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Pesquisa brasileira cria colágeno de jumento em laboratório para evitar extinção da espécie

Pesquisa brasileira cria colágeno de jumento em laboratório para evitar extinção da espécie

Uma pesquisa inédita desenvolvida na Universidade Federal do Paraná (UFPR) pode transformar a forma como o colágeno de jumento é produzido e, ao mesmo tempo, contribuir para evitar a extinção da espécie no Brasil. O Laboratório de Zootecnia Celular da instituição criou uma técnica de fermentação de precisão capaz de produzir colágeno de jumento em laboratório, sem necessidade de abate dos animais. O projeto busca agora um investimento de US$ 2 milhões para avançar à etapa de produção em escala.

O colágeno de jumento é o principal insumo do ejiao, gelatina utilizada há séculos na medicina tradicional chinesa e que abastece um mercado bilionário. Estimativas internacionais indicam que o setor movimenta atualmente cerca de US$ 1,9 bilhão por ano, com projeção de alcançar US$ 3,8 bilhões até 2032. No modelo tradicional, a matéria-prima é obtida a partir da pele dos animais, prática que tem acelerado o declínio da população de jumentos em diversos países.

No Brasil, dados da FAO, do IBGE e da plataforma Agrostat indicam que a população de jumentos caiu 94% entre 1996 e 2024. Hoje, o país possui cerca de 78 mil animais. O abate é concentrado em dois frigoríficos no interior da Bahia, em uma cadeia considerada extrativista, com baixo retorno econômico local e alto impacto sobre a espécie.

A proposta da UFPR é substituir esse modelo por biotecnologia. O processo consiste na inserção do DNA responsável pela produção do colágeno em micro-organismos, que passam a funcionar como biofábricas. A técnica é semelhante à utilizada na produção de fermentados industriais, como cerveja e proteínas alternativas. As três primeiras etapas laboratoriais, sequenciamento genético, amplificação e preparação do material, já foram concluídas.

Segundo a coordenadora do laboratório, a pesquisadora Carla Molento, PhD pela Universidade McGill, a próxima fase envolve a transferência da produção para biorreatores de 10 e 50 litros. “Estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura que atuará como biofábrica. O desafio agora é testar a produção em escala piloto”, explica.

O projeto é financiado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, pela Fundação Araucária e pelo Governo do Paraná, além de contar com parceria científica da Universidade de Wageningen, na Holanda. A meta é apresentar até o final de 2026 a produção de colágeno de jumento totalmente obtido por fermentação de precisão, comprovando viabilidade técnica e industrial.

Além do impacto ambiental e ético, o colágeno produzido em laboratório é altamente purificado e pode ser comercializado diretamente para empresas que fabricam produtos finais, especialmente no mercado asiático.

Para especialistas envolvidos na iniciativa, a tecnologia pode não apenas preservar os jumentos da extinção, mas também abrir caminho para novas cadeias de produção de proteínas animais sem criação ou abate, reduzindo custos e impactos ambientais da pecuária convencional.