Anchor Deezer Spotify

Entre retrocessos políticos e oportunidades econômicas, investimento sustentável entra em nova fase, diz banco suíço

Entre retrocessos políticos e oportunidades econômicas, investimento sustentável entra em nova fase, diz banco suíço

Análise do Lombard Odier aponta que oportunidades para financiamento via capital privado estão em transição energética, adaptação climática e setores como redes elétricas, baterias, água e saúde

O ano de 2025 ficará marcado como um período de contradições para a agenda climática global. De um lado, retrocessos políticos, fragmentação regulatória e enfraquecimento da cooperação internacional. De outro, um avanço cada vez mais relevante do capital privado, que segue financiando a transição energética, a adaptação climática e setores-chave como energia, água, saúde e infraestrutura. A avaliação é do banco suíço Lombard Odier, em análise assinada por Sophie Chardon, líder de Investimentos Sustentáveis do private bank do grupo.

A desconexão entre ambição pública e dinâmica econômica ficou evidente ao longo do ano. A volta de Donald Trump à Casa Branca resultou na retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, na redução do alcance da Inflation Reduction Act (IRA, programa de incentivo à transição verde) e até na exclusão de termos como “mudança climática” e “descarbonização” das comunicações federais.

Na Europa, o Parlamento reduziu o escopo das exigências de divulgação corporativa em sustentabilidade e propôs mudanças no Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis (SFDR), em resposta a críticas sobre complexidade e aplicabilidade.

No campo multilateral, o adiamento da votação de um imposto global de carbono para o transporte marítimo pela Organização Marítima Internacional — agora empurrado para 2028 — e o uso estratégico, pela China, de sua posição dominante em terras raras reforçaram o cenário de fragmentação. O resultado da COP30 refletiu esse ambiente: poucas decisões estruturais e ausência de compromissos globais mais robustos, na visão dos especialistas do banco suíço.

Ainda assim, os impactos físicos das mudanças climáticas continuam avançando — e pressionando a economia. O custo de inação, portanto, passou a ser observado. Apenas no primeiro semestre de 2025, eventos climáticos extremos causaram US$ 101,4 bilhões em prejuízos nos Estados Unidos, o semestre mais caro já registrado, segundo a Climate Central. Globalmente, a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C é cada vez mais vista como fora de alcance, pelo menos por um período de tempo.

Capital privado assume protagonismo

Paradoxalmente, é nesse contexto de retrocesso político que o investimento sustentável começa a mostrar sinais claros de maturidade. Segundo dados da Morningstar coletados pelo Lombard Odier, os ativos globais sob gestão em estratégias sustentáveis alcançaram US$ 3,7 trilhões até setembro de 2025.

O banco avalia que, após anos em que a sustentabilidade esteve fortemente associada à mitigação de emissões e a políticas públicas, o foco começa a se deslocar para adaptação climática, resiliência e soluções economicamente viáveis. A lógica muda: menos promessas de longo prazo, mais projetos com retorno financeiro, impacto mensurável e aderência às realidades regionais.

Essa transição também se reflete no comportamento dos mercados. Depois de um período de desempenho fraco das ações de tecnologia limpa em 2022 e 2023, pressionadas pela alta dos juros, alguns fundos temáticos voltaram a superar benchmarks tradicionais em 2025, especialmente nos temas de eletrificação e energias renováveis.

Investidores passaram a priorizar empresas financeiramente robustas, com modelos escaláveis e capacidade de operar em um ambiente de custo de capital mais normalizado.

Apesar das incertezas políticas, os vetores estruturais da transição energética também permanecem fortes. No primeiro semestre de 2025, os Estados Unidos investiram US$ 136 bilhões em soluções de energia limpa. A China liderou os investimentos globais, com fontes renováveis já representando 46% da capacidade de geração elétrica do país.

Segundo a consultoria Systemiq, o mundo está próximo de ultrapassar pontos de inflexão econômicos em tecnologias de descarbonização que hoje cobrem cerca de 40% das emissões globais — percentual que pode chegar a 75% até 2035. Esses pontos marcam o momento em que soluções limpas se tornam mais baratas do que alternativas fósseis, permitindo uma expansão acelerada e exponencial.

O que emerge desse cenário é uma mudança de fase, de acordo com os especialistas. A sustentabilidade deixa de ser tratada apenas como custo regulatório ou promessa de longo prazo e passa a ser vista como vetor de competitividade, segurança energética, adaptação climática e redução de riscos econômicos.

Mesmo nos Estados Unidos, o número de empresas que adotam metas de redução de emissões baseadas na ciência continuou crescendo em 2025. Mais do que um recuo da ambição, o movimento indica uma recalibração: menos retórica, mais execução. Em um mundo mais fragmentado e sujeito a choques climáticos, a transição tende a ser mais regional, mais pragmática — e cada vez mais guiada por oportunidades concretas de investimento.

Oportunidades de investimentos

Ao elencar setores que podem atrair investidores, o Lombard Odier destaca o segmento de data centers. Com a rápida expansão da inteligência artificial, a demanda global de eletricidade de data centers deve mais que dobrar até 2030, superando 1.000 TWh — mais do que o consumo atual do Japão. Nos Estados Unidos, eles já respondem por quase metade do crescimento da demanda elétrica.

Esse movimento desloca o foco dos investimentos para áreas menos visíveis, mas estratégicas: fabricantes de transformadores, cabos, disjuntores e painéis elétricos. Diferentemente dos sistemas fósseis, a geração renovável é intermitente e exige redes mais robustas, capazes de operar em picos de oferta e demanda.

A pressão sobre a cadeia de suprimentos reforça essa oportunidade. Cabos de transmissão de longa distância têm filas de espera superiores a cinco anos; transformadores, atrasos de até quatro anos. Para investidores, esses gargalos garantem previsibilidade de receitas e maior resiliência de margens.

armazenamento de energia segue como um dos pilares da transição. Os preços das baterias de íon-lítio caíram cerca de 25% em 2024, para US$ 110 por kWh, e podem cair abaixo de US$ 65 por kWh até 2030, segundo projeções da BloombergNEF. Essa trajetória abre espaço para a eletrificação de setores difíceis de descarbonizar, como transporte pesado, navegação e aviação regional.

A água também ganha protagonismo. O estresse hídrico associado às mudanças climáticas e a expansão de data centers impulsionam investimentos em monitoramento, tratamento e eficiência. Tecnologias de sensores, diagnósticos com IA, reutilização e abastecimento sustentável passam a integrar estratégias de adaptação e financiamento climático, especialmente em agricultura, infraestrutura urbana e energia.

Saúde entra no radar das finanças sustentáveis

Outro setor que avança é o de saúde, cada vez mais associado à adaptação climática e à resiliência social. A Estratégia Global de Saúde da Organização Mundial da Saúde para 2025–2028 prevê salvar 40 milhões de vidas ao enfrentar riscos climáticos, ampliar o acesso ao atendimento e fortalecer sistemas de saúde.

Infraestrutura, diagnósticos e plataformas digitais surgem como áreas com potencial simultâneo de impacto social e crescimento econômico, à medida que a cobertura universal de saúde se consolida como prioridade global.