Por que a crise climática muda a lógica da economia e coloca a conservação da biodiversidade no centro
Secas, enchentes e ondas de calor revelam um novo cenário: proteger a biodiversidade deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a integrar o núcleo das decisões econômicas, empresariais e territoriais
Durante muito tempo, a conservação da natureza foi tratada como uma agenda paralela às discussões sobre desenvolvimento econômico. Em muitos casos, chegou a ser vista como um obstáculo ao crescimento ou como um tema restrito ao campo ambiental. Mas essa percepção começa a mudar.
Os impactos provocados pela intensificação de eventos climáticos extremos têm exposto de forma cada vez mais clara a dependência que nossas sociedades possuem dos sistemas naturais. Abastecimento de água, estabilidade climática, fertilidade do solo e manutenção da biodiversidade são elementos fundamentais para o funcionamento das economias.
Quando esses sistemas entram em desequilíbrio, os efeitos passam a ser percebidos diretamente nas atividades produtivas, nas cidades e na vida das pessoas. Nesse contexto, a conservação da biodiversidade deixa de ser vista apenas como uma pauta ambiental e passa a ocupar um espaço crescente nas discussões sobre desenvolvimento.
O Dia do Conservacionismo, celebrado em 13 de março, ajuda a lembrar a origem dessa agenda. A data homenageia o engenheiro florestal norte-americano Gifford Pinchot, que no início do século XX já defendia a necessidade de conciliar o uso dos recursos naturais com a responsabilidade de garantir sua permanência para as gerações futuras.
Na mesma época, o naturalista John Muir mobilizava a criação de áreas protegidas emblemáticas como o Yosemite National Park e fundava o Sierra Club, uma das organizações de conservação mais antigas do mundo. Mais de um século depois, essas ideias se mostram muito atuais.
Eventos climáticos extremos — como enchentes, secas prolongadas e ondas de calor — têm provocado prejuízos econômicos crescentes em diferentes países. Esses episódios reforçam a importância dos chamados serviços ecossistêmicos, responsáveis por regular o clima, garantir disponibilidade de água e sustentar diversas cadeias produtivas.
A degradação desses sistemas naturais gera riscos cada vez mais claros para a estabilidade econômica. Por essa razão, deve crescer entre empresas e governos a percepção de que conservar a natureza não representa apenas um custo adicional, mas uma condição para garantir resiliência no longo prazo.
Experiências em andamento
A SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) acompanhou essa transformação, em que ficou evidente que iniciativas de conservação ganham consistência quando conseguem demonstrar benefícios concretos para os territórios em que estão inseridas.
Um exemplo é o Programa Desmatamento Evitado, que já apoiou mais de 50 propriedades privadas por meio de investimentos de empresas interessadas em contribuir. Outra abordagem que vem ganhando destaque é a organização de estratégias de conservação em escala territorial. A iniciativa da Grande Reserva Mata Atlântica busca fortalecer esse tipo de visão, ao propor um modelo de desenvolvimento regional baseado na valorização das áreas naturais.
Territórios que mantêm grandes extensões de natureza bem conservada possuem condições favoráveis para o desenvolvimento de atividades econômicas que dependem diretamente da qualidade dessas paisagens, como o turismo de natureza.
O Brasil abriga uma das maiores biodiversidades do mundo e possui grande potencial para liderar soluções inovadoras na relação entre economia e natureza.
No entanto, muitas iniciativas bem-sucedidas ainda permanecem restritas a projetos demonstrativos. Transformar essas experiências em políticas públicas mais amplas e estratégias empresariais consistentes continua sendo um desafio.
A crise climática e a perda de biodiversidade indicam que conservar a natureza tende a se tornar cada vez mais presente nas decisões estratégicas de governos e empresas. Esta pauta, até hoje muito pouco valorizada, evidencia-se, a despeito de muitas resistências, de condição básica para garantir estabilidade econômica e qualidade de vida nas próximas décadas.
*Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS.
