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Economia circular na construção reduz resíduos e reinventa materiais

Economia circular na construção reduz resíduos e reinventa materiais

Certificação AQUA-HQE® impulsiona práticas sustentáveis em obras e edifícios, mas desafios estruturais ainda limitam a circularidade no setor

O fim de um ciclo pode ser, também, o início de outro. Na arquitetura e na construção civil, essa lógica tem orientado uma transformação importante: a adoção da economia circular como resposta à necessidade de reduzir o impacto ambiental do setor.

De forma simplificada, a economia circular propõe substituir o modelo tradicional de “extrair, usar e descartar” por um sistema contínuo de reaproveitamento. Nesse modelo, produtos e edificações são concebidos desde o início para durar mais, além de facilitar o conserto, a reutilização e a reciclagem de seus componentes.

Essa mudança de lógica passa, necessariamente, pela escolha criteriosa de materiais e técnicas construtivas. A reutilização inteligente, a redução de resíduos e o uso de matérias-primas rastreáveis deixam de ser diferenciais e passam a ocupar um papel central nos projetos contemporâneos. Ao integrar sustentabilidade e elegância, a arquitetura reforça a ideia de que a sofisticação está em habitar o mundo sem esgotá-lo.

Bric Arquitetura - Mariana Teixeira e Pedro Pantoja - Palacito Bric. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2023.

Bric Arquitetura – Mariana Teixeira e Pedro Pantoja – Palacito Bric. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2023. (André Nazareth/CASACOR)

Nesse contexto, a certificação AQUA-HQE®, da Fundação Vanzolini (FCAV), tem se consolidado como uma ferramenta relevante para tornar a economia circular uma prática concreta no setor.

Segundo a equipe técnica da FCAV, o selo introduz conceitos como “potencial de desmontabilidade” e “preparação para o fim da vida útil do imóvel”. Na prática, isso significa que um projeto certificado já nasce com um plano de desconstrução, permitindo que seus sistemas sejam reaproveitados em vez de descartados em aterros.

A certificação também exige rigor técnico na gestão de resíduos ao longo da obra — incluindo triagem na origem, separação por tipologia, organização do armazenamento, redução das quantidades geradas e rastreabilidade da destinação. Mais do que garantir o descarte adequado, o processo AQUA-HQE® incorpora a redução na fonte, a preparação para valorização e a reciclagem. “Todo esse processo evita desperdícios e ajuda a estruturar fluxos de reaproveitamento”, explica a equipe técnica da FCAV.

Canteiro de obras e uso da moradia

Nos canteiros de obras de baixo impacto ambiental, a gestão de resíduos deixa de ser uma etapa passiva — limitada à destinação final — para assumir um papel ativo. A triagem na origem e a rastreabilidade total transformam o que antes seria descartado em insumos para novos ciclos produtivos.

Essa lógica se estende à fase de uso do edifício. O selo AQUA-HQE® prevê espaços adequados para triagem e fluxos internos que facilitem a coleta seletiva, tornando a reciclagem uma prática intuitiva no cotidiano dos usuários.

casa modular construção sustentável cabana

(Marc Goodwin/CASACOR)

Mais do que isso, o referencial propõe uma mudança de visão: o edifício deixa de ser entendido como um bloco estático e passa a ser visto como um banco temporário de materiais. Ao priorizar manutenção e reparabilidade, a certificação prolonga o ciclo de vida das construções e reforça uma arquitetura alinhada aos limites ambientais, sem abrir mão da eficiência técnica.

Desafios à circularidade na construção

Apesar dos avanços, a implementação da economia circular no setor ainda enfrenta obstáculos relevantes. Um dos principais está na própria estrutura da cadeia produtiva.

O ciclo de vida dos ativos imobiliários é longo e envolve diversos agentes — projetistas, construtoras, incorporadoras, fornecedores e usuários finais — que nem sempre compartilham os mesmos incentivos econômicos. Esse desalinhamento dificulta a adoção de práticas circulares.

De acordo com a professora Marly Monteiro de Carvalho, do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a fragmentação da cadeia de suprimentos é o principal entrave. “Esse desalinhamento dificulta a internalização dos benefícios de longo prazo associados à circularidade, como redução de resíduos e valorização de materiais ao final da vida útil”, afirma.

Outro desafio está na dificuldade de estruturar modelos financeiros capazes de capturar não apenas o valor econômico direto, mas também os benefícios ambientais e sociais da circularidade. A ausência de incentivos fiscais consistentes e de mecanismos adequados de precificação do descarte de resíduos agrava esse cenário.

Casa Agüé

Casa Agüé, por Marko Brajovic. Com uma arquitetura de tipologia horizontal e modular, sua construção está suspensa entre duas pedras maiores, que se divide entre decks abertos e módulos de programa fechado. (Gustavo Uemura/CASACOR)

Além disso, o uso de materiais reaproveitados ainda enfrenta resistência. “Produtos reaproveitados frequentemente enfrentam barreiras de certificação técnica, comprometendo a confiança de engenheiros e investidores quanto à durabilidade, desempenho estrutural e responsabilidade técnica das edificações”, explica a professora.

A logística reversa também representa um entrave. O transporte de resíduos da construção — geralmente pesados e volumosos — pode ser mais caro do que a aquisição de matéria-prima virgem, especialmente na ausência de infraestrutura local de processamento ou incentivos econômicos.

Caminhos possíveis

Entre as soluções mais promissoras está a industrialização da construção aliada à modularidade. Sistemas construtivos baseados em componentes padronizados, produzidos em escala industrial, reduzem o desperdício típico dos canteiros tradicionais e facilitam tanto a montagem quanto a desmontagem das edificações.

“Ao diminuir perdas de materiais, retrabalhos e tempo de execução, esses sistemas reduzem diretamente os custos de construção e tornam os empreendimentos habitacionais mais acessíveis”, afirma Carvalho.

Além disso, a modularidade viabiliza estratégias como o design para desmontagem, permitindo que componentes sejam reutilizados ou reconfigurados ao longo do tempo — um passo essencial para consolidar a economia circular na construção civil.