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Por que se sentir doente é vital para sobreviver a infecções, segundo estudo

Por que se sentir doente é vital para sobreviver a infecções, segundo estudo

Nova abordagem propõe que sintomas como cansaço e isolamento não são apenas efeitos colaterais, mas estratégias coordenadas do corpo

Sintomas como fadiga, perda de apetite, alterações no sono e isolamento social costumam ser vistos como consequências incômodas de uma infecção. No entanto, uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira (30) na revista Trends in Immunology sugere que esses comportamentos podem desempenhar um papel mais ativo, funcionando como parte de uma estratégia imunológica integrada para aumentar as chances de sobrevivência.

A proposta investiga o chamado “comportamento de doença”. Isso quer dizer que, ao invés de tratar essas respostas como meros efeitos colaterais, o estudo sugere que elas podem refletir uma coordenação complexa entre o sistema imunológico e o cérebro, atuando em múltiplos níveis, desde as células até o organismo como um todo.

Essa visão amplia a compreensão tradicional da imunidade, normalmente restrita à atuação de células de defesa – dos glóbulos brancos –, e levanta uma questão central na biologia: como os organismos detectam ameaças e organizam respostas que envolvem não apenas processos fisiológicos, mas também comportamentais.

União entre o sistema imunológico e o cérebro

Segundo Zuri Sullivan, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), essa mudança de perspectiva começou durante sua formação acadêmica, ao observar que células imunológicas no intestino não apenas combatem patógenos, mas também regulam como o corpo responde aos alimentos. Esse mecanismo pode influenciar, por exemplo, a recusa de substâncias potencialmente prejudiciais.

“Isso mudou minha forma de pensar sobre a imunidade, de um sistema local para um programa que abrange todo o corpo”, declarou, em comunicado. Mais tarde, ao estudar neurociência, Sullivan passou a investigar como a inflamação afeta o comportamento, em destaque por meio do hipotálamo, por se tratar da região cerebral responsável por regular funções essenciais durante doenças.

A integração dessas áreas levou à ideia de que o sistema imunológico não atua isoladamente, mas em conjunto com o cérebro, moldando tanto funções corporais quanto comportamentos em uma resposta coordenada.

Quando tecidos são danificados e afetam o funcionamento dos órgãos, considera-se que o sistema imunológico esteja desregulado — Foto: Pexels
Quando tecidos são danificados e afetam o funcionamento dos órgãos, considera-se que o sistema imunológico esteja desregulado — Foto: Pexels

Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro era protegido e relativamente isolado do sistema imunológico pela barreira hematoencefálica. Hoje, essa visão mudou: pesquisas mostram que há uma comunicação ativa entre esses sistemas, conhecida como eixo cérebro-imune.

Essa conexão permite que o corpo responda de forma integrada a ameaças. Enquanto o sistema nervoso capta informações do ambiente por meio dos sentidos, o sistema imunológico detecta sinais de perigo em nível molecular. Juntos, eles coordenam respostas que incluem tanto alterações fisiológicas quanto comportamentais.

No entanto, há situações em que o sistema imunológico pode se tornar desregulado. Isso pode levar a inflamações crônicas que danificam tecidos e afetam o funcionamento de órgãos. No caso da COVID longa, por exemplo, duas hipóteses principais estão em investigação: a persistência de pequenas quantidades do vírus no organismo ou uma ativação contínua do sistema imunológico mesmo após a eliminação do patógeno.

Além disso, estudos apontam uma associação entre inflamação e transtornos neuropsiquiátricos. Pessoas com doenças intestinais inflamatórias podem apresentar maior risco de ansiedade e depressão, sugerindo que a comunicação entre cérebro e sistema imune pode influenciar a saúde em diferentes direções.

Impactos no tratamento de doenças

 

Defesa do hospedeiro em escalas celular, tecidual e do organismo como um todo — Foto: Trends in Immunology
Defesa do hospedeiro em escalas celular, tecidual e do organismo como um todo — Foto: Trends in Immunology

A nova abordagem também pode influenciar a prática clínica. Hoje, o tratamento de infecções costuma focar na redução de sintomas, como controlar a febre ou estimular a alimentação em pacientes debilitados. Mas, se esses comportamentos fizerem parte de uma resposta adaptativa, sua supressão pode nem sempre ser a melhor estratégia.

Experimentos indicam que intervenções como alimentação forçada podem ter efeitos distintos dependendo do tipo de infecção, o que reforça a necessidade de compreender melhor o papel desses comportamentos no processo de recuperação. Além disso, como o sistema imunológico é altamente sensível a intervenções medicamentosas, entender sua interação com o cérebro pode abrir caminhos para novos tratamentos.

Os pesquisadores agora buscam mapear com mais precisão como diferentes infecções afetam o cérebro ao longo do tempo, criando o que chamam de “assinaturas neurais” das doenças. Esse tipo de análise pode ajudar a identificar padrões que expliquem sintomas persistentes e orientar tratamentos mais direcionados.