Carta da Terra, a uopia do horizonte da civilização
Há décadas, a comunidade global discute a 𝙞𝙣𝙨𝙪𝙛𝙞𝙘𝙞𝙚̂𝙣𝙘𝙞𝙖 𝙙𝙤 𝙋𝙧𝙤𝙙𝙪𝙩𝙤 𝙄𝙣𝙩𝙚𝙧𝙣𝙤 𝘽𝙧𝙪𝙩𝙤 (𝙋𝙄𝘽) como principal indicador de desenvolvimento. Embora índices subsequentes, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tenham oferecido uma visão mais digerível, eles permanecem 𝙖𝙡𝙩𝙖𝙢𝙚𝙣𝙩𝙚 𝙞𝙣𝙘𝙤𝙢𝙥𝙡𝙚𝙩𝙤𝙨 𝙚 𝙛𝙪𝙣𝙙𝙖𝙢𝙚𝙣𝙩𝙖𝙡𝙢𝙚𝙣𝙩𝙚 𝙖𝙣𝙩𝙧𝙤𝙥𝙤𝙘𝙚̂𝙣𝙩𝙧𝙞𝙘𝙤𝙨.
A proposta de utilizar a Carta da Terra como instrumento para mensurar a contribuição ao bem-estar planetário surge como um avanço entusiasmante. Essa estrutura inova ao estabelecer que a vida, e não apenas a espécie humana, é o aspecto central a ser considerado. O núcleo desta abordagem reside em quatro pilares éticos, que buscam superar as lacunas dos indicadores tradicionais, como o Índice de Gini, que foca apenas na distribuição de renda.
Para cada pilar, foram sugeridas métricas que traduzem a ética em mensuração:
- Respeito e Cuidado pela Comunidade da Vida: Foco em métricas como os direitos da natureza, humildade ecológica e proteção de espécies.
- Integridade Ecológica: Avaliação por meio de energia limpa, pegada ecológica, respeito aos limites planetários, emissões de gases de efeito estufa e consumo circular de materiais.
- Justiça Social e Econômica: Medição pela distribuição de renda, acesso a bens básicos (água, energia, habitação) e educação para a cidadania planetária, incluindo o reconhecimento de saberes tradicionais.
- Democracia e Não Violência: Indicadores de instituições democráticas, participação social inclusiva, acesso à justiça e indicadores de violência e paz.
Um quinto agregado transversal seria a média ponderada desses quatro pilares, culminando em um ranking global de contribuição planetária, com um foco especial na educação para o desenvolvimento sustentável.
Desvendando as assimetrias nacionais
Ao aplicar essa lente, as contradições do modelo atual se tornam evidentes. Países frequentemente celebrados por seus altos índices de qualidade de vida e democracia, como a Suécia, revelam um ponto cego significativo: a pegada ecológica da produção agregada que sustenta sua alta renda. O mesmo se aplica à Noruega, país produtor de petróleo com um fundo soberano robusto, mas uma pegada ecológica elevada.
Esses exemplos demonstram que a prosperidade econômica isolada não garante a contribuição positiva ao bem-estar planetário. Em contrapartida, nações com grande biodiversidade podem não apresentar as melhores métricas em termos de vida democrática e institucionalidade. A avaliação das vulnerabilidades das métricas propostas torna-se, portanto, essencial no processo de refinamento de parâmetros.
Ancorando a subjetividade na universalidade
O grande desafio reside em encontrar a materialidade entre os conceitos éticos (aparentemente subjetivos) e métricas que sejam universais e passíveis de comparação entre nações. Uma das estratégias para dar sustentação a esses pilares é buscar as métricas que melhor se adequam em cada pilar a partir das 169 Metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Essa integração permite que, tendo os pilares éticos como referência, se utilize perfis de dados já existentes nos órgãos multilaterais. O objetivo final é construir um modelo que demonstre maior sintonia e precisão na avaliação do nível de desenvolvimento, indo além do foco restrito à economia.
Em suma, a proposta de um novo índice, fundamentado na Carta da Terra, não é uma utopia. Ela se apresenta como um trabalho sistemático e altamente realizável de integração de métodos, deslocando a ênfase da mera produção econômica para a qualidade de vida das pessoas no contexto da sustentabilidade planetária.
Um índice de qualidade sustentável a partir da Carta da Terra
O debate sobre o desenvolvimento humano há muito reconhece as limitações de métricas puramente econômicas. A busca por uma avaliação mais completa da qualidade de vida exige uma base ética sólida. Nesse sentido, a Carta da Terra, embora seja um documento de valor intrínseco e referência ética, levanta um desafio fundamental: como ancorar seus princípios em métricas universais e comparáveis entre países?
A solução proposta passa pela integração sistemática entre a visão ética da Carta e dados quantificáveis já estabelecidos.
A Estrutura Metodológica: ODS como Suporte Empírico
Para traduzir os conceitos éticos em indicadores concretos, uma ideia central é utilizar as 169 Metas de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como fonte de dados empíricos. O processo envolve analisar cada um dos pilares da Carta da Terra e identificar quais metas dos ODS dialogam de forma mais direta com aquele princípio.
Por exemplo, no pilar do “Respeito e Cuidado pela Comunidade da Vida”, métricas sugeridas pelos ODS incluem:
- Meta 4.7: Educação para o Desenvolvimento Sustentável, Direitos Humanos, Cultura e Paz.
- Meta 12.1: Ação de conscientização para a vida sustentável.
- Meta 13.3: Educação e capacidade de resposta às mudanças climáticas.
Ao agregar e ponderar as metas dos ODS de acordo com os pilares da Carta da Terra, obtém-se métricas comparáveis e universais. Isso confere a sustentação necessária para quantificar os pilares éticos, permitindo um avanço em direção a um modelo que meça o nível de desenvolvimento humano com maior precisão e sintonia com a sustentabilidade.
Alinhamento com os Limites Planetários
Essa abordagem de medição se harmoniza com modelos conceituais mais amplos, como a teoria da Doughnut Economics (Economia da Rosquinha), que busca situar a atividade econômica entre dois círculos: os limites planetários (capacidade regenerativa do planeta) no círculo externo, e o piso social no círculo interno.
Os pilares da Carta da Terra encontram paralelo nesta teoria: a integridade ecológica se alinha ao limite externo, enquanto o bem-estar e a comunidade de vida se conectam ao piso interno, com a democracia e a cultura de paz ocupando o intervalo seguro entre ambos.
Um desafio realizável, não uma utopia
O grande desafio para acadêmicos e economistas é justamente encontrar o elo material entre os conceitos éticos e as métricas quantificáveis, neutralizando as falhas dos parâmetros puramente econômicos.
No entanto, o entusiasmo é grande, pois a possibilidade de criar um Índice de Qualidade Sustentável do Planeta baseado nos pilares da Carta da Terra é considerada altamente realizável. O caminho não é inventar métricas do zero, mas sim realizar um trabalho preciso e sistêmico de integração de métodos já existentes, publicados e utilizados em órgãos multilaterais, alinhando-os aos princípios fundamentais da Carta.
Ao integrar a ética da sustentabilidade com a robustez dos dados existentes, como os ODS, torna-se possível ir além da mera constatação de problemas, começando a construir um sistema de avaliação que, de fato, orienta a humanidade para um futuro sustentável e justo.
