Cientistas pedem reinicialização do conceito de sustentabilidade
Uma equipe internacional de cientistas lançou um apelo bem fundamentado por uma “reinicialização fundamental” no modo como a humanidade compreende e busca o desenvolvimento sustentável.
David Obura e colegas de vários países argumentam que as atuais estruturas de sustentabilidade – construídas sobre um modelo de três pilares que separa natureza, sociedade e economia – não têm sido adequadas para um mundo que enfrenta mudanças climáticas aceleradas, perda de biodiversidade e desigualdades socieconômicas.
A saída estaria na adoção de um novo modelo de sistemas que, de baixo para cima, posiciona a natureza como a base, apoiando as economias como o próximo nível que, por sua vez, trazem benefícios para o terceiro nível, a sociedade.
Numa perspectiva de cima para baixo, os valores sociais e os sistemas de governança determinam como as pessoas organizam suas economias e, consequentemente, como estas afetam a natureza, da qual dependem. A mudança de pilares isolados para camadas integradas, incorporando perspectivas de baixo para cima e de cima para baixo, dará suporte ao reequilíbrio do desenvolvimento global dentro dos limites planetários e garantiria resultados equitativos para todos.
“Nós precisamos superar a ideia de que natureza, economia e sociedade são domínios separados,” disse Obura. “Nosso modelo os vê como camadas interconectadas de um sistema integrado. Com ele, qualquer empresa, comunidade ou país pode rastrear o fluxo de benefícios da natureza através dos setores econômicos até as pessoas, e as maneiras pelas quais nossas escolhas impactam a natureza.”
[Imagem: David Obura et al. – 10.1038/s44458-025-00009-3]
Capitais natural, econômico e social
Desde a sua introdução, o conceito de desenvolvimento sustentável tem guiado os esforços globais para equilibrar o bem-estar humano, o crescimento econômico e a proteção ambiental. Contudo, após quase quatro décadas, as evidências mostram que a separação entre natureza, economia e sociedade gerou prioridades fragmentadas e concorrentes que, muitas vezes, aprofundam as próprias crises que a sustentabilidade visa solucionar.
Em seu novo modelo, os pesquisadores integram décadas de pesquisa e prática para descrever o desenvolvimento sustentável como um sistema único e dinâmico.
O modelo postula que três tipos de capital – natural, econômico e social – sustentam a noção de desenvolvimento sustentável e estão interligados por meio de retroalimentação que determina se as sociedades prosperam ou declinam. Quando um tipo de capital está superdesenvolvido ou esgotado, o sistema se desestabiliza.
Os autores defendem que os desafios atuais da sustentabilidade não são apenas falhas de mercado, mas resultam de “falhas de valores” mais profundas. Ou seja, há falhas em considerar os valores e as escolhas feitas em todos os três domínios.
Visões econômicas restritas, enraizadas na extração, privatização e lucro a curto prazo, relegaram a segundo plano outros valores essenciais, como cuidado, reciprocidade e respeito pela natureza e pelas outras pessoas. Contudo, se todos os tipos de capital puderem ser mantidos em equilíbrio, a resiliência, o bem-estar e a segurança a longo prazo tornam-se possíveis.
[Imagem: David Obura et al. – 10.1038/s44458-025-00009-3]
Reset na sustentabilidade
Os pesquisadores defendem um “reset no sistema” para reorientar o desenvolvimento – não apenas da perspectiva dos governos, mas também das empresas e de toda a sociedade – em direção ao equilíbrio entre natureza, economia e sociedade.
Alcançar essa transformação exige ir além de abordagens fragmentadas e focadas no crescimento, que priorizam apenas os resultados econômicos, e adotar estratégias que salvaguardem a integridade dos três capitais: natural, social e econômico.
Para alcançar esse objetivo, os autores recomendam quatro mudanças fundamentais:
- Reformular a sustentabilidade em torno do equilíbrio dos sistemas, reconhecendo que toda atividade humana depende da estabilidade ecológica.
- Incorporar valores plurais, trazendo diferentes visões de mundo, culturais e relacionais, para as políticas e métricas de sustentabilidade convencionais.
- Adotar uma governança baseada em sistemas, criando políticas que reconheçam as interdependências e considerem as interações entre os processos sociais, econômicos e ecológicos.
- Redefinir o progresso, indo além do crescimento do PIB e adotando medidas que reflitam a saúde de cada um dos capitais e os fluxos entre eles, incluindo a saúde ecológica, a equidade e o bem-estar humano a longo prazo.
Artigo: A systems reset for sustainable development
Autores: David Obura, Arun Agrawal, Michael Christie, Jean-Marc Fromentin, Paula A. Harrison, Matt Jones, Karen O’Brien, Aníbal Pauchard, Helen E. Roy, Josef Settele, Peter Stoett
Revista: Communications Sustainability
Vol.: 1, Article number: 3
DOI: 10.1038/s44458-025-00009-3
