Jardins de chuva: conheça alternativa complementar para tornar cidades mais resilientes às enchentes
Com chuvas mais intensas e sistemas de drenagem colocados em risco, soluções baseadas na natureza surgem como resposta urbana à crise climática
As cenas de ruas alagadas, carros submersos e comércios interrompidos deixaram de ser exceção em grandes cidades. Em um contexto de chuvas mais intensas e concentradas, agravadas pelas mudanças climáticas e pela impermeabilização do solo urbano (como asfalto), há a busca por alternativas que ajudem a reduzir a pressão sobre sistemas de drenagem, muitas vezes, obsoletos.
É nesse cenário que os jardins de chuva surgem como uma solução baseada na natureza e capaz de atuar de forma complementar à drenagem convencional.
As estruturas permitem que a água da chuva seja retida e infiltrada próximo ao local onde cai, reduzem o volume e a velocidade do escoamento superficial, aliviam a sobrecarga sobre galerias pluviais e ajudam a mitigar alagamentos, ao mesmo tempo em que oferecem benefícios ambientais e sociais ao espaço urbano.
O que são?
Os jardins de chuva são áreas rebaixadas no terreno, projetadas para receber a água da chuva e permitir que ela se infiltre gradualmente no solo, ao invés de escoar rapidamente por superfícies impermeáveis, como asfalto e concreto, até as galerias pluviais.
A água é conduzida por inclinações, sarjetas ou calhas até essas depressões, onde atravessa camadas filtrantes de areia, brita e solo vegetal antes de ser absorvida. A vegetação, preferencialmente composta por espécies nativas adaptadas a períodos de encharcamento, melhora a permeabilidade do solo, absorve parte da água e contribuí para a evapotranspiração, ajudando também a regular o microclima urbano.
De acordo com o diretor de Engenharia da 3z Realty, Carlos Passos, a lógica por trás dessas estruturas está ligada às chamadas soluções baseadas na natureza.
“A infraestrutura verde serve exatamente para aliviar o sistema de drenagem. As SBNs funcionam imitando o ciclo hidrológico natural. Elas captam a água da chuva perto de onde ela cai, permitindo que ela seja absorvida lentamente pelo solo, em vez de escoar rapidamente para as galerias pluviais”, ressalta Carlos.
Na prática, isso reduz o volume de água que chega ao sistema convencional e ajuda a amortecer os picos de vazão durante chuvas intensas.
“Elas funcionam como pequenas bacias de detenção, segurando a água por um tempo e liberando-a mais lentamente. Isso ajuda a ‘achatar’ os picos de vazão durante chuvas intensas, reduzindo o risco de sobrecarga e inundações”, explica Passos. Além disso, a vegetação e o solo atuam como filtros naturais, removendo parte dos poluentes da água da chuva antes que ela alcance rios e córregos, e contribuem para a recarga dos aquíferos subterrâneos.
A relevância desse tipo de solução se intensifica diante do cenário climático atual. O aumento da frequência e da intensidade de chuvas extremas é um dos efeitos mais visíveis das mudanças climáticas nas cidades, colocando em xeque respostas baseadas apenas em obras estruturais de grande porte.
Em São Paulo, há 313 jardins de chuva e, segundo a prefeitura de São Paulo, ajudam a reduzir alagamentos e a melhorar o escoamento das águas pluviais em uma cidade de 12 milhões de habitantes.
Outro exemplo da estratégia dos jardins de chuva está sendo construído em Campinas (SP), onde o bairro planejado Órigo incorporou jardins de chuva ao seu sistema de drenagem. O projeto prevê duas áreas de jardins de chuva, totalizando 228,38 metros quadrados, integradas a biovaletas — canais vegetados que conduzem e desaceleram o fluxo da água.
Segundo estimativas técnicas, o sistema é capaz de devolver cerca de 3.750 litros de água da chuva ao lençol freático, com expectativa de redução da sobrecarga sobre a drenagem tradicional nos momentos de chuva intensa.
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Ao todo, a área destinada à infraestrutura verde no empreendimento chega a 3.750,05 metros quadrados, distribuída entre 14 biovaletas, dois jardins de chuva e um canteiro pluvial. Segundo o projeto, esses elementos ainda retêm sedimentos e filtram poluentes, contribuindo para a qualidade da água que retorna ao meio ambiente.
Sistema complementar
Apesar dos benefícios, especialistas ressaltam que jardins de chuva não são soluções universais nem substituem 100% da drenagem convencional. Sua eficiência depende de fatores como a capacidade de infiltração do solo, a disponibilidade de espaço na malha urbana e a integração com sistemas tradicionais.
“A maioria dos jardins de chuva e biovaletas é projetada para gerenciar o volume de água de chuvas comuns ou moderadamente intensas. Em eventos de chuva extrema, com um volume de água muito grande em um curto período, a capacidade de infiltração e armazenamento do solo se esgota”, afirma Carlos Passos. Nesses casos, o extravasamento para a drenagem convencional é parte do próprio desenho do sistema e fundamental para evitar inundações.
Em áreas com solos muito argilosos, compactados ou com lençol freático elevado, a infiltração é naturalmente limitada, o que exige soluções híbridas. Em centros urbanos ou em terrenos muito íngremes, a combinação entre infraestrutura verde e engenharia tradicional é o que se recomenda para garantir segurança e estabilidade.
Do ponto de vista econômico, investir em soluções preventivas tende a ser mais racional do que lidar com prejuízos recorrentes. “As enchentes podem causar danos materiais ao empreendimento, carros, lojas, inclusive inviabilizando operações ou desvalorizando o empreendimento”, alerta Passos.
