Anchor Deezer Spotify

Como sua vela relaxante pode estar poluindo o ar que você respira

Como sua vela relaxante pode estar poluindo o ar que você respira

Durante os meses de inverno, quando os dias são curtos e frios e as noites são longas e escuras, criar um ambiente interno quente e aconchegante pode ser especialmente importante.

Na região onde moro, na Dinamarca, cerca de 75% da população acende velas duas ou mais vezes por semana, e 34% as utilizam diariamente durante os meses de inverno.

De fato, a Dinamarca é frequentemente considerada o país com o maior consumo per capita de velas na Europa. Os dinamarqueses queimam cerca de 5,8 kg de cera de vela por pessoa por ano – o equivalente a cerca de seis sacos de açúcar.

Apesar de serem bonitas, estudos mostram que a queima de velas é uma das maiores fontes de poluição do ar em ambientes fechados. Isso ocorre porque, ao queimar, as velas emitem uma grande quantidade de partículas ultrafinas.

Essas partículas são tão pequenas que são invisíveis a olho nu, sendo mais de mil vezes mais finas que um fio de cabelo humano. Elas podem permanecer suspensas no ar por longos períodos e, quando as velas são apagadas, a concentração dessas partículas (incluindo fuligem) aumenta ainda mais.

Velas versus culinária

Em nossos experimentos conduzidos em câmaras de exposição (onde o clima é controlado) na Universidade de Aarhus, examinamos como o ar interno é afetado tanto pela queima de velas quanto pelo cozimento de carne de porco no forno.

Cozinhar – e especialmente fritar – é conhecido por emitir altas concentrações de partículas devido à combustão (o processo de queimar algo). As partículas provenientes de processos de combustão estão entre as mais prejudiciais à saúde humana, mas pouco se sabe sobre o papel que as partículas emitidas por velas desempenham na poluição do ar em ambientes fechados.

Nossa pesquisa descobriu que, embora tanto as velas quanto o ato de cozinhar emitam altos níveis de partículas, o número de partículas emitidas pelas velas foi muito maior. Ainda mais significativa foi a diferença no tamanho das partículas: o ato de cozinhar produziu partículas com cerca de 80 nanômetros de largura, enquanto as velas geraram partículas com cerca de sete a oito nanômetros de tamanho – muito menores e muito mais fáceis de serem inaladas pelos nossos pulmões.

Também medimos compostos químicos no ar e descobrimos que a queima de velas produzia não apenas partículas de fuligem, mas também gases como dióxido de nitrogênio e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs) – um grupo de substâncias químicas associadas à inflamação e até mesmo ao câncer.

As partículas que respiramos

As partículas ultrafinas são particularmente preocupantes do ponto de vista da saúde. Elas são facilmente inaladas e chegam aos pulmões, mas pesquisas mostram que são excretadas do corpo muito lentamente.

Devido ao seu tamanho extremamente pequeno, as partículas das velas podem penetrar profundamente nas nossas menores vias respiratórias, conhecidas como alvéolos, e podem até entrar na corrente sanguínea. De lá, podem atingir órgãos como o coração e o cérebro.

De fato, as partículas formadas quando velas queimam são notavelmente semelhantes em tamanho e composição às encontradas nos gases de escape de motores a diesel. Essas partículas têm sido associadas ao aumento das taxas de mortalidade por doenças pulmonares e cardiovasculares.

Em nosso estudo, também investigamos como a queima de velas afeta adultos jovens com asma leve. Encontramos alterações biológicas sutis, porém mensuráveis, após a exposição à emissão de velas.

Alguns marcadores de inflamação das vias aéreas e do sangue foram alterados, e os participantes relataram irritação e desconforto. Outros estudos com adultos saudáveis ​​observaram pequenas reduções na função pulmonar, alterações na rigidez arterial e na frequência cardíaca, além de redução da função cognitiva após a exposição à queima de velas.

Luz e escuridão

Você pode estar pensando: tudo isso por causa de uma simples vela? Mas vale lembrar que pessoas com doenças crônicas, como asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica, são muito mais sensíveis à poluição do ar por partículas.

Como as pessoas com essas condições já apresentam vias aéreas cronicamente inflamadas, mesmo níveis relativamente baixos de poluição — incluindo partículas liberadas pela queima de velas — podem ser suficientes para desencadear os sintomas.

Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas também são particularmente vulneráveis ​​à poluição do ar, devido à imaturidade de seus pulmões ou ao enfraquecimento do sistema imunológico.

De fato, para qualquer pessoa com asma ou outras doenças respiratórias, a qualidade do ar interior não é um detalhe menor, mas um fator fundamental no controle dos sintomas diários e na saúde respiratória a longo prazo.

Apagar todas as velas?

Mas isso não significa que pessoas sem doenças pulmonares ou asma não sejam afetadas. Como mostram as pesquisas, a queima de velas afeta não apenas o ambiente interno, mas potencialmente a saúde de todos. Felizmente, algumas medidas simples podem ajudar a manter um clima interno mais saudável.

Experimente usar velas de LED, por exemplo, ou acenda apenas algumas velas de cada vez. Você também deve colocar as velas longe de correntes de ar para evitar que a chama oscile, o que pode produzir mais fuligem e fumaça. Apare os pavios das velas para reduzir a formação de fuligem. E as velas nunca devem ser acesas perto de (ou por) pessoas com doenças respiratórias.

O mais importante é arejar o quarto depois, abrindo as janelas. Essas medidas podem ajudar a reduzir significativamente o número de partículas e fazer toda a diferença para manter seu momento aconchegante ou hygge saudável.

*Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site The Conversation por Karin Rosenkilde Laursen, Pós-doutoranda em Saúde Pública na Universidade de Aarhus, na Dinamarca.