Sem insetos, falta comida: estudo liga desaparecimento de polinizadores à desnutrição
Crise em populações de abelhas, borboletas e outros polinizadores já afeta a nutrição de comunidades rurais
A redução global de insetos polinizadores já está afetando a alimentação e a renda de populações rurais dependentes da agricultura familiar. Um estudo publicado nesta terça-feira (6) na revista científica Nature quantificou pela primeira vez os impactos diretos da perda de polinizadores sobre a nutrição humana.
A pesquisa acompanhou durante um ano dez vilarejos agrícolas no Nepal, onde grande parte dos alimentos consumidos é cultivada localmente. Os cientistas monitoraram, a cada duas semanas, a presença de insetos polinizadores nas plantações e cruzaram os dados com indicadores de dieta e desnutrição das famílias.
Os resultados mostram que os polinizadores silvestres foram responsáveis por cerca de 44% da renda agrícola das comunidades e por mais de 20% da ingestão de nutrientes essenciais, como vitamina A, vitamina E e folato. À medida que a diversidade e a quantidade de insetos diminuíam nas lavouras, caíam também a qualidade da alimentação e a renda das famílias.
Segundo os pesquisadores, mais da metade das crianças observadas no estudo apresentava baixa estatura para a idade, condição associada à deficiência nutricional. A situação está ligada principalmente à menor oferta de vegetais, frutas e leguminosas dependentes da polinização por insetos.
Os autores também projetaram os efeitos futuros da continuidade desse declínio. Mantidas as práticas agrícolas atuais, as comunidades poderiam perder até 7% da ingestão de vitamina A e folato até 2030. A deficiência desses nutrientes está relacionada a problemas como perda de visão, complicações na gestação e malformações congênitas, relata o site LiveScience.
Nas últimas décadas, pesquisadores vêm alertando para o chamado “apocalipse dos insetos”, expressão usada para descrever a queda acelerada das populações desses animais em diferentes regiões do planeta. Algumas estimativas indicam redução anual de até 1% na abundância global de insetos.
O impacto vai além da biodiversidade. Cerca de 75% das culturas agrícolas do mundo dependem, ao menos parcialmente, da polinização animal. Produtos como café, cacau e amêndoas são altamente dependentes desses insetos para manter sua produtividade.
Embora o estudo tenha sido realizado no Nepal, os pesquisadores afirmam que os resultados ajudam a revelar um problema global. Aproximadamente 2 bilhões de pessoas dependem da agricultura familiar de pequena escala para alimentação e renda.
O trabalho também aponta caminhos para reduzir os impactos. Medidas simples, como o plantio de flores nativas próximas às lavouras, a conservação de abelhas silvestres e a redução do uso de pesticidas, podem aumentar a presença de polinizadores. Segundo os modelos do estudo, essas ações poderiam elevar a renda agrícola em até 30% e melhorar a ingestão de vitamina A e folato.
Para os autores, a pesquisa reforça que biodiversidade e segurança alimentar estão diretamente conectadas. “A biodiversidade não é um luxo. Ela é fundamental para nossa saúde, nutrição e meios de vida”, afirmou o ecólogo Thomas Timberlake, da University of York, em comunicado divulgado pela universidade.
