Dificuldade com a precisão nos modelos meteorológicos é comum em estudos
Augusto José Pereira Filho explica estudo sobre mudanças climáticas a partir de um artigo publicado na revista “Nature”
O Oceano Pacífico Norte é marcado pela trajetória de tempestades que se formam nas latitudes médias, responsáveis pelo transporte de calor e umidade para o Ártico e Oeste da América do Norte. Em um artigo publicado na revista Nature, pesquisadores analisam a mudança da trajetória dessas tempestades ao longo do século 21. O estudo alerta que as mudanças climáticas esperadas para os ecossistemas das regiões são subestimadas e os danos poderão ser maiores do que os esperados. Para o professor Augusto José Pereira Filho, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, a análise do futuro e até do passado das mudanças climáticas requer cuidados com as imprecisões e dificuldades em relação aos modelos adotados.

“São estudos muito bem feitos, que permitiram uma compreensão em termos de dinâmica global. Essencialmente, o que a Terra faz: ela pega esse excesso de energia das regiões equatoriais e tropicais e transfere essa energia para onde faltam, ou seja, nos polos Ártico e Antártico. E, para fazer isso, há o desenvolvimento do que a gente chama de sistemas transientes. Por meio desse sistema, você traz ar frio de latitudes altas para latitudes mais baixas e leva, de latitudes mais baixas, ar quente e úmido para onde falta energia. É disso que esse artigo trata. Ele diz que o traçado desse transporte, que vem por meio da chuva, da convecção, está mudando. E, de fato, está sempre mudando”, explica o professor sobre o tema do estudo.
Imprecisões
Ele destaca que até modelos meteorológicos sofisticados apresentam problemas com a imprecisão. “É um estudo que faz parte de um conjunto de estudos que tentam entender o clima daqui, por exemplo, a 100 anos. E, evidentemente, é teoria, não é de fato algo que irá acontecer. É um exercício acadêmico com boa fundamentação modelística, Porém, fundamentado parcialmente em dados que estão sujeitos a grandes erros. E é uma contribuição teórica no entendimento desse assunto denominado dinâmica climática. A dificuldade, particularmente na ciência atmosférica, no entendimento do sistema como um todo, é essa ausência de informações precisas do passado, do presente e do futuro do nosso sistema. Para poder compreender o clima da Terra, é necessário informações que não estão disponíveis. As que nós temos disponíveis atualmente têm um intervalo de 100 anos. E esses dados, que nós temos do sistema, de várias fontes, estão sujeitos a erros”.
A tecnologia é um fator que permitiu um avanço dos estudos climáticos, mas, mesmo assim, está associada à previsão como um problema. “Hoje nós temos computadores de uma capacidade inimaginável, inteligência artificial. Há 30 anos trabalhei nesses assuntos com redes neurais, era um assunto muito difícil por razão da capacidade limitada de processamento. Hoje, até a inteligência artificial está despontando como uma ferramenta importante. Quando você junta todos esses aspectos, o que você tem é um conjunto de dificuldades e incertezas que vão afetar a nossa capacidade de compreender o que vai acontecer daqui a poucas horas, o que dirá daqui a cem anos. Nesse artigo, em particular, da Nature, o que eles fazem é pegar um período de dez anos recentes e fazer uma comparação com dez anos no futuro, com base em dezenas de modelos muito sofisticados, mas que estão novamente sujeitos a essas limitações. É um exercício interessante, mas não se conclui absolutamente nada”, finaliza Pereira Filho.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo
