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Papagaios raros voltam a fragmento de Mata Atlântica no Nordeste após décadas de silêncio

Papagaios raros voltam a fragmento de Mata Atlântica no Nordeste após décadas de silêncio

Vinte papagaios-chauá foram soltos em janeiro de 2025 numa reserva particular em Alagoas; a espécie quase chegou à extinção devido ao tráfico de animais e ao desmatamento

Vinte papagaios-chauá novamente sobrevoaram, com suas cores vibrantes, uma reserva que abriga uma das poucas faixas intactas da Mata Atlântica no Nordeste, depois de décadas sem serem avistados. As aves de plumagem verde e vermelha estavam desaparecidas de Alagoas há várias gerações. Em janeiro de 2025, voltaram para casa.

Pesquisadores dizem que a soltura dos chauás (Amazona rhodocorytha) em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) em Coruripe, no sul de Alagoas, ajudará a espécie a se recuperar e a restaurar o ecossistema na região. Alagoas tem apenas 3% de Mata Atlântica remanescente.

Segundo Luiz Fábio Silveira, vice-diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, os fragmentos de Mata Atlântica em Alagoas vêm definhando porque os animais dispersores de sementes, como o chauá, praticamente desapareceram. Sem esses dispersores, as árvores que dependem da fauna para se reproduzir deixam de se regenerar e acabam sendo substituídas por espécies cujas sementes se espalham pelo vento.

As aves, por sua vez, quase foram extintas devido à “sinergia entre a captura dos últimos espécimes pelo tráfico de animais e o desmatamento severo nas florestas remanescentes”, explica Silveira, “o que levou à falta de locais para elas fazerem seus ninhos e se alimentarem”.

“Não só os animais, mas também o som deles está voltando para a mata”, relata Silveira, descrevendo os vídeos enviados por monitores da comunidade que mostram bandos de papagaios voando pela reserva. A RPPN, que pertence à Usina Coruripe, de açúcar e álcool, também abriga a maior população de pau-brasil nativo (Paubrasilia echinata) fora da Bahia.

Os vinte papagaios soltos em janeiro vieram de centros de resgate e de uma fundação voltada à conservação. Nenhum deles tinha vivido no ambiente natural antes, então passaram dois anos num amplo viveiro dentro da mata, aprendendo a reconhecer alimentos na natureza e a se adaptar aos padrões das chuvas.

As aves passaram por testes que avaliaram suas habilidades sociais, seu comportamento em geral e seu medo de novidades, disse Silveira. Dez aves não passaram nesses testes e foram mantidas em cativeiro para se reproduzirem.

As aves soltas são todas jovens e só atingirão a idade reprodutiva quando tiverem entre 5 e 8 anos. Isso significa que os primeiros filhotes nascidos no ambiente natural provavelmente virão em 2027.

Cuidar das aves reintroduzidas na natureza tem seus desafios, diz Silveira. O maior perigo que elas enfrentam é sair da mata e se perder. Papagaios adultos não têm tanto risco de serem predados, mas as aves nos ninhos são alvos vulneráveis, segundo ele.

Alianças entre o público e o privado

A reintrodução dos chauás em Alagoas faz parte do Projeto de Avaliação, Recuperação e Conservação de Aves Ameaçadas (Arca) do Centro de Endemismo Pernambuco, liderado por Silveira. O Centro de Endemismo de Pernambuco abrange florestas costeiras de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, onde vivem diversas espécies endêmicas ameaçadas de extinção.

O projeto Arca começou em 2018, com o apoio da Fundação para a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), lançando uma nova abordagem à conservação florestal em Alagoas. A parceria surgiu depois que o Ministério Público (MP) de Alagoas estabeleceu, em 2017, um programa para conservar espécies ameaçadas. Segundo o promotor Alberto Fonseca, o MP queria deixar de reagir aos danos ambientais só depois que ocorressem.

“O alto grau de degradação ambiental, especialmente no bioma da Mata Atlântica em Alagoas, impôs a necessidade dessa mudança de paradigma”, disse Fonseca à Mongabay. A nova abordagem, diz ele, “valoriza e prioriza ações preventivas”.

Uma vez que muitos dos fragmentos florestais de Alagoas pertencem a usinas privadas de açúcar e álcool e são pequenos demais para o governo designá-los como parques nacionais, pesquisadores, entre eles Silveira, trabalharam junto ao Ministério Público e a grupos locais para transformar essas áreas em RPPNs. Depois de persuadir os cartórios a isentarem os proprietários das taxas de registro — de milhares de reais — cobradas para a constituição de uma RPPN, o projeto Arca conseguiu proteger mais de 5 mil hectares de Mata Atlântica em Alagoas.

Apesar das contínuas ameaças decorrentes do desmatamento, da caça e do tráfico de aves, “é encorajador ver setores como a indústria açucareira, o turismo, a academia e organizações governamentais e não governamentais unidos na criação de áreas protegidas”, diz Fonseca.

Além do projeto de restauração dos chauás, há projetos na região envolvendo outras espécies, como o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), também chamado mutum-de-alagoas, espécie que havia sido declarada extinta na natureza por 30 anos; ela foi reintroduzida ali em 2019 a partir de uma população criada em cativeiro. A reserva também abriga populações reintroduzidas de macuco (Tinamus solitarius) e de jabuti-piranga (Chelonoidis carbonarius).

O projeto gerou entusiasmo entre a população. O mutum-do-nordeste tornou-se a ave-símbolo de Alagoas e passou a ser homenageado no carnaval, em corridas de rua e em murais de artistas pela cidade.

“A população está começando a ver esses animais de novo em seu cotidiano, e está começando a se orgulhar com a volta deles”, diz o pesquisador. “Os moradores dessas regiões, em vez de quererem esses animais em casa [como bichos de estimação], preferem vê-los na natureza.”

Mata Atlântica continua perdendo área

A Mata Atlântica enfrenta pressões por todo o Brasil. Entre 2010 e 2020, a floresta perdeu uma área do tamanho do município de Natal (RN) por ano, apesar da legislação federal de proteção do bioma (a Lei da Mata Atlântica). A maior parte desse desmatamento aconteceu ilegalmente em terras privadas destinadas à agricultura.

A agricultura e a pecuária são as responsáveis pela maior parte da perda da vegetação, e grandes agroindústrias como Cofco, Bunge e Cargill estão ligadas à destruição da Mata Atlântica por meio de suas redes de fornecimento de soja.

A área antigamente coberta pelo bioma hoje abriga quase três quartos da população brasileira, incluindo as metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro, e responde por cerca de 80% do PIB do país.

Pesquisa recente publicada na revista Nature Sustainability analisou mais de 10 mil eventos de desmatamento na Mata Atlântica brasileira entre 2010 e 2020. O gráfico foi criado pela Mongabay com dados de Amaral et al. 2025.

Para Fonseca, há um significado mais amplo no trabalho de restauração do bioma: “Apesar de ter perdido mais de 90% de sua cobertura original, milhões de brasileiros usam água de fontes que se originam na Mata Atlântica.”

Por enquanto, o projeto de restauração em Alagoas não tem data para terminar. As reintroduções continuarão até que as populações silvestres possam se manter por conta própria — um objetivo que ainda está longe, mas que fica mais próximo a cada bando de papagaios que retorna à copa das árvores.