Reino Unido lança maior campanha de sua história para população economizar água
Serão investidos 75 milhões de libras esterlinas para pedir que as pessoas diminuem seu consumo diário de água em 28 litros
O Reino Unido vai lançar nesta semana a maior campanha de sua história para incentivar a população a reduzir o consumo de água, à medida que o país sai de uma onda de calor recorde associada à crise climática. A iniciativa, batizada de “Let’s Save Water” (“Vamos Economizar Água”), tem orçamento de 75 milhões de libras esterlinas, tem meta de cortar o uso diário médio em 28 litros por pessoa — o equivalente a dois baldes grandes — em relação à média atual, de cerca de 140 litros. É o que mostra reportagem do The Guardian.
A campanha é resultado de uma parceria entre empresas de saneamento, o regulador do setor (Ofwat), a Agência de Meio Ambiente, o serviço meteorológico nacional (Met Office) e a Natural Resources Wales. O financiamento, ao longo de quatro anos, será feito pelas próprias companhias de água.
O consumo de água na Inglaterra e no País de Gales está entre os mais altos da Europa: a média local supera em quase 17% a registrada em países como Alemanha e Holanda, onde o uso diário gira em torno de 120 litros por pessoa.
Uma equipe de psicólogos comportamentais está assessorando o desenho da campanha. “A questão central é: como fazer as pessoas acreditarem que a água é um recurso importante?”, questiona o professor Thomas Webb, psicólogo social da Universidade de Sheffield. Segundo ele, é preciso “mudar premissas” e ajudar a população a perceber o quanto consome, tratando a economia de água como um esforço coletivo.
Pesquisas feitas para a campanha mostram que as pessoas subestimam seu próprio consumo por um fator de cerca de cinco vezes: em média, acreditam usar 30 litros de água por dia, quando o real é de aproximadamente 140 litros.
O cenário é agravado pelas projeções climáticas: a escassez de água na Inglaterra pode chegar a 5 bilhões de litros por dia até 2055 — o equivalente a um déficit de 2 mil piscinas olímpicas —, em razão da mudança climática, do crescimento populacional e da expansão de setores intensivos no uso de água, como os data centers.
Para a professora Lizzie Kendon, chefe de processos e projeções climáticas do Met Office, o quadro reflete um padrão mais amplo: “A mudança climática está provocando padrões climáticos cada vez mais extremos, com invernos mais chuvosos, verões mais secos e chuvas mais intensas e concentradas”, afirma. Segundo ela, quando a chuva cai sobre solo seco e endurecido, grande parte da água não se infiltra no solo — onde seria mais valiosa — e acaba escoando e se perdendo.
Entre as mudanças de hábito sugeridas pela campanha estão banhos mais curtos, uso de barris para coleta de água da chuva nos jardins e o conserto de torneiras com vazamento. Chuveiros consomem cerca de 10 litros de água por minuto, e a troca por modelos economizadores pode reduzir esse uso em até 50%, com reflexo também na conta de energia.
O professor Ian Walker, da Universidade de Swansea e também consultor acadêmico da campanha, defende que mudanças pontuais — como a compra de equipamentos mais eficientes — são mais fáceis de estimular do que hábitos consolidados, que respondem pela maior parte do consumo. “O ideal seria um sistema que pegasse informações de um medidor inteligente, as transmitisse para a residência em tempo real e as combinasse com informações relevantes sobre o que fazer a respeito”, diz.
Confiança em xeque
Os organizadores da campanha reconhecem que pedir à população para economizar pode ser uma tarefa difícil em um momento de baixa confiança nas empresas de saneamento, abaladas por recordes de poluição por esgoto, falhas no abastecimento no sudeste do país e o alto endividamento de companhias como a Thames Water, que tem descumprido obrigações legais.
Vazamentos nas redes das empresas de água respondem por 19% da demanda hídrica do país, e nenhum reservatório novo foi construído na Inglaterra nas últimas três décadas. O setor agora promete erguer dez novos reservatórios como parte de um investimento de £104 bilhões ao longo dos próximos cinco anos.
Para James Wallace, executivo-chefe da organização River Action, qualquer iniciativa que estimule o consumo consciente é bem-vinda, mas a maior responsabilidade segue sendo das próprias companhias. Segundo ele, desde a privatização do setor britânico, £78 bilhões foram distribuídos a acionistas, enquanto mais de 3 bilhões de litros de água potável se perdem todos os dias por vazamentos nas tubulações. “Precisamos de um plano nacional de emergência totalmente financiado, que responsabilize poluidores e empresas de água”, defende.
Shas Sheehan, que preside o comitê de meio ambiente e mudança climática da Câmara dos Lordes — e que já havia defendido uma campanha nacional pela redução do consumo de água —, alerta que a iniciativa precisa estar acompanhada de uma estratégia de comunicação transparente e contínua, que mostre o comprometimento das próprias empresas. “As mensagens sobre redução do consumo de água correm o risco de não surtir o efeito esperado, dada a erosão da confiança pública nas empresas de água”, diz. “As companhias precisam dar o exemplo se quiserem mudanças duradouras no comportamento do público.”
