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Eleição 2026: O Brasil entre o Deserto de Cupins e o Jardim Tecnológico

Eleição 2026: O Brasil entre o Deserto de Cupins e o Jardim Tecnológico

O patrimônio ambiental brasileiro, antes corroído por dentro em um processo que a Ministra Cármen Lúcia definiu com precisão cirúrgica como uma “infestação de cupins“, chega a este pleito sob um microscópio global sem precedentes. O antagonismo que se apresenta nas urnas este ano é absoluto. De um lado, existe um Brasil que ainda enxerga a preservação como uma “externalidade negativa”, um custo a ser minimizado ou um entrave burocrático ao lucro imediato de grupos setoriais. De outro, emerge um País que compreende a sustentabilidade como a única via de inserção soberana na economia global do século XXI. Esta disputa, contudo, não será travada apenas em palanques ou debates televisivos; ela será mediada por um ecossistema de informação radicalmente transformado pela Inteligência Artificial, onde o fato e a simulação digital travam uma guerra pela percepção do eleitor.

O Legado de 2022 e a Reconstrução das Instituições

Para entender o peso das escolhas deste ano, é imperativo revisitar o rastro de destruição deixado pelo “presidencialismo de desmonte” que marcou o período anterior a 2023. O governo eleito em 2018 não operou apenas por negligência; houve uma estratégia deliberada de substituição de quadros técnicos por agentes políticos e militares sem expertise, paralisando órgãos vitais como o IBAMA e o ICMBio. A máquina estatal foi voltada contra si mesma.

A partir de 2023, o esforço de reconstrução da institucionalidade foi hercúleo, mas esbarrou em uma verdade amarga: a reconstrução é, por natureza, mais lenta que a destruição. Em 2026, o eleitor é chamado a um veredito: aceleramos o processo de restauração ou permitimos o retorno ao modelo de “cupinização” institucional? A diferença fundamental é que o “verniz de responsabilidade” não engana mais ninguém. Pós-COP30, o Brasil está sob vigilância constante dos mercados internacionais. O capital hoje tem sensores climáticos, e a credibilidade institucional tornou-se o novo lastro da moeda nacional.

A Fronteira da Desinformação: O Algoritmo no Poder

A desinformação sempre foi um veneno para o debate de propostas, mas este ano ela ganha contornos de ficção científica. Se no passado nos preocupávamos com notícias falsas em aplicativos de mensagem, hoje lidamos com a manipulação da realidade em tempo real.

  1. Deepfakes de Crise: Imagine um desastre ambiental em curso — uma queimada de grandes proporções ou um rompimento de barragem. A capacidade de gerar vídeos falsos de autoridades ou cientistas pode ser usada para desviar a responsabilidade política, incitar o pânico ou, pior, desacreditar dados técnicos reais.
  2. A IA e a Camuflagem da Agenda: O greenwashing atingiu o nível industrial. Campanhas podem usar modelos de linguagem para criar narrativas de sustentabilidade de fachada, simulando compromissos ambientais que não possuem lastro orçamentário ou legislativo. É a sustentabilidade como simulacro.
  3. Microdirecionamento e o Meio Ambiente: O uso de algoritmos permite que um candidato prometa a preservação rigorosa em centros urbanos (para atrair o eleitorado jovem e cosmopolita) enquanto garante a flexibilização do licenciamento em áreas de fronteira agrícola para nichos específicos. Sem um debate público unificado, a contradição nunca é exposta.

A Justiça Eleitoral enfrenta o desafio de regular a transparência algorítmica. A integridade do voto agora depende da nossa capacidade de distinguir entre um projeto real de bioeconomia e uma alucinação digital programada.

O Legislativo: Onde a Batalha é Real

É um erro crônico do eleitor brasileiro focar apenas na figura do Presidente e negligenciar o Legislativo. Este ano, o Brasil elegerá 513 deputados federais e dois terços do Senado. Como sempre defendo, é nos espaços legislativos que se trava a luta real a favor ou contra as garantias de direitos.

A formação das bancadas — notadamente a do agronegócio e a evangélica — continua sendo mais organizada e financiada do que qualquer “frente ambientalista”. O risco é a consolidação de um Congresso “anti-Agenda 2030”, que utilize o orçamento secreto e suas metamorfoses para blindar atividades predatórias.

Em 2018, 42,1 milhões de eleitores não escolheram um candidato (brancos, nulos e abstenções). Em 2022, esse número continuou expressivo. Para 2026, o desafio é reconectar esse eleitorado “desiludido”.

Sem uma renovação consciente, qualquer presidente com viés sustentável continuará refém de um presidencialismo de coalizão que troca a floresta por votos em pautas econômicas imediatistas.

Os Dois Brasis:  Econômico e a Bioeconomia

O país enfrenta o antagonismo entre ver o meio ambiente como “entrave” ou como “condição estrutural”. Precisamos, finalmente, amadurecer para o debate sobre a Bioeconomia. O Brasil tem a oportunidade descrita por Ignacy Sachs: liderar a revolução das biotecnologias. No entanto, ainda patinamos na exportação de commodities de baixo valor agregado que demandam expansão territorial.

  • O Brasil do Retrocesso: Insiste no subsídio aos combustíveis fósseis e na abertura de terras indígenas para mineração, usando um discurso de “soberania nacional” que, na prática, serve apenas ao crime organizado na Amazônia — hoje intrinsecamente ligado ao narcotráfico.
  • O Brasil do Futuro: Aposta no mercado de carbono, na restauração florestal como geradora de milhões de empregos verdes e na ciência de ponta.

A eleição decidirá se seremos o “celeiro do mundo” — exaurindo solos e águas até a exaustão — ou a “potência ambiental do mundo”, exportando inteligência, preservação e serviços ecossistêmicos.

Perspectivas e Eixos de Ação 

Para que este pleito não seja mais uma oportunidade perdida, quatro eixos são fundamentais:

  1. Letramento Digital e Ambiental: O eleitor precisa ser treinado para identificar como a IA é usada para mascarar crimes ambientais.
  2. Foco no Voto Proporcional: A sustentabilidade depende mais de leis robustas (Congresso) do que de decretos presidenciais facilmente revogáveis.
  3. Enfrentamento do Crime Organizado: O Estado deve retomar o controle territorial da Amazônia. Sem segurança pública contra o garimpo e a grilagem, não há política ambiental que resista.
  4. Valorização dos Povos Tradicionais: O reconhecimento de indígenas e quilombolas é uma estratégia de sobrevivência climática. Eles são os guardiões do equilíbrio que sustenta, inclusive, a chuva que irriga o agronegócio produtivo.

A Última Chamada

Chegamos a 2026 com cicatrizes, mas também com ferramentas para uma virada histórica. A sustentabilidade não pode mais ser um “anexo” de plano de governo; ela deve ser a espinha dorsal de qualquer projeto de nação.

O Brasil sempre esteve a reboque das revoluções tecnológicas anteriores. Agora, temos a chance de liderar. Mas para isso, o eleitor precisa atravessar o nevoeiro da desinformação e compreender que, ao votar, ele está decidindo se o Brasil será um deserto de cupins ou o protagonista de uma nova era global. A democracia e o meio ambiente são organismos vivos: ou crescem juntos, ou morrem sob o silêncio daqueles que acreditam que “política não se discute”.

Em 2026, discutir política é, literalmente, uma questão de sobrevivência.

Dal Marcondes é um jornalista respeitado na cobertura de desenvolvimento sustentável, com uma carreira nas principais redações do país, incluindo passagens pela Gazeta Mercantil, Exame, Carta Capital e Agência Estado. Fundador e diretor da agência Envolverde, é referência em jornalismo socioambiental há mais de três décadas. No campo acadêmico, Dal é especialista em Ciência Ambiental pela USP, uniu o rigor da investigação jornalística à profundidade da pesquisa científica. Atua como docente e palestrante em programas de pós-graduação, sendo um dos principais articuladores do pensamento crítico sobre a economia ambiental. É um consultor para fóruns internacionais e organizações do terceiro setor, consolidando o papel de ser uma ponte vital entre a academia, o mercado e o interesse público em prol da Agenda 2030.