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Como mães da natureza ajudam espécies a sobreviver

Como mães da natureza ajudam espécies a sobreviver

Especialistas brasileiras em conservação chamam a atenção para cuidados maternos surpreendentes, do oceano ao Pantanal

Às vésperas do Dia das Mães, iniciativas de conservação em diferentes biomas brasileiros chamam a atenção para um aspecto fundamental da natureza: a maternidade como estratégia de sobrevivência das espécies. Em animais como a toninha — um pequeno golfinho típico do litoral brasileiro —, a arara-azul e o tamanduá-bandeira, o cuidado materno pode durar anos e exige dedicação integral.

Assim como nos humanos, o cuidado materno vai além de um único período. Na natureza, essa dedicação pode se estender por longos períodos, com proteção constante e aprendizado para a sobrevivência. No caso do tamanduá-bandeira, a maternidade é marcada pela dedicação. A fêmea gera apenas um filhote por ano e, após cerca de seis meses de gestação, assume sozinha todos os cuidados com a cria.

mulheres conservação

Flávia Miranda é médico-veterinária e professora. Fundou e preside o Instituto Tamanduá. Foto: JOAO MARCOS ROSA | NITRO

De acordo com Flávia Miranda, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), presidente do Instituto Tamanduá e professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), desde os primeiros dias de vida, o filhote se agarra firmemente ao dorso da mãe, onde permanece por meses para se proteger. Depois de se alimentar exclusivamente de leite, aos poucos, passa a descer para aprender a buscar formigas e cupins, retornando em seguida às costas da mãe.

Além disso, há uma estratégia curiosa de defesa e camuflagem: as listras do filhote se alinham às da mãe, criando a ilusão de que ambos pareçam um único animal maior, dificultando a ação de predadores. Esse vínculo pode durar de seis a 12 meses, período essencial para a sobrevivência do filhote.

A tamanduá-bandeira Cecília, nomeada pelo Instituto Tamanduá, não teve a sorte de permanecer ao lado da mãe por quase um ano, como ocorre naturalmente com a espécie. Ainda filhote, foi resgatada durante as grandes queimadas que devastaram áreas do Pantanal em 2020, junto com outros 25 tamanduás-bandeira. Órfã, Cecília superou as consequências do fogo e hoje se tornou uma mãe dedicada, cuidando de um filhote de cinco meses a quem oferece proteção e aprendizado para sobreviver na natureza.

Do céu às águas

Entre as araras-azuis, a maternidade também exige dedicação. Cabe à fêmea a incubação dos ovos, atividade à qual dedica cerca de 70% do tempo. Após a eclosão, cuida e alimenta a prole por mais de três meses no ninho. Enquanto isso, o macho atua como provedor de alimentos. Os filhotes permanecem no ninho e continuam sob cuidado dos pais por até um ano e meio.

Apesar de colocarem geralmente dois ovos, é comum que apenas um filhote sobreviva. Em alguns casos, o comportamento materno vai além: as fêmeas acolhem filhotes de outros ninhos, prática adotada em ações de conservação para ampliar a sobrevivência da espécie.

casal arara-azul

Foto: Divulgação | Fundação Grupo Boticário

“As araras-azuis são um excelente exemplo para todos nós. São cuidadosas, zelosas e fiéis, além de provedoras e resilientes”, afirma Neiva Guedes, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), presidente do Instituto Arara Azul e presidente em exercício do CRBio-01.

Já no ambiente marinho, a toninha — conhecida como “golfinho invisível” — apresenta um dos comportamentos maternos mais discretos e, ao mesmo tempo, mais desafiadores de observar. A espécie vive em águas turvas, que funcionam como um “escudo natural” contra predadores, e depende de um vínculo extremamente próximo entre mãe e filhote nos primeiros meses de vida.

Energia limpa

Logo após o parto, que ocorre com a saída da cauda primeiro — uma adaptação que evita que o filhote se afogue antes de alcançar a superfície para respirar —, a mãe conduz a cria até o primeiro respiro. Nos meses seguintes, o filhote permanece praticamente o tempo todo ao seu lado, aprendendo a nadar, se orientar e capturar presas.

toninhas extinção

As toninhas correm risco de extinção. Foto Renan Conceição | Projeto Toninhas | Univille

“As fêmeas de golfinhos, como as toninhas e os botos-cinza, são mães muito cuidadosas e estão sempre atentas aos seus filhotes. Em geral, elas têm um único filhote a cada 2 a 3 anos e alimentar — inclusive com leite —, brincar, ensinar novos comportamentos e garantir a proteção fazem parte das múltiplas atividades dessas mães. No entanto, para garantir a conservação da espécie, é essencial que nós, humanos, minimizemos nossos impactos nos ambientes aquáticos”, explica Camila Domit, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação.

O ritmo reprodutivo reduzido das toninhas, somado a ameaças como a captura acidental em redes de pesca e a poluição do oceano, torna a espécie consideravelmente vulnerável.