Chega de controvérsia: a transição verde gera desenvolvimento
Pesquisadores e formuladores de políticas discutem como transformar a agenda climática em uma pauta de transformação produtiva para o Brasil.
Em um momento em que a emergência climática vem se tornando um tema central das disputas geopolíticas, econômicas e tecnológicas, uma pergunta atravessou os debates do seminário “Descarbonização na Indústria: Pesquisas e Políticas em um Mundo em Mudança”, realizado nos dias 18 e 19 de junho, na UFRJ: como transformar a agenda climática em uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil?
A questão está no centro de um dos principais dilemas enfrentados pelos países em desenvolvimento. Afinal, a política climática deixou de ser um conjunto de restrições para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e se tornou uma ferramenta crucial para garantir a perenidade de atividades econômicas cada vez mais afetadas pela crise climática, como a agricultura. Os participantes do encontro defenderam que essa transição ecológica será politicamente viável somente se for capaz de gerar emprego digno, renda, inovação e capacidades produtivas.
Essa visão esteve presente já na mesa de abertura. A vereadora carioca e professora Tatiana Roque destacou como o combate às mudanças climáticas passou a ser tratado como um obstáculo ao crescimento econômico, alimentando resistências e abrindo espaço para o negacionismo. Em vez de opor desenvolvimento e sustentabilidade, argumentou, o desafio é construir uma nova narrativa capaz de conectar a transformação produtiva à ação climática.
Agenda climática e transformação produtiva
Esta ideia atravessou praticamente todas as mesas do evento. Representantes do governo federal e pesquisadores destacaram que a agenda climática brasileira está cada vez mais associada à construção de instrumentos econômicos voltados à transformação produtiva. Cristina Reis, secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, apresentou os avanços na regulamentação do mercado brasileiro de carbono e ressaltou que as políticas ambientais também são políticas industriais.
Gabriel Aidar, superintendente de Planejamento e Pesquisa Econômica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), destacou o papel da instituição na articulação entre a Nova Indústria Brasil (NIB), o Programa de Transformação Ecológica e os investimentos voltados à reindustrialização sustentável. Aidar ressaltou que a transição verde não ocorrerá espontaneamente. Ela dependerá da capacidade do Estado de coordenar investimentos, reduzir riscos e orientar a transformação das estruturas produtivas. Vale lembrar que o BNDES tem sido um importante instrumento de financiamento de empreendimentos diretamente ligados à captura de carbono e transição energética, numa clara demonstração de que não estamos mais falando de boas intenções, mas de uma realidade atual.
Potencial e desafios dos empregos verdes
Além desses pontos, a transformação no mercado de trabalho também foi evidenciada pela divulgação da mais recente pesquisa do Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da UFRJ sobre empregos verdes no Brasil. A pesquisa mostrou que as ocupações associadas à transição ecológica tendem a apresentar melhores indicadores de formalização e de remuneração.
Ao mesmo tempo, os dados revelam desafios importantes. Os empregos verdes ainda representam uma parcela relativamente limitada do mercado de trabalho, apresentam fortes desigualdades regionais e têm baixa integração com o restante da estrutura produtiva nacional.
O diagnóstico levou os pesquisadores a uma conclusão importante: a transição verde não é apenas uma mudança na composição dos setores econômicos, mas uma oportunidade que vai além do crescimento econômico. Com políticas complementares de qualificação profissional, desenvolvimento regional e inclusão social, os benefícios da descarbonização podem se dar sem reforçar a atual tendência de concentração de renda em grupos já privilegiados. Podemos ter um futuro que não reproduza desigualdades históricas de renda, gênero e raça.
Tecnologias do Sul Global
Outro tema recorrente foi a necessidade de desenvolver ferramentas próprias para planejar a transição. Pesquisadores da UFRJ e da COPPE apresentaram modelos econômicos capazes de simular os impactos da descarbonização sobre o emprego, a renda, a estrutura produtiva e as emissões. Embora a discussão tenha sido técnica, sua dimensão política ficou evidente.
Os participantes defenderam que o Brasil não pode depender exclusivamente de modelos desenvolvidos em países do Norte Global para orientar suas estratégias de desenvolvimento. As características da economia brasileira, marcada pela forte presença do setor agropecuário, pela elevada heterogeneidade regional e por uma matriz energética distinta da observada em países desenvolvidos, exigem instrumentos analíticos capazes de refletir essas especificidades. E já somos capazes disso.
A discussão remete a um debate que vem ganhando força em diversos países do Sul Global: a transição verde não é apenas uma agenda ambiental, mas também uma disputa sobre quem produzirá as tecnologias do futuro, quem controlará as cadeias produtivas e quem será capaz de obter os benefícios econômicos da descarbonização. O desenvolvimento da China em energias limpas e o consequente impacto no mercado automotivo global são exemplos disso.
Essa preocupação manifestou-se de forma explícita nas mesas dedicadas aos desafios setoriais. No debate sobre siderurgia, os pesquisadores mostraram que muitas das rotas tecnológicas consideradas mais promissoras ainda enfrentam obstáculos econômicos significativos, mesmo em países que oferecem subsídios substanciais para a descarbonização industrial. No setor automotivo, a rápida expansão dos veículos elétricos e o avanço das empresas chinesas recolocam a América Latina como um mercado estratégico na disputa por novos padrões tecnológicos – um contexto que pode recolocar o Brasil como um hub produtivo regional.
Já os debates sobre petróleo e biomassa revelaram a complexidade das escolhas que os países em desenvolvimento terão de enfrentar nas próximas décadas. O desafio, segundo os participantes, é evitar que o Brasil permaneça apenas como fornecedor de commodities, sem desenvolver capacidades tecnológicas e industriais próprias. Mais uma vez, a necessidade de fortalecer o Sul Global, onde o Brasil é um dos principais expoentes, é apontada como fator-chave e, ao mesmo tempo, um dos principais benefícios da transição para uma economia limpa.
Embora diferentes temas tenham sido abordados, um consenso emergiu das discussões: a agenda climática só conseguirá mobilizar apoio político duradouro se seu potencial de desenvolvimento econômico for melhor entendido, planejado e considerado.
A conclusão dialoga diretamente com um debate cada vez mais presente nas negociações internacionais sobre clima. Para os países periféricos, a questão central não é apenas reduzir as emissões, mas também definir como participarão da reorganização da economia global decorrente da transição energética. Em outras palavras, não basta descarbonizar. É preciso decidir quem produzirá, quem inovará e quem se beneficiará da transformação em curso. A transição energética gera desenvolvimento. Resta decidir para quem.
