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49% das espécies migratórias monitoradas estão em declínio

49% das espécies migratórias monitoradas estão em declínio

As espécies migratórias desempenham papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas que sustentam a vida no planeta, porém o mundo está falhando em protegê-las. Mesmo com um tratado internacional, 49% das populações de espécies migratórias estão em declínio e 24% das espécies enfrentam extinção, um aumento de 5% e 2%, respectivamente, em apenas dois anos.

Os dados acima são uma atualização preliminar do primeiro relatório “Estado das Espécies Migratórias do Mundo”, apresentado na COP14, em Samarcanda, Uzbequistão, em 2024. O documento fornece uma visão geral global do estado de conservação e tendências populacionais de animais migratórios.

Os novos alertas serão debatidos durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS, nas siglas em inglês), que será realizada entre os dias 23 e 29 de março de 2026, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

A COP15 é um dos encontros globais mais importantes para a conservação da vida selvagem.

Espécies migratórias

Bilhões de animais selvagens aquáticos, aviários e terrestres migram por terra, rios, oceanos e céus. O deslocamento das espécies migratórias ocorre em determinados períodos do ano, seguindo padrões que, na maioria dos casos, são regulares, cíclicos e previsíveis. Tal comportamento ocorre em todos os grandes grupos de animais, como mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos, e por diferentes razões: busca por alimento, água, temperaturas mais adequadas e locais seguros para a reprodução, por exemplo.

As espécies migratórias são essenciais para o bom funcionamento da natureza e para o bem-estar humano, polinizando plantas, transportando nutrientes, regulando ecossistemas, controlando pragas, armazenando carbono e sustentando meios de subsistência e culturas em todo o mundo. Porém, a sobrevivência dessas espécies estão ameaçadas pela a perda, degradação e fragmentação de habitat (inclui agricultura e a expansão da infraestrutura de transporte e energia) assim como pela superexploração (inclui a caça insustentável, a sobrepesca e a captura de animais não-alvo).
especies ameacas de extincao
Arenaria interpres comummente conhecida como rola-do-mar, teve um declínio populacional estimado de 20 a 29%; as causas exatas são desconhecidas. Foto: © Hans Hillewaert, CC BY-SA 4.0

A CMS reconhece que 1.189 espécies animais (sendo a maioria aves) precisam de proteção internacional. As espécies listadas na Convenção são aquelas em risco de extinção em toda ou grande parte da sua área de distribuição, ou que necessitam de uma ação internacional coordenada para aumentar o seu estado de conservação.

Novos alertas do relatório preliminar

Desenvolvido para a CMS pelo Centro Mundial de Monitoramento da Conservação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC ), o relatório provisório sobre o estado de conservação de espécies migratórias destaca que:

  • 26 espécies listadas pela CMS, incluindo 18 aves limícolas migratórias, passaram para categorias de maior risco de extinção.
  • Sete espécies listadas apresentaram melhorias, incluindo o antílope-saiga, o órix-de-cimitarra e a foca-monge-do-mediterrâneo.
  • Foram identificadas 9.372 Áreas-Chave para a Biodiversidade (KBAs, na sigla em inglês) importantes para espécies listadas pela CMS.
  • 47% da área abrangida pelas KBAs não está coberta por áreas protegidas e conservadas.
  • Foram feitos progressos no preenchimento de lacunas de conhecimento sobre habitats importantes e rotas migratórias de tubarões/raias e mamíferos marinhos, e novas iniciativas identificarão áreas para tartarugas marinhas.
  • Apesar de alguns sucessos importantes, indicadores-chave – como a proporção geral de espécies listadas pela CMS com populações em declínio – estão caminhando na direção errada.

Outros avanços positivos:

  • Avanços no mapeamento de rotas migratórias para subsidiar a tomada de decisões. Iniciativas para mapear migrações estão ganhando impulso. Isso inclui a Iniciativa Global sobre Migração de Ungulados (GIUM), o sistema de Conectividade Migratória no Oceano (MiCO) e o trabalho da BirdLife International para identificar e mapear seis importantes rotas migratórias marinhas.
  • Progressos na identificação e proteção de habitats importantes e corredores migratórios.
  • Recuperação de algumas espécies por meio de ação coordenada.

No primeiro relatório, de 2024, 14 espécies listadas apresentaram um estado de conservação melhorado, o que incluia as baleias azul e jubarte, a águia-marinha-de-cauda-branca e o colhereiro-de-cara-preta.

baleia jubarte
Baleia Jubarte. Foto: Freepik

 

 

O primeiro relatório global foi um alerta”, disse Amy Fraenkel, Secretária Executiva da CMS. “Esta atualização provisória mostra que o alarme ainda está soando. Algumas espécies estão respondendo a ações de conservação conjuntas, mas muitas continuam a enfrentar pressões crescentes em suas rotas migratórias. Devemos responder a essas evidências com ações internacionais coordenadas e eficazes.”

COP15

Tendo o Brasil como país anfitrião pela primeira vez, o encontro global, realizado a cada dois anos, reunirá representantes de 132 países mais a União Europeia, signatários da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS).

Os objetivos da COP15 são avaliar a situação das espécies migratórias, definir prioridades para os anos seguintes e tomar decisões conjuntas sobre políticas, ações e investimentos necessários para preservar a migração dessas espécies.

Presidido pelo secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco, a conferência reunirá representantes de governos, cientistas, organizações internacionais e sociedade civil para enfrentar a crise global da biodiversidade.

A atualização do relatório provisório garante que os governos presentes na COP15 da CMS tenham em mãos o panorama científico mais atualizado. Outros relatórios importantes que serão apresentados na conferência incluem os impactos da mineração em águas profundas sobre espécies migratórias: revisão e lacunas de conhecimento, além de uma avaliação global de peixes migratórios de água doce.

“Temos uma base de referência. Temos ferramentas melhores. E temos uma crescente conscientização pública”, pontua Amy Fraenkel. “A questão que se coloca aos governos na COP15 é simples: iremos aliar esse conhecimento à vontade política e ao investimento necessários para garantir o futuro das espécies migratórias do mundo?”.