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Baixa cobertura de nuvens ajudou a atenuar o aquecimento global nos últimos 47 anos

Baixa cobertura de nuvens ajudou a atenuar o aquecimento global nos últimos 47 anos

Modelagem baseada em quase cinco décadas de observações por satélite mostra que as nuvens baixas ajudaram a conter o aumento da temperatura global desde 1979

As nuvens baixas figuram entre os elementos mais complexos da ciência do clima. Embora sua capacidade de refletir a radiação solar seja conhecida há décadas, a resposta dessas formações ao avanço do aquecimento global permanece cercada de incertezas. Um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters reuniu registros históricos de satélites e dados de reanálise atmosférica para reconstruir a evolução dessas nuvens entre 1979 e 2025, oferecendo um panorama mais consistente sobre seu  papel na regulação da temperatura da Terra.

Durante esse período, a cobertura de nuvens baixas sobre as regiões tropicais apresentou crescimento médio de aproximadamente 0,18% por década. Grande parte dessa expansão ocorreu entre nuvens do tipo stratocumulus, reconhecidas por sua elevada capacidade de refletir a luz solar de volta ao espaço. Como consequência, esse aumento gerou um efeito de resfriamento estimado em cerca de -0,79 watt por metro quadrado para cada grau Celsius de aquecimento, reduzindo parte da elevação da temperatura observada nas últimas décadas.

Os pesquisadores também identificaram fatores atmosféricos responsáveis por essa tendência. O fortalecimento da inversão térmica estimada e as alterações na velocidade dos ventos próximos à superfície favoreceram a formação dessas nuvens. Em contrapartida, o aumento da temperatura da superfície do mar exerceu influência oposta, reduzindo parcialmente esse crescimento da cobertura de nuvens.

A reconstrução histórica exigiu um trabalho de integração de dados provenientes de 13 satélites diferentes. Como os instrumentos, os métodos de calibração e os critérios de classificação de nuvens mudaram ao longo das décadas, a equipe desenvolveu uma metodologia baseada em anomalias para minimizar diferenças entre plataformas e produzir um registro contínuo e comparável.

Essa abordagem ajuda a preencher uma lacuna importante na climatologia. Até então, a fragmentação dos registros dificultava a avaliação direta de como as nuvens baixas haviam respondido ao aquecimento moderno, limitando a precisão das projeções climáticas.

As incertezas permanecem especialmente porque os modelos climáticos costumam indicar um comportamento diferente daquele observado nas últimas décadas. Em geral, as simulações projetam redução da cobertura de nuvens baixas sobre os oceanos tropicais à medida que a temperatura global aumenta. Com menos nuvens refletindo a radiação solar, uma parcela maior da energia permanece na atmosfera, fortalecendo o aquecimento.

Diversos estudos anteriores estimaram esse processo a partir da relação entre a cobertura de nuvens e fatores atmosféricos de controle, utilizando projeções do conjunto de modelos climáticos CMIP6. Os resultados normalmente apontam um feedback positivo das nuvens baixas, indicando contribuição para o aumento das temperaturas, embora exista ampla variação entre os modelos quanto à intensidade desse efeito.

Os autores do novo estudo observam que análises fundamentadas em registros históricos sugerem um comportamento mais moderado do que aquele apresentado em muitos cenários idealizados. Estimativas baseadas nas observações indicam que a resposta das nuvens tropicais pode ser entre três e quatro vezes menor do que a prevista em diversas projeções do CMIP6, levantando questionamentos sobre parte das simulações utilizadas atualmente.

Apesar disso, a comparação entre o novo banco de dados e os modelos climáticos trouxe um resultado preocupante. As simulações que reproduziram com maior fidelidade os padrões históricos de cobertura de nuvens também projetaram o feedback positivo mais intenso para o futuro, acompanhado por maior sensibilidade climática. Em outras palavras, os modelos capazes de representar melhor o comportamento passado indicam um planeta mais vulnerável ao aquecimento nas próximas décadas.

Uma das explicações está na diferença entre os padrões históricos e aqueles simulados para o futuro. Nas últimas décadas, o Pacífico Oriental apresentou uma combinação de massas de ar quente e frio que favoreceu a formação de nuvens altamente refletoras. Os cenários futuros, porém, apontam mudanças na circulação atmosférica e aquecimento adicional dos oceanos capazes de reduzir essa cobertura protetora.

Os pesquisadores ressaltam que aperfeiçoar a representação da temperatura da superfície do mar nos modelos climáticos será um dos principais caminhos para reduzir as incertezas nas projeções. Melhorar a distinção entre as variações naturais do clima e aquelas provocadas pelas atividades humanas também poderá ampliar a confiabilidade das estimativas sobre o papel das nuvens no sistema climático.

O estudo reforça que as nuvens baixas desempenharam uma função importante na moderação do aquecimento global desde o fim da década de 1970. Ao mesmo tempo, evidencia que esse mecanismo natural pode perder eficiência ao longo deste século, tornando ainda mais relevante o aprimoramento dos modelos climáticos para antecipar a velocidade e a intensidade das mudanças que já estão em curso.