Como “bolha gelada” no oceano influencia a onda de calor na Europa
Mudanças no funcionamento de correntes oceânicas têm levado à formação de zonas de pressão e aumento da temperatura
Ao pensar em uma onda de calor, é natural imaginar que a culpa esteja apenas nas altas temperaturas do ar. Mas, para os cientistas, um dos cúmplices do calor extremo que tem atingido a Europa pode estar justamente no espectro oposto do termômetro – mais precisamente uma enorme faixa de água fria no Oceano Atlântico Norte.
Conhecida como “mancha fria”, essa região localizada ao sul da Islândia e da Groenlândia tem chamado a atenção por seguir na contramão do restante do planeta. Enquanto os oceanos registram temperaturas cada vez mais elevadas devido às mudanças climáticas, essa porção do Atlântico continua esfriando, um comportamento que pode estar alterando o clima europeu de maneiras surpreendentes.
Cúpula do calor
Imagine um rio que muda de curso no meio do caminho. Mesmo que a água continue correndo, pequenas alterações em sua trajetória podem transformar completamente a paisagem ao redor. É algo semelhante a isso o que acontece na atmosfera.
Pesquisadores têm identificado que a diferença entre as águas gélidas do Atlântico Norte e as regiões oceânicas mais quentes modifica o comportamento do fluxo de ventos que circula de oeste para leste e organiza o clima do Hemisfério Norte. Quando esse contraste térmico aumenta, essa corrente – conhecida como corrente de jato – passa a se mover de forma mais lenta e ao invés de atravessar o continente europeu, desvia para o norte, formando grandes sistemas de alta pressão que aprisionam o ar quente sobre a Europa.
“O Atlântico frio não significa necessariamente uma Europa mais fria”, explicou Gerard McCarthy, da Universidade de Maynooth (Irlanda), em comunicado. Como ele explica, a massa de água fria não protege o continente do aquecimento global, na verdade, ela pode até intensificar episódios de calor extremo.
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Esse bloqueio atmosférico ajuda a explicar as recentes ondas de calor no continente europeu. Além disso, os especialistas afirmam que a anomalia fria observada no Atlântico Norte tem servido como uma espécie de “guia” para os ventos atmosféricos, que acabam por contornar a Europa em vez de cruzá-la.
É nesse cenário que se forma a “cúpula de calor”. Trata-se de um fenômeno que impede a entrada de massas de ar mais frias e favorece a permanência de temperaturas elevadas durante vários dias.
Para além do verão europeu
Embora pareça uma descoberta recente, a possível ligação entre a mancha fria e as ondas de calor vem sendo investigada há anos. Um estudo publicado em 2016 já apontava que anomalias frias no Atlântico Norte eram um precursor recorrente das principais ondas de calor registradas na Europa desde a década de 1980.
Mais recentemente, pesquisadores do Centro Helmholtz GEOMAR, na Alemanha, fizeram simulações computacionais comparando cenários com e sem essa faixa de água fria. O resultado foi consistente: quando a anomalia estava presente, as ondas de calor tornavam-se mais longas e mais intensas.
E a mancha fria também desperta preocupações por outros motivos. Enquanto a temperatura média da superfície dos oceanos tem aumentado cerca de 1°C desde 1900, essa região específica do Atlântico Norte esfriou até 0,9°C no mesmo período. Para muitos cientistas, esse comportamento pode indicar o enfraquecimento de um gigantesco sistema de correntes oceânicas responsável por transportar calor dos trópicos para o Hemisfério Norte.
Não à toa, uma pesquisa recente descobriu que a anomalia não é causada pela perda de calor na superfície do mar, mas sim pela redução do transporte de águas quentes. “Descobrimos que essa famosa ‘mancha fria’ no Atlântico Norte é causada por correntes oceânicas que trazem menos calor para essa região”, explicou Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (Alemanha).
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Um dos maiores problemas é que algumas importantes correntes oceânicas não param de esfriar e vêm perdendo força à medida que as demais partes do planeta continuam a aquecer. Como as consequências parecem ser inevitáveis, o que os cientistas têm feito é debater sobre a velocidade desse enfraquecimento e se um colapso completo pode ocorrer ainda neste século.
Caso o cenário quase apocalíptico venha a ocorrer, as consequências seriam muito maiores do que apenas alterações no clima europeu. Modelos climáticos indicam que uma paralisação da circulação poderia provocar invernos muito mais rigorosos no norte da Europa, secas em partes da África e do sul da Ásia, além de acelerar a elevação do nível do mar no Atlântico Norte.
Rahmstorf, que antes considerava improvável esse cenário, afirma que sua avaliação mudou diante das evidências mais recentes: “estou muito preocupado. As consequências de uma paralisação [das correntes marítimas] seriam enormes em muitas partes do mundo”.
