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Ondas de ‘apagões de luz’ no fundo mar colocam algas, corais e peixes em risco

Ondas de ‘apagões de luz’ no fundo mar colocam algas, corais e peixes em risco

Novo estudo mapeia episódios de perda abrupta de luz no oceano, que podem durar poucos dias ou até mais de dois meses

Fenômenos pouco visíveis para quem está na superfície estão lançando trechos inteiros do oceano na escuridão, e colocando ecossistemas marinhos em risco. Cientistas passaram a chamar esses episódios de marine darkwaves, ou “ondas de escuridão marinha”: períodos curtos, porém intensos, em que a luz quase desaparece no fundo do mar.

O conceito foi apresentado por uma equipe internacional de pesquisadores em um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment. A pesquisa descreve, pela primeira vez, um sistema para identificar, medir e comparar esses “apagões submarinos” em diferentes regiões do planeta.

Ao contrário do céu, onde nuvens, fumaça ou neblina bloqueiam a luz do Sol, no oceano a escuridão pode ser causada por outros fatores. Enxurradas carregadas de sedimentos, proliferação de algas e acúmulo de matéria orgânica na água reduzem drasticamente a passagem da luz. Em áreas costeiras, águas antes claras podem ficar tão escuras quanto a noite.

Luz: um recurso vital no oceano

A luz é essencial para a vida marinha que realiza fotossíntese, como algas, pradarias de gramas marinhas, florestas de kelp (grandes formações submarinas de algas marinhas gigantes) e corais. Quando ela não chega ao fundo do mar, esses organismos deixam de produzir energia.

“Sabemos há muito tempo que os níveis de luz são críticos para organismos fotossintéticos e que qualquer fator que reduza essa luz pode afetá-los”, afirma Bob Miller, biólogo do Instituto de Ciências Marinhas da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e coautor do estudo. Segundo ele, a novidade é a criação de um padrão que permite comparar esses eventos extremos de escurecimento.

François Thoral, autor principal da pesquisa e pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, destaca que a ausência de um método comum dificultava a análise do problema. “A luz é um dos motores básicos da produtividade marinha, mas até agora não havia uma forma consistente de medir reduções extremas de luz debaixo d’água”, explica.

Décadas de dados revelam o fenômeno

Para construir o novo sistema, os cientistas analisaram séries longas de dados de diferentes regiões costeiras. Foram usados 16 anos de medições no litoral da Califórnia, na área monitorada pelo programa Santa Barbara Coastal Long Term Ecological Research (LTER), além de 10 anos de observações no Golfo de Hauraki, na Nova Zelândia.

O estudo também incorporou 21 anos de estimativas de luz no fundo do mar obtidas por satélite ao longo da costa leste da Nova Zelândia. O resultado revelou um padrão até então pouco discutido: as darkwaves podem durar desde poucos dias até mais de dois meses.

Em alguns casos, a luz que alcança o leito marinho praticamente desaparece. Só na região do East Cape, os pesquisadores identificaram entre 25 e 80 eventos desse tipo desde 2002. Muitos deles coincidiram com grandes tempestades e sistemas climáticos extremos, como o ciclone Gabrielle.

Tradicionalmente, a ciência tem se concentrado na perda gradual de transparência da água como ameaça aos ecossistemas costeiros. O novo estudo sugere que episódios abruptos de escuridão também podem causar danos relevantes.

“Mesmo períodos curtos de baixa luminosidade podem comprometer a fotossíntese em florestas de kelp, gramas marinhas e corais”, afirma Thoral. A falta de luz também altera o comportamento de peixes, tubarões e mamíferos marinhos. Quando esses eventos se prolongam, os efeitos ecológicos tendem a se intensificar.

Um novo alerta para a saúde dos oceanos

O conceito das ondas de escuridão se soma a outras ferramentas já usadas para monitorar o estresse dos oceanos, como as ondas de calor marinhas, a acidificação e a perda de oxigênio. Juntos, esses indicadores ajudam pesquisadores, gestores públicos e comunidades costeiras a identificar momentos de risco elevado para os ecossistemas.

Como poucos programas no mundo medem de forma contínua a luz no fundo do mar, a equipe da Universidade da Califórnia pretende ampliar a pesquisa. O próximo passo é entender melhor como sedimentos e turbidez, muitas vezes intensificados por incêndios florestais e deslizamentos de terra, afetam as florestas de kelp da Califórnia.

Os cientistas alertam que à medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, esses “apagões submarinos” podem deixar de ser raros. E, mesmo invisíveis para a maioria das pessoas, seus efeitos podem ser profundos e duradouros para a vida no oceano.