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O que o chinelo mais popular do Brasil revela sobre potencial e limites da reciclagem no país

O que o chinelo mais popular do Brasil revela sobre potencial e limites da reciclagem no país

Com 200 milhões de pares vendidos por ano, Havaianas tenta estruturar uma cadeia inédita de circularidade para a borracha no Brasil; desafio envolve tecnologia, cooperativas e mercado para resíduos

Todo brasileiro já perdeu, descartou ou simplesmente esqueceu um par de chinelos. O problema é que quase ninguém sabe o que acontece depois com um dos produtos mais populares do país. E, assim, começa um desafio ambiental muito maior do que parece.

Com cerca de 200 milhões de pares vendidos anualmente, a marca Havaianas se tornou um símbolo da cultura brasileira e também um retrato das dificuldades da reciclagem no Brasil. Embora o chinelo seja visto como um produto simples, sua composição em borracha expandida ainda representa um problema técnico e econômico diante da economia circular.

Criado em 2020, o programa Havaianas reCICLO tenta justamente enfrentar esse problema. A iniciativa da Alpargatas já soma mais de 650 pontos de coleta, mais de 500 deles no Brasil, e recolheu mais de 560 mil pares de chinelos – o equivalente a quase 200 toneladas de resíduos transformados em novos produtos, como pisos, tapetes, rodados industriais, acessórios e mobiliário. Como comparação, seria como se sete “Maracanãs” estivessem lotados de pessoas calçando Havaianas.

A empresa, no entanto, considera que o principal desafio vai muito além da coleta.

“A coleta é só a ponta do iceberg”, disse, em entrevista ao Um Só Planeta, Maria Augusta Bottino, que atua como diretora de Sustentabilidade da Alpargatas. Bottino explica que o problema está em estruturar uma cadeia circular que consiga funcionar de forma sustentável, técnica e financeira a longo prazo. Segundo a empresa, o volume de chinelos coletados nas lojas brasileiras cresceu 130% nos últimos dois anos, acompanhado por avanço de 163% nas cooperativas parceiras e de 520% via Ecoparque, uma central mecanizada de triagem.

Programa ReCiclo da Havaianas — Foto: Divulgação
Programa ReCiclo da Havaianas — Foto: Divulgação

O lixo que ninguém queria

A executiva explica que, até poucos anos atrás, chinelos usados praticamente não tinham valor comercial. “Os chinelos coletados não tinham valor técnico para outras cadeias e, consequentemente, não tinham valor comercial para cooperativas”, diz Bottino. “Ou seja, mesmo quando coletados, eram novamente descartados”.

Isso acontecia porque a borracha vulcanizada, utilizada nos chinelos, apresenta limitações para reaproveitamento industrial em larga escala. Diferentemente de materiais mais consolidados na reciclagem, como alumínio ou papelão, a reutilização da borracha exige processos específicos, parceiros industriais e desenvolvimento tecnológico.

Hoje, a empresa trabalha em modelo de inovação aberta com outras indústrias, transformando resíduos em produtos como pisos, mantas, puxadores, acessórios e revestimentos para móveis. Uma das iniciativas mais recentes foi a coleção Resola, desenvolvida em parceria com a marca de mobiliário sustentável Desmobilia.

Peças da coleção Resola, desenvolvida pela Desmobilia a partir de resíduos reciclados de chinelos Havaianas, mostram aplicações da borracha em móveis e objetos de design sustentável. — Foto: Divulgação
Peças da coleção Resola, desenvolvida pela Desmobilia a partir de resíduos reciclados de chinelos Havaianas, mostram aplicações da borracha em móveis e objetos de design sustentável. — Foto: Divulgação

A possibilidade de um chinelo voltar a virar outro chinelo continua em estudo. “Se essa solução vai se viabilizar exclusivamente em ciclo aberto ou também acontecerá em ciclo fechado é algo que ainda estamos estudando”, afirma a diretora.

Cooperativas

O programa também tenta fortalecer cooperativas de reciclagem, tradicionalmente excluídas desse tipo de cadeia produtiva.

Hoje, mais de 50 cooperativas em 13 estados brasileiros participam do reCICLO, envolvendo cerca de 3,5 mil famílias. “O desenvolvimento da cadeia circular da borracha abre uma nova porta para a geração de receita de milhares de cooperados”, avalia Maria Augusta Bottino. De acordo com a companhia, antes do programa não existia interesse econômico pela triagem de chinelos usados.

Catadores realizam a triagem de resíduos em cooperativa parceira do programa Havaianas reCICLO. — Foto: Julien Pereira/Divulgação Havaianas
Catadores realizam a triagem de resíduos em cooperativa parceira do programa Havaianas reCICLO. — Foto: Julien Pereira/Divulgação Havaianas

Além da remuneração pelo material coletado, a empresa afirma ter apoiado programas de capacitação em parceria com entidades como o Serviço Social da Indústria (Sesi) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), com formação educacional e treinamentos voltados para comunicação e gestão financeira.

Circularidade

A discussão sobre reciclagem ganhou espaço dentro da estratégia de sustentabilidade da Alpargatas nos últimos anos. A companhia argumenta que a economia circular passou a orientar desde o desenho de produtos até a gestão de resíduos industriais e pós-consumo. A estratégia busca romper com o modelo tradicional de consumo baseado em extrair, produzir, usar e descartar.

Entre as metas anunciadas pela empresa para 2030 estão a reciclagem de 100% dos resíduos de borracha vulcanizada gerados nas fábricas e o reaproveitamento integral dos chinelos retornados ao programa de logística reversa.

A empresa também reitera investir em pesquisa para novos materiais, fortalecimento da cadeia de reciclagem da borracha e ampliação das soluções de circularidade para o próprio portfólio.

O desafio da reciclagem no Brasil

O caso ajuda a detalhar um dos principais desafios ambientais do país: transformar resíduos populares e baratos em materiais economicamente reaproveitáveis.

Embora a logística reversa avance em setores como embalagens, eletrônicos e alumínio, produtos compostos por misturas de materiais ainda enfrentam enormes obstáculos tecnológicos e financeiros para retornar à cadeia produtiva em escala.

“Logística reversa é um desafio coletivo”, ressalta Bottino. “Ela exige a articulação de toda uma cadeia produtiva, da indústria ao consumidor”.

 

Maria Augusta Bottino é diretora de Sustentabilidade da Alpargatas — Foto: Divulgação
Maria Augusta Bottino é diretora de Sustentabilidade da Alpargatas — Foto: Divulgação

O chinelo mais popular do Brasil revela um dilema maior: reciclar não depende apenas de boa vontade do consumidor. Exige tecnologia, mercado, infraestrutura e uma cadeia inteira funcionando para que o descarte deixe, de fato, de virar lixo.

“Todo processo é uma jornada e seguimos comprometidos com nosso caminho de evolução, de maneira estruturada e sistêmica, buscando atingir os resultados mais efetivos possíveis”, finaliza a gestora.