Ingresso seria R$ 560 mais caro se FIFA repassasse à torcida gastos necessários para compensar emissões de CO2 da Copa
Pesquisa calcula que deslocamento de torcedores responde por 82% da pegada de carbono do torneio, que, nesta edição, deve se igualar às emissões anuais de um país inteiro; entenda
Um novo estudo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, estima que cada ingresso de partida da Copa do Mundo de 2026 precisaria custar, em média, US$ 114 (cerca de R$ 560) a mais para compensar integralmente os danos climáticos causados pelo evento. O valor corresponde ao custo estimado de neutralizar as emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás causador do efeito estufa, geradas pelo torneio, caso essa despesa fosse repassada diretamente ao público.
A pesquisa, publicada na última quinta-feira (16) na revista Communications Sustainability, aponta que a ampliação do Mundial para 48 seleções — 16 a mais do que o formato anterior, praticado entre as edições de 1998 e 2022, que previa 32 equipes — elevou as emissões do evento em mais de meio milhão de toneladas de CO2. No total, a Copa de 2026, disputada nos territórios dos Estados Unidos, México e Canadá, deve emitir cerca de 4,23 milhões de toneladas de carbono.
Segundo os pesquisadores, 82% desse total vem do deslocamento dos torcedores até os estádios, e só os voos respondem por 3 milhões de toneladas emitidas. Isso significa que a maior parte do dano ambiental do torneio não está relacionada à operação dos estádios ou à infraestrutura do evento, mas, sim, à logística de viagem do público. Para se ter noção da dimensão do problema, as emissões totais projetadas para a Copa equivalem à pegada de carbono anual da Islândia.
Cobrar mais caro não é a melhor solução
Embora o estudo calcule o valor que precisaria ser adicionado ao preço dos ingressos para cobrir o custo climático do evento, os próprios autores afirmam que essa não seria a estratégia mais eficiente. Como o deslocamento dos torcedores é, disparado, a maior fonte de emissões, eles defendem que a solução mais eficaz seria atacar diretamente esse problema, não simplesmente encarecer o ingresso.
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A proposta dos cientistas é que os organizadores de megaeventos ofereçam descontos e incentivos a torcedores que optarem por meios de transporte com menor emissão de carbono, como trens ou caronas compartilhadas, em vez de voos. Segundo a equipe, essa seria uma forma de “compartilhar a responsabilidade” pelos danos ambientais causados pelo evento entre organizadores e público.
“Estratégias climáticas eficazes para megaeventos como a Copa do Mundo vão muito além da redução das emissões operacionais nos locais de competição, já que isso representa apenas uma fração da pegada de carbono total”, afirma Shaun Larcom, professor de economia agrária e autor correspondente do estudo, em comunicado. “Como constatamos com a abordagem do Coldplay [descrito a seguir], a verdadeira sustentabilidade surge quando os organizadores influenciam o sistema mais amplo de comportamento dos fãs, desde o transporte e o trajeto até as decisões sobre a escala e o design de um evento.”
O exemplo do Coldplay
Para fins de comparação, os pesquisadores analisaram os dados da turnê europeia da banda britânica Coldplay em 2024, que vendeu 1,9 milhão de ingressos em 32 shows realizados em dez cidades. Nesse caso, repassar o custo climático da turnê aos fãs adicionaria apenas US$ 11 (R$ 56) por ingresso — um valor muito menor do que o calculado para a Copa do Mundo, já que a escala logística de um show é bem menor que a de um torneio internacional de futebol.
A banda adotou iniciativas para reduzir sua pegada de carbono, como o uso de sistemas de palco movidos a energia solar. No entanto, segundo o estudo, quase toda a redução de emissões da turnê — cerca de 98% — não veio dessas medidas técnicas, mas de uma mudança voluntária no comportamento dos próprios fãs.
Os pesquisadores calcularam que o público reduziu em 48% as emissões relacionadas às suas viagens até os shows. Combinada a outras medidas de baixo carbono adotadas pela produção, essa mudança de hábito diminuiu em 46% as emissões totais da turnê, na comparação com uma turnê convencional. Essa mudança de comportamento foi incentivada pela própria banda, que disponibilizou aplicativos para os fãs compararem opções de viagem com menor emissão de carbono até os locais dos shows, além de oferecer descontos em produtos para quem optasse por deslocamentos mais sustentáveis.
“O entretenimento ao vivo tem consequências ambientais. Mas, ao contrário de muitas indústrias com alta emissão de carbono que operam com margens de lucro reduzidas e distantes dos consumidores, os megaeventos geram um valor econômico substancial e estão excepcionalmente próximos de seu público, o que lhes confere tanto os meios quanto a influência cultural para liderar a ação climática”, aponta Jascha Servi, um dos autores principais do estudo.
Teste de “viabilidade climática” para grandes eventos
O estudo propõe um modelo econômico, baseado em duas etapas, para lidar com os danos climáticos causados por megaeventos como as Copas do Mundo e as turnês musicais de grandes cantores ou bandas.
A primeira etapa consiste em avaliar a chamada “viabilidade climática” de um evento. Nela, os pesquisadores comparam os benefícios econômicos gerados pelo evento e o valor que o público atribui à experiência de participar dele (medido pela demanda por ingressos) com os custos financeiros associados às emissões que ele produz.
Segundo os autores, eventos deveriam ser reduzidos, reformulados ou até cancelados caso o custo climático supere os benefícios sociais e econômicos que eles trazem. Ao aplicar esse teste tanto à Copa do Mundo de 2026 quanto à turnê do Coldplay em 2024, os pesquisadores concluíram que ambos os eventos passam no critério. Ou seja, geram benefícios sociais suficientes para justificar sua realização, mesmo com o custo ambiental envolvido.
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“Grandes eventos de entretenimento provavelmente geram bem-estar suficiente para compensar seus custos de emissões”, destaca Jackson Goldman, também autor principal do estudo. “O que é necessário agora é que organizadores e fãs trabalhem juntos para assumir a responsabilidade por essas emissões.”
A segunda etapa do modelo proposto é justamente tornar esse custo climático parte do orçamento real do evento. Para os pesquisadores, os organizadores devem arcar com as emissões diretamente ligadas aos locais e à estrutura do evento, enquanto o custo das emissões “indiretas”, como o deslocamento do público até o evento, deveria ser compartilhado entre organização e torcedores.
“Existem ferramentas práticas prontamente disponíveis para implementar a responsabilidade compartilhada pelas emissões indiretas, e muitas outras ainda estão por ser descobertas”, avalia Larcom. “Bandas como o Coldplay abriram o caminho ao introduzir descontos em produtos para escolhas de viagens sustentáveis.”
Escolha consciente das sedes e taxas sobre transmissão
A pesquisa também aponta outras medidas que poderiam reduzir o impacto climático de eventos como a Copa do Mundo, entre elas decisões sobre onde sediar as partidas. Segundo os pesquisadores, escolher locais que reduzam a necessidade de deslocamentos longos do público poderia diminuir consideravelmente as emissões — seja por meio da realização de mais eventos espalhados por diferentes regiões ou pela escolha de sedes que minimizem viagens de longa distância.
Como exemplo, os autores citam que cerca de 40% do público internacional esperado para a Copa de 2026 deve vir da Europa. Caso o torneio fosse sediado no continente europeu, em vez da América do Norte, as emissões relacionadas a viagens teriam sido substancialmente menores.
Outra proposta é que a FIFA (Federação Internacional de Futebol), entidade que organiza a Copa do Mundo, siga o exemplo do Coldplay e ofereça descontos a torcedores que optarem por transporte ferroviário ou compartilhado. Os pesquisadores também sugerem que o custo das emissões seja embutido no preço de parte dos ingressos, com a receita revertida para financiar pesquisas em aviação mais limpa ou tecnologias de remoção de carbono da atmosfera.
Como uma taxa fixa pesaria proporcionalmente mais sobre quem compra ingressos mais baratos, os autores defendem que os ingressos de categorias mais caras absorvam uma fatia maior desse custo adicional.
Um dos autores, Jackson Goldman, propõe ainda uma última alternativa: uma pequena taxa cobrada sobre a transmissão do torneio. Segundo seus cálculos, uma cobrança de US$ 4,50 (R$ 23) por espectador que assistisse aos jogos pela televisão ou por streaming seria suficiente para compensar o custo total estimado das emissões de carbono da Copa de 2026, calculado em US$ 787 milhões (R$ 4 bilhões).
Influência cultural pode ser aliada do clima
Para Shaun Larcom, autor correspondente do estudo, artistas e estrelas do esporte têm um potencial único de influenciar o comportamento da população em relação à sustentabilidade. Algo semelhante já havia identificado em pesquisas anteriores sobre o impacto ambiental da reintegração da chamada “sexta-feira sem carne” pela Igreja Católica, prática religiosa que reduz o consumo de carne vermelha em certos dias.
“Esses megaeventos vão muito além do mero entretenimento. Eles elevam o espírito humano e proporcionam um senso de comunhão aos fãs. De muitas maneiras, oferecem a oportunidade perfeita para inspirar a responsabilidade compartilhada necessária para evitar maiores mudanças climáticas”, observa o pesquisador.
Larcom também citou o poder de mobilização de grandes estrelas da música como um caminho possível para engajar o público em causas ambientais: “Os artistas modernos exercem uma enorme influência e são indústrias por si só. Se Taylor Swift decidisse que a sustentabilidade climática deveria ser o foco central de suas turnês, então isso teria que acontecer”.
Segundo o especialista, o aumento na frequência de temperaturas recordes provocadas pelas mudanças climáticas deve, cada vez mais, condicionar se e como megaeventos como a Copa do Mundo poderão continuar sendo realizados no futuro. “Se eventos de grande sucesso e enorme popularidade não puderem assumir a responsabilidade por suas emissões, isso deixa pouca esperança para outros setores”, conclui ele.
