Mina de resíduos tóxicos ameaça abastecimento de água de milhões na Europa

Preocupação central é que, com o tempo, esse material químico possa vazar e contaminar o aquífero da Alsácia
No subsolo da cidade de Wittelsheim, na região da Alsácia, França, uma ameaça silenciosa preocupa cientistas, ambientalistas e moradores: 42 mil toneladas de resíduos industriais perigosos estão armazenadas em túneis desativados da antiga mina de potássio conhecida como Stocamine. A preocupação central é que, com o tempo, esse material químico possa vazar e contaminar o aquífero da Alsácia, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água potável da Europa, que se estende pela França, Suíça e Alemanha. É o que detalha reportagem do The Guardian.
O local, que à primeira vista parece inofensivo — com seus dois poços de mina, edifícios administrativos e um pequeno estacionamento — conta hoje com vigilância policial constante. O motivo: o temor de que os rejeitos depositados ali, incluindo metais pesados como mercúrio e arsênico, além de cianeto e resíduos de incineradores domésticos, representem uma bomba-relógio ambiental.
Segundo especialistas, o risco é que a instabilidade geológica e o aumento da umidade no subsolo acabem provocando infiltrações, colocando em perigo o abastecimento de água de milhões de pessoas e a vida de ecossistemas aquáticos locais. Pesquisas apontam que o aquífero da Alsácia, situado a apenas cinco metros da superfície, pode ser o primeiro a sofrer os impactos.
Desde 1989, moradores da região organizam protestos pedindo a retirada do material tóxico da mina. Um dos líderes dessas mobilizações é Yann Flory, ex-professor de educação física. “É raro a polícia não estar aqui”, comentou Flory durante uma manifestação recente, realizada sob chuva, que reuniu cerca de 30 ciclistas e alguns moradores. “Talvez eu não seja mais afetado. Estou muito velho. Mas meus filhos, meus netos, com certeza serão”, disse. “Estamos convencidos de que um dia ou outro, a água que bebemos será irreversivelmente poluída.”
O tema voltou ao centro das discussões em junho deste ano, quando um tribunal francês confirmou a decisão do governo de não remover os resíduos. Em vez disso, será aplicada uma camada de concreto nas galerias subterrâneas para tentar impedir vazamentos. A decisão, tomada em 17 de junho, foi criticada por ambientalistas. Para os que defendem a remoção dos resíduos, trata-se de “uma bomba-relógio para as futuras gerações”.
As condições geológicas da mina aumentam as incertezas. A pressão das minas vizinhas tem causado o afundamento das estruturas em cerca de 2 centímetros por ano. Há relatos de que algumas áreas já estão intransitáveis e que certos recipientes com resíduos podem em breve não ser mais acessíveis. Pesquisas indicam que, ao longo dos próximos 300 anos, a mina deverá ser gradualmente inundada.
Enquanto o governo francês aposta no concreto como solução definitiva, especialistas contestam a eficácia da medida diante do risco geológico. Organizações ambientais argumentam que a única forma de proteger as futuras gerações seria retirar os resíduos, apesar do alto custo estimado em € 65 milhões.
O perigo de contaminação também preocupa pela possibilidade de efeitos devastadores na fauna aquática. Pesquisas internacionais indicam que metais pesados, mesmo em baixas concentrações, estão associados a doenças neurológicas, câncer e danos renais em humanos, além de impactos neurológicos e deformidades em peixes e outros organismos aquáticos. O cianeto, presente em Stocamine, é apontado como altamente letal para a vida em rios, já tendo sido ligado a mortes em massa de peixes e à formação de “zonas mortas”.
A ONG Alsace Nature levou o caso à Corte Europeia de Direitos Humanos, argumentando que manter os resíduos no local representa um risco direto à saúde pública. A corte, porém, decidiu manter a decisão francesa, considerando que o estado atual das galerias torna a remoção perigosa demais.