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Febre global pelo açaí desafia ecossistema da Amazônia

Febre global pelo açaí desafia ecossistema da Amazônia

A crescente demanda global por açaí movimenta bilhões todos os anos e transforma vidas na Amazônia. Mas especialistas alertam para impactos na biodiversidade e o encarecimento da fruta na região.

Na Alemanha, uma cena tem se tornado cada vez mais comum: filas em lojas de açaí. Parte desse público é formada por brasileiros com saudade de casa. Mas alemães, principalmente os mais jovens, também lotam esses lugares que estão se multiplicando pelo país.

Em cidades como Berlim, Bonn e Colônia, cafés comuns também passaram a oferecer tigelas da fruta amazônica ao lado de capuccinos e croissants. O fenômeno reflete uma transformação que já dura três décadas e começou como um mercado de nicho nos anos 1990. Sua consolidação mundial foi impulsionada pela popularização do açaí como alimento saudável e rico em antioxidantes.

“O açaí não é um produto de moda. A gente está completando 30 anos de produção externa. Ele realmente já é um produto consolidado”, afirma o professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Hervé Rogez, um dos pioneiros no estudo das propriedades nutricionais da fruta.

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Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa expansão. Segundo a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), as exportações paraenses passaram de uma tonelada em 1999 para mais de 60 mil toneladas em 2023.

O Pará responde atualmente por 89,5% da produção brasileira de açaí e movimentou quase R$ 9 bilhões em 2024. Na Europa, o mercado do produto já se aproxima de meio bilhão de dólares este ano, de acordo dados do Market Data Forecast.

Mais renda para produtores e comunidades ribeirinhas

O crescimento da demanda internacional transformou a economia de inúmeras comunidades amazônicas. Ao longo dos últimos anos, produtores passaram a obter rendas significativamente maiores, e o dinheiro gerado pela cadeia produtiva contribuiu para melhorar condições de vida em regiões historicamente marcadas pelo isolamento no norte do Brasil.

“Cada lata que eu bato aqui volta para o interior, para uma família. Então aumentou a renda das famílias, aumentou a dignidade desse povo ribeirinho”, afirma Denise Acosta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frutas e Derivados do Estado do Pará (Sindifrutas).

Rogez observa que a mudança pode ser percebida em vários indicadores sociais. Segundo ele, muitas famílias que antes sobreviviam com menos de um salário mínimo, durante a safra passaram a alcançar rendimentos equivalentes a três, cinco ou até dez salários. O pesquisador cita ainda melhorias no acesso a transporte, energia elétrica, internet e educação.

Cardápio de um café em Munique oferece tigela de açaí entre outras opções
Açaí na tigela é opção no cardápio deste café em Munique, no sul da AlemanhaFoto: Stephan Rumpf/SZ Photo/picture alliance

O outro lado da história

Mas a valorização internacional também trouxe consequências para quem tradicionalmente consome a fruta na Amazônia.

Enquanto em grande parte do mundo o açaí é tratado como sobremesa ou suplemento alimentar, e até consumido com outras furtas, no Pará ele continua sendo um alimento básico do dia a dia, servido com acompanhamentos salgados, como peixes, camarão e até carne. “Aqui o açaí é o feijão do resto do Brasil. Então não tem feijão na mesa, mas tem açaí”, resume Rogez.

No entanto, o aumento da demanda global contribuiu para elevar os preços da fruta dentro da própria região produtora. Dados do Dieese Pará mostram que o litro do chamado açaí grosso chegou a custar entre R$ 41 e R$ 65 em diferentes pontos de venda de Belém no início deste ano.

Para especialistas, a tendência gera preocupação porque pode reduzir o acesso das famílias de menor renda a um alimento considerado essencial na cultura alimentar amazônica.

Produtor de açaí retira um cacho da fruta da palmeira
Comunidades ribeirinhas da Amazônia se beneficiam com a alta demanda de exportação do açaíFoto: Maurício de Paiva/DW

O crescimento das exportações também abriu um debate sobre os impactos ambientais da expansão da cadeia produtiva. Segundo Rogez, em diversas áreas de várzea produtores, passaram a privilegiar o açaizeiro em detrimento de outras espécies nativas. “Temos um aumento da produção que se traduz por uma diminuição da biodiversidade no ecossistema de várzea”, afirma.

O pesquisador descreve o fenômeno como uma “monocultura progressiva”, processo em que outras espécies vegetais vão sendo gradualmente substituídas pelo açaí. Essa redução da diversidade afeta polinizadores, altera a disponibilidade de alimento para diversas espécies animais e pode gerar desequilíbrios nos ecossistemas de várzea.

“A ausência da biodiversidade faz com que muitos organismos desapareçam. Isso afeta desde os polinizadores até outras espécies que dependem dessas plantas para sobreviver”, explica.

O papel do açaí na conservação

Representantes da cadeia produtiva contestam a visão de que o avanço do açaí esteja necessariamente associado à degradação ambiental.

Segundo Denise Acosta, uma parcela significativa da produção paraense continua ocorrendo em sistemas agroflorestais e em áreas de várzea preservadas. “Hoje em dia, quando você consome o açaí, você ajuda a manter a floresta em pé, porque você colhe o fruto daquela árvore. Você não derruba a árvore”, afirma.

Ela destaca que o açaizeiro depende da presença de sombra, de polinizadores e de outras espécies vegetais, fatores que favorecem a manutenção da cobertura florestal.

Além disso, produtores vêm adotando cada vez mais o cultivo consorciado com culturas como cacau, banana e mandioca.

O desafio do equilíbrio

Outro fator que vem influenciando a produção é o avanço das mudanças climáticas. Secas históricas registradas nos últimos anos na Amazônia já afetaram a produtividade dos açaizais. Segundo Rogez, os efeitos da escassez de água costumam aparecer na safra seguinte, reduzindo o número de frutos produzidos.

Acosta também vê o clima como um dos maiores desafios para o futuro da cadeia. “O produtor controla o solo, controla a quantidade de água, mas ele não controla o tempo, o clima”, afirma.

O sucesso internacional do açaí criou uma situação paradoxal: ao mesmo tempo em que gera renda para milhares de famílias amazônicas e fortalece economias locais, ele também amplia a pressão sobre os preços e levanta questionamentos sobre os impactos ambientais da expansão produtiva.

Para Rogez, a discussão não deve opor desenvolvimento econômico e conservação, mas buscar formas de conciliar ambos. Ele pontua que o desafio para os próximos anos será atender uma demanda global cada vez maior sem comprometer a biodiversidade da floresta da qual o açaí depende para existir.

“O que é bom para a saúde, o que é bom para a renda de um produtor, tem que permanecer bom para a população como um todo e também para a natureza”, conclui.