ajudar a acelerar a transição energética – gerenciando redes, integrando energias renováveis, reduzindo o desperdício.
Mas suas crescentes demandas por energia, água e terra devem ser trazidas à tona.
Apelo a todas as grandes empresas de IA para que divulguem a pegada ambiental completa de seus sistemas – e os alimentem com energias renováveis até 2030.
Vários países – principalmente a China – já exigem que os centros de dados utilizem mais energia renovável a cada ano.
Peço a todos os governos que sigam esse exemplo – e incluam a energia limpa para a IA em seus planos nacionais de energia.

Excelências,
A questão decisiva não é se a inteligência artificial transformará o mundo. Ela transformará.
A questão decisiva é se essa transformação reduzirá as desigualdades ou as reforçará.
Se concentrará o poder ou ampliará as oportunidades.
Se trará a promessa de progresso para todos os países – ou apenas para aqueles que já estão à frente.
Este é um teste à tecnologia – e um teste à solidariedade.
Passemos nesse teste como parceiros por um futuro mais promissor – e tornar a IA uma força em prol da dignidade, das oportunidades e do desenvolvimento sustentável para todas as pessoas.
E agradeço a todos e todas.
Para saber mais, acesse a cobertura da ONU News em português e o Relatório Preliminar do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial da ONU.
