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Temor de um “Super El Niño” faz brasileiros buscarem mais informações na internet e cobrar ações do poder público

Temor de um “Super El Niño” faz brasileiros buscarem mais informações na internet e cobrar ações do poder público

Levantamento mostra explosão nas pesquisas sobre o fenômeno e aumento das cobranças por prevenção nas redes sociais. Especialistas afirmam que o movimento reflete uma população mais consciente dos riscos climáticos — e mais exigente em relação à adaptação.

A possibilidade de formação de um “Super El Niño” já começou a alterar o comportamento dos brasileiros antes mesmo da consolidação do fenômeno climático. Um levantamento da consultoria Nexus mostra que as buscas sobre o tema no Google cresceram 903% entre março e maio deste ano, na comparação com o trimestre anterior. Nas redes sociais, quase um quarto das publicações cobra ações de governos para prevenir impactos de eventos extremos.

Segundo a pesquisa, o aumento do interesse foi impulsionado pela divulgação de projeções internacionais que apontam elevada probabilidade de consolidação do fenômeno. O Centro de Previsão Climática (CPC), da NOAA, estima 82% de chance de formação do El Niño entre maio e julho, com 94% de probabilidade de persistência durante o inverno do Hemisfério Norte.

O termo “Super El Niño” tem sido muito usado nas redes sociais e pela imprensa, mas, vale ressaltar, não é uma classificação oficial da NOAA nem da Organização Meteorológica Mundial (OMM). É um termo informal utilizado para episódios excepcionalmente intensos do fenômeno, como os registrados em 1982-83, 1997-98 e 2015-16.

O boletim do Painel El Niño 2026-2027, lançado em 30 de junho, confirmou oficialmente a evolução do fenômeno. O documento mostra que o oceano vem registrando aquecimento progressivo, acompanhado por mudanças na circulação dos ventos e da atmosfera compatíveis com o evento climático. As projeções dos principais centros internacionais de previsão indicam mais de 90% de probabilidade de que ele permaneça ativo pelo menos até o início de 2027.

Para Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, o comportamento revela que a população tenta antecipar riscos cada vez mais frequentes. “As pessoas olham para o que aconteceu antes, resgatam a memória de eventos extremos e vão à internet buscar como se proteger do que está por vir”, afirma. Segundo ele, esse movimento também representa uma oportunidade para que gestores públicos e privados fortaleçam estratégias de preparação antes que novas crises ocorram.

Os dados indicam que o interesse é especialmente elevado na Região Sul. Santa Catarina lidera o ranking de buscas, seguida por Rio Grande do Sul e Paraná, estados historicamente mais vulneráveis aos impactos do El Niño.

As pesquisas vão além da definição do fenômeno e incluem consultas sobre previsões locais, comparação com episódios históricos — especialmente o de 1983 — e alertas meteorológicos oficiais.

Nas redes sociais, a preocupação também ganhou força. Entre março e o início de junho, a Nexus identificou 27,4 mil menções ao El Niño em português, que geraram mais de 4,9 milhões de interações. As publicações que cobravam providências do poder público representaram 23% do total, mas concentraram 34% de todo o engajamento registrado, indicando que o debate tem migrado da preocupação individual para a demanda por políticas de prevenção e adaptação climática.

O levantamento também mostra diferenças entre as plataformas. No X predominam manifestações de ansiedade, medo de enchentes, secas e calor extremo, além de críticas às autoridades. No Facebook, há maior circulação de alertas meteorológicos e informações sobre medidas adotadas por governos e pela Defesa Civil. Já o Instagram concentra a maior parte do engajamento, impulsionado por conteúdos que traduzem projeções científicas e relembram eventos recentes, como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

Volume de buscas pelo evento climático El Niño: 27,4 mil menções em português nas redes sociais — Foto: Nexus
Volume de buscas pelo evento climático El Niño: 27,4 mil menções em português nas redes sociais — Foto: Nexus

Contexto

A explosão do interesse pelo El Niño ocorre em um momento em que a percepção dos brasileiros sobre os riscos climáticos mudou significativamente. Nos últimos anos, eventos extremos deixaram de ser episódios isolados para se tornar uma realidade recorrente em diferentes regiões do país, com enchentes históricas no Rio Grande do Sul, secas prolongadas na Amazônia e ondas de calor recordes em diversas cidades.

Esse cenário tem levado especialistas a defender que a adaptação às mudanças climáticas ganhe o mesmo peso das estratégias de redução de emissões. Enquanto a mitigação busca limitar o aquecimento global, a adaptação envolve preparar cidades, infraestrutura, sistemas de saúde, agricultura e defesa civil para impactos que já estão acontecendo e tendem a se intensificar nas próximas décadas.

preocupação também é reforçada pelos avanços da capacidade de monitoramento climático. Hoje, centros meteorológicos conseguem identificar com meses de antecedência a probabilidade de formação de fenômenos como o El Niño, permitindo que governos e empresas planejem ações preventivas. Ainda assim, especialistas ressaltam que previsões indicam tendências climáticas, e não determinam exatamente quando ou onde ocorrerão eventos extremos.

É nesse contexto que o levantamento da Nexus mostra uma mudança no comportamento da população. Mais do que buscar entender o que é o El Niño, brasileiros passaram a procurar informações sobre impactos regionais, previsões para seus estados e medidas de proteção, ao mesmo tempo em que aumentam as cobranças para que autoridades adotem políticas de prevenção antes que novos desastres ocorram.

Para Fernando Luz, advogado no escritório Araúz Advogados, sob a ótica do Direito Público e Ambiental, um fenômeno climático dessa magnitude exige uma mudança de postura do Poder Executivo, que deve passar de uma mera fiscalização para um apoio estrutural amplo. “Veremos uma onda de decretações de situação de emergência pelos municípios, ato administrativo fundamental para liberar recursos públicos e destravar seguros rurais, além da necessidade de adoção de procedimentos ágeis pelos órgãos ambientais para autorizar medidas emergenciais de manejo no campo”, comenta ao Um Só Planeta.

No caso do agronegócio, uma das áreas possivelmente mais afetadas, por exemplo, Luz ressalta que a eficácia dessa engrenagem jurídica depende diretamente da diligência do produtor. É indispensável a adoção de cuidados preventivos, notadamente a formação de um dossiê probatório robusto. O registro pormenorizado das intempéries climáticas e a demonstração cristalina de suas consequências diretas nas lavouras são requisitos essenciais para comprovar os prejuízos suportados.

“Apenas munido dessa documentação detalhada o produtor conseguirá acionar as garantias legais, pleitear o alongamento de passivos e assegurar o pagamento de indenizações securitárias com a devida segurança jurídica”, aponta.

El Niño não é causado pelas mudanças climáticas, mas ocorre naturalmente no Oceano Pacífico. No entanto, diversos estudos científicos indicam que seus efeitos podem ser potencializados por um planeta mais quente, aumentando a probabilidade de ondas de calor, secas e chuvas intensas em algumas regiões.