Megapragas híbridas evoluem no Brasil e ameaçam agricultura mundial, diz revista
A revista britânica New Scientist publicou uma reportagem alarmante não apenas para o agronegócio brasileiro, mas para a segurança alimentar mundial.
Duas “megapragas”, que já representam um grande problema para agricultores em todo o mundo, a lagarta-da-maçã e a lagarta-da-espiga-do-milho, cruzaram-se no Brasil e trocaram genes que conferem resistência aos pesticidas. “As cepas híbridas que estão evoluindo a partir desse cruzamento podem devastar a soja e outras culturas no Brasil e em todo o mundo se não forem controladas, ameaçando a segurança alimentar global,” diz a reportagem.
Mais de 90% da soja cultivada no Brasil é soja geneticamente modificada com genes de uma bactéria do solo chamada Bacillus thuringiensis (Bt), de modo a incorporar um pesticida – a soja Bt é geneticamente modificada para produzir uma proteína produzida pela bactéria que é tóxica para a maioria dos insetos.
Sua introdução ajudou a combater pragas como a lagarta-da-espiga-do-milho (Helicoverpa zea), fase de uma mariposa que se alimenta de quase todas as partes das plantas. Elas são particularmente prejudiciais ao milho, mas também atacam muitas outras plantas, incluindo tomates, batatas, pepinos e berinjelas.
No Brasil, a mariposa não representava um grande problema para os agricultores de soja porque ela geralmente não se alimenta da cultura. Mas, em 2013, a lagarta-da-maçã-do-algodoeiro (Helicoverpa armigera) foi detectada no Brasil. É uma parente da H. zea, já amplamente distribuída pela Europa e Ásia, que também se alimenta de várias plantas, mas gosta muito da soja. Ambas as mariposas são consideradas megapragas devido aos danos que causam e à dificuldade de combate.
Hibridização
Os cientistas acreditavam que a H. armigera e a H. zea não podiam cruzar entre si. Contudo, em 2018, análises genéticas revelaram alguns híbridos entre as espécies. Agora, Henry North e colegas da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e da brasileira Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), analisaram o genoma de quase 1000 mariposas coletadas no Brasil na última década.
Os dados mostram que um terço das H. armigera agora carrega genes que lhe conferem resistência à toxina Bt – e esses genes foram obtidos da H. zea. O milho Bt foi introduzido na América do Norte na década de 1990, onde algumas linhagens de H. zea desenvolveram resistência. Esses genes de resistência parecem ter-se espalhado para a América do Sul e agora cruzaram espécies. Até o momento, o híbrido H. armigera não tem sido um grande problema, mas isso pode mudar à medida que a resistência se dissemina.
Além disso, a transferência genética ocorreu nos dois sentidos: Quase todos os exemplares de H. zea no Brasil agora possuem um gene que confere resistência a uma classe de inseticidas chamados piretroides, adquirido da H. armigera.
“Estamos impressionados com a rapidez com que isso aconteceu,” disse o professor Chris Jiggins, da Universidade de Cambridge.
Novas variedades
Empresas já estão trabalhando em novas variedades de culturas Bt que produzem duas, três e até cinco proteínas Bt diferentes para combater a resistência. “Mas levar esses novos produtos ao mercado é caro e lento, então é melhor manter a eficácia das proteínas Bt atuais com táticas de manejo da resistência, incluindo áreas de refúgio contra a exposição a culturas Bt,” disse Bruce Tabashnik, da Universidade do Arizona, nos EUA.
Há orientações para que os agricultores plantem culturas não transgênicas juntamente com as transgênicas para criar refúgios que retardem a disseminação de pragas resistentes. No entanto, em muitos países essas diretrizes não são seguidas.
E, embora a hibridização entre espécies possa disseminar a resistência, a principal questão é a evolução dentro das espécies: Já foram documentadas cepas de H. armigera que desenvolveram resistência à toxina Bt original de forma independente, sem precisar cruzar com outras espécies.
Este artigo foi baseado em reportagem da revista New Scientist – Leia o artigo original aqui.
Artigo: The collision of two genomes threatens global food security
Autores: Henry L. North, Gabriela Montejo-Kovacevich, Douglas Amado, Ian A. Warren, Marek Kucka, Abby Williams, Yingguang Frank Chan, Tom Walsh, Alberto Soares Corrêa, Celso Omoto, Chris D. Jiggins
Revista: bioRxiv
DOI: 10.64898/2025.12.25.696198
