Peixes de recifes profundos mostram maior variedade de funções ecológicas
Uma expedição para investigar o tema mapeou quase 7 mil peixes em até 120 metros de profundidade em Fernando de Noronha e no arquipélago de São Pedro e São Paulo
Uma pesquisa realizada em dois arquipélagos brasileiros — Fernando de Noronha, maior e mais próximo do continente, e São Pedro e São Paulo, menor e mais isolado — revelou que os peixes de recifes mais profundos e com pouca luz apresentam alto grau de especialização ecológica. Nas áreas conhecidas como zonas mesofóticas, os peixes desempenhavam muitas funções ecológicas diferentes entre si, estratégia que desenvolveram para sobrevivência e equilíbrio ecossistêmico.
Usando equipamentos especiais que permitiam maior tempo de observação subaquática, os pesquisadores identificaram diferenças na organização das comunidades (estrutura funcional) de peixes entre os dois arquipélagos estudados. Enquanto Fernando de Noronha apresentou maior riqueza de espécies, com similaridade nos papéis ecológicos, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, mais isolado, abrigou menos espécies, mas que tendem a ser mais diferenciadas e especializadas.
De acordo com a bióloga e autora da pesquisa, Julia Marx, do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, papéis ecológicos correspondem às funções essenciais dos peixes para a manutenção e funcionamento dos ecossistemas aquáticos, como se alimentar de algas, fazer reciclagem de nutrientes ou predar outros organismos para controle populacional. E, no caso estudado, cada espécie de São Pedro e São Paulo exerce um “trabalho mais específico”, diz.

Mergulhos
Durante os mergulhos, que alcançaram até 120 metros de profundidade, foram registrados visualmente cerca de 7 mil indivíduos de 94 espécies. As análises abrangeram diferentes faixas de profundidade, incluindo as zonas mesofóticas, entre 30 e 120 metros de profundidade, caracterizadas por baixa temperatura e incidência de luz.
Em São Pedro e São Paulo, os pesquisadores registraram menor número de espécies (31), mas com indivíduos desempenhando múltiplas funções ecológicas no ecossistema. Já em Fernando de Noronha, foram identificadas mais espécies (63), porém com maior repetição de funções entre os peixes; ou seja, diferentes espécies exercendo papéis semelhantes. Segundo a bióloga, “ecossistemas com menor variedade funcional podem ser mais vulneráveis a perdas de espécies-chave. Se essas espécies são eliminadas, o funcionamento do ecossistema pode ser comprometido”, afirma.

De acordo com a pesquisa, recifes mais profundos e com pouca luz impõem condições mais restritivas à vida marinha do que áreas rasas. Nesse ambiente, apenas espécies com características muito especiais conseguem se manter, o que aumenta a sensibilidade do sistema a perdas. Diferentemente de recifes rasos, onde várias espécies desempenham papéis semelhantes e garantem certa redundância, nos ambientes profundos há menor sobreposição de funções, o que amplia a vulnerabilidade do ecossistema.
Mudanças nas políticas de conservação marinha
O trabalho indica que recifes profundos e isolados do Atlântico Sudoeste abrigam comunidades de peixes com organização ecológica distinta, caracterizada por maior especialização e menor redundância de funções em relação a ambientes rasos, evidenciando diferentes estratégias de adaptação.
Segundo a bióloga Julia Marx, essas características tornam os ecossistemas profundos mais sensíveis à perda de espécies-chave. O cenário reforça a necessidade de ampliar políticas de conservação marinha, com inclusão de áreas abaixo de 30 metros de profundidade e maior atenção a ambientes oceânicos isolados e pouco explorados.
A pesquisa foi realizada entre 2017 e 2019 pelo Centro de Biologia Marinha (Cebimar), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e a California Academy of Sciences. Os resultados foram publicados na revista científica Neotropical Ichthyology, no artigo Functional diversity and ecological patterns of reef fish assemblages across depth gradients in oceanic islands of the Brazilian Province.

Mais informações: jmarxsouza@gmail.com, com Julia Marx; ou telefone (12) 3862-8400, no Cebimar
*Estagiária sob orientação de Simone Gomes
