Anchor Deezer Spotify

Como a laranja pode salvar os jumentinhos brasileiros (e talvez a balança comercial)

Como a laranja pode salvar os jumentinhos brasileiros (e talvez a balança comercial)

Suco de laranja pode ser uma alternativa diplomática para proteger os animais e repensar o comércio exterior

Antes de tudo, quero explicitar que este texto não utiliza o termo “jumento” como sinônimo de xingamento contra quem votou em adversários políticos meus. Este texto não representa a opinião do Portal eCycle e aqui você não verá a expressão “little orange” (laranjinha, em inglês) sendo utilizada como sinônimo de xingamento contra algum político estadunidense. Até porque a laranja – essa fruta tão deliciosa, rica em vitamina C e nativa da China – tem o Brasil como seu maior produtor e não merece analogias pejorativas.

Aqui, eu quero, com licença poética para utilizar uma figura de linguagem chamada prosopopeia – aquela que atribui características humanas a seres inanimados – saudar a laranja, pois ela pode nos ajudar a escapar da taxação de 50% do então presidente dos Estados e, de quebra, livrar nossos jumentinhos (os animais não-humanos) do risco de extinção. Para isso acontecer, o Brasil só precisa que você colabore compartilhando este artigo até chegar no Xi Jinping ou no ministro do comércio chinês, Wang Wentao. Conto com a sua colaboração, seja você de direita ou esquerda. E se você já vai compartilhar agora, não precisa nem seguir a leitura, a não ser que você queira saber como a laranja pode salvar jumentos e deixar sua pele – e a dos  chineses – brilhantes e repletas de saúde.

Se você é tão viciado quanto eu em notícias, deve ter visto que o abate legal e ilegal de jumentos para exportação cresceu, colocando a espécie em risco de extinção. O alerta foi feito por pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP em artigo publicado numa edição especial do Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science em 2021, mas voltou a circular no noticiário mês passado, com o agravamento da situação. O estudo informa que a crescente procura por colágeno animal na China, especialmente sob a forma do tradicional ejiao (阿胶), está por trás da alarmante escalada no abate de jumentos no Brasil. O ejiao é tradicionalmente produzido na China fervendo a pele de jumentos até se transformar em uma gelatina rica em colágeno.

Ele é utilizado na medicina tradicional chinesa como ingrediente de tônicos e cosméticos voltados para tratar anemia e prevenir flacidez de pele, mas sem embasamento científico. A expansão do poder aquisitivo da classe média chinesa impulsionou essa demanda, que já provocou a redução de 75% da população de jumentos na própria China entre 1994 e 2018, segundo dados da FAO. O colágeno é dentre as proteínas presentes no corpo a mais comum, estando presente nos tendões, gordura, ligamentos, entre outros lugares. Por conta disso, o colágeno é uma proteína que ajuda as diferentes partes do corpo a se encaixarem. Ela é crucial para a força da estrutura óssea e mantém a pele firme.

Entretanto, o que ninguém te conta é que isso só faz sentido se você induzir o seu próprio corpo a produzir colágeno, em vez de ingerir essa proteína de fontes externas. Isso porque, uma vez ingerido, o colágeno é quebrado em aminoácidos que serão metabolizados pelo organismo durante a digestão, o que o descaracteriza como colágeno.  E sabe como você aumenta a produção interna de colágeno no seu organismo e ainda, de lambuja, melhora a absorção de ferro dos alimentos reduzindo a anemia? Aumentando a ingestão de vitamina C, aquela mesma presente na laranja e em outras frutas como goiaba, limão e kiwi.

E o que isso tem a ver com Donald Trump? Tem a ver que, de acordo com dados da USDAo Brasil é o maior produtor mundial de suco de laranja e os Estados Unidos eram, até o momento, os maiores compradores de suco de laranja do Brasil. A China está em segundo lugar na produção mundial do suco de laranja e, ainda assim, precisa importar para atender à sua demanda interna. Quem sabe, com uma boa campanha de marketing promovendo o suco como fonte de vitamina C para produção endógena de colágeno, ela não passe a importar  ainda mais – e, melhor, do Brasil?

Exemplos brincalhões à parte, enquanto brasileiros, é necessário pensar em alternativas e ter uma visão otimista da situação, mesmo sendo seríssima tanto do ponto de vista da extinção dos jumentos quanto do ponto vista da macroeconomia. O suco de laranja é um exemplo porque é o nosso produto carro-chefe de exportação para os EUA e o que seria o mais afetado. Mas ainda é preciso considerar políticas de proteção aos jumentos. Além do mais, o ejiao é utilizado por questões espirituais e culturais milenares. E a ideia de que o suco de laranja poderia substituir o colágeno animal por fornecer vitamina C, nutriente essencial para estimular a produção endógena de colágeno, é válida do ponto de vista nutricional e científico, no entanto, esse argumento é limitadamente um tipo de nutricionismo e esbarra em questões culturais, comerciais e institucionais.

Por outro lado, a China, com seus mais de 5 mil anos de história, tem um povo que é brilhantemente exemplar em se adaptar às adversidades e tem minha completa admiração. Então, será que vale a pena perguntar ao Xi Jinping se os chineses topariam ajudar os brasileiros e os jumentos, inclusive os que habitam a própria China, desenvolvendo, quem sabe, um tipo de suco de laranja fermentado, cheio de probióticos benéficos para a saúde?  Não temos como saber, mas vale a pena, com respeito, tentar. Até porque já temos exemplos semelhantes. Historicamente, o consumo de leite na China sempre foi muito baixo, por razões culturais e de alta taxa de intolerância à lactose. Mas a partir dos anos 2000, com campanhas massivas patrocinadas por empresas como Mengniu e Yili, o leite, mesmo não sendo tudo isso e controverso para saúde e para o meio ambiente (leia: O leite faz mal?), passou a ser promovido como símbolo de saúde, força e crescimento, especialmente entre crianças.

Quanto aos EUA, precisamos ser realistas, é um país cuja moeda domina as transações internacionais. Será que, ao tentar reduzir a competitividade do Brasil e desincentivar acordos comerciais em outras moedas (como o yuan ou moedas do BRICS), não estaria dando um tiro no seu próprio pé? Se o Brasil perder receita em dólar por causa das tarifas, isso pode, na prática, estimular alternativas e antecipar a desdolarização. Haja vista o Brasil já tem acordos para comerciar sem dólar (ex.: China-Brasil em yuan/real, Argentina-Brasil em pesos/reais). Com menos dólares disponíveis, esses acordos se tornam mais atraentes.

Rússia, após sanções dos EUA em 2014 e 2022, acelerou acordos em yuan, rublo e moedas alternativas. O Irã também passou a vender petróleo sem dólar.  Se o Brasil seguir esse caminho, os EUA podem estar criando o efeito oposto ao desejado.  Até lá, vamos aguardar os próximos capítulos espalhando a palavra dos benefícios da vitamina C presente no suco de laranja. E se você chegou até aqui, tome uma dica bônus para a pele: Como aumentar a produção de colágeno endógeno?

Mas e aí? Qual é sua opinião a respeito? Você concorda? Só não vale dizer que estou inventando uma diplomacia criativa com pitadas de soft power via agroexportações. Prefiro que chame de “branding nacional com valor agregado em sustentabilidade”. Afinal, biodiversidade é um tema sério. E faz bem para o Brasil adotar uma diplomacia comercial criativa e articulada com a sustentabilidade. Promover o suco de laranja como solução para a produção natural de colágeno endógeno  não é apenas uma jogada de mercado: é uma estratégia que une biodiversidadeconhecimento científico e mercado.

Nada disso, é claro, elimina a necessidade urgente de o Brasil regular e proteger suas populações de jumentos. Políticas de rastreabilidade, proibição de exportação de pele animal e incentivo à conservação de raças locais precisam ser debatidos com urgência. Mas pensar em soluções integradas — que aliem mercadodiplomaciacultura e sustentabilidade — é uma tarefa cada vez mais essencial para quem quer um Brasil que valorize sua fauna, sua agricultura e sua inteligência diplomática. Quem sabe o futuro do jumento nordestino esteja garantido. Mas isso só acontecerá se nós soubermos usar nossas frutas com a sabedoria que falta na geopolítica global.