Como o calor gerado pelo trânsito aumenta a temperatura das cidades
Estudo feito por pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, revelou que o calor gerado pelos veículos contribui para níveis de estresse térmico em humanos; entenda
Você provavelmente já deve ter reparado em como as áreas urbanas estão ficando cada vez mais quentes. Mas algo que você provavelmente não sabia é que o seu carro pode estar contribuindo para isso.
Em um novo estudo, publicado n última dia (8) na revista científica Journal of Advances in Modeling Earth Systems, pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, desenvolveram uma nova forma de medir como o tráfego em cidades pode contribuir para o aumento de temperatura.
Segundo os cientistas, o calor liberado pelos veículos — resultado da queima de combustível e do funcionamento dos motores — tem um impacto direto no aquecimento urbano. Usando o Modelo do Sistema Terrestre da Comunidade (CESM, na sigla em inglês), um modelo computacional que fornece simulações detalhadas do clima da Terra, a equipe conseguiu simular como esse calor interage com ruas, edifícios e o ar que circula na região.
“A pesquisa sobre o calor urbano tem se concentrado tradicionalmente em edifícios, materiais e superfícies terrestres. No entanto, o calor direto produzido por veículos — de motores, escapamentos e frenagem — recebeu muito menos atenção em modelos climáticos de grande escala”, disse Zhonghua Zheng, co-líder de Ciência de Dados Ambientais e IA no Instituto de Pesquisa Ambiental de Manchester e autor principal do estudo, em comunicado. “Nosso modelo permitirá que os cientistas simulem como o calor liberado pelos veículos interage com as ruas, os edifícios e a atmosfera ao redor.”
Os resultados da pesquisa mostram que, na cidade de Manchester, o tráfego elevou a temperatura do ar em cerca de 0,16 °C no verão e 0,35 °C no inverno. Embora os números pareçam pequenos, os pesquisadores apontam que esse aumento pode fazer diferença significativa durante eventos extremos de calor.
De acordo com o modelo utilizado pelos pesquisadores, durante a onda de calor que atingiu o Reino Unido em julho de 2022, o calor gerado pelos veículos contribuiu para intensificar a sensação térmica nas pessoas. Como resultado, o corpo atinge níveis de estresse térmico perigosos mais rapidamente e por períodos mais longos, o que pode trazer riscos à saúde como desidratação, insolação e até mesmo insuficiência renal.
Outro ponto que o estudo constatou é que esse efeito do calor não se limita ao ambiente externo. Os pesquisadores indicam que o calor liberado nas ruas pode invadir os edifícios, elevando também as temperaturas internas e aumentando a demanda por ar-condicionado, o que acaba agravando ainda mais o aquecimento urbano.
Diferentemente de modelos anteriores, a nova abordagem também permite analisar o impacto de diferentes tipos de veículos, como carros a gasolina, diesel, híbridos e elétricos, além de responder a mudanças no tráfego e nas condições climáticas.
Com os resultados do estudo será possível entender, futuramente, como as políticas de transporte e a transição para veículos mais limpos podem influenciar a adaptação do ambiente diante das mudanças climáticas.
