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Comércio de animais silvestres amplia risco de novas doenças em humanos

Comércio de animais silvestres amplia risco de novas doenças em humanos

Circulação global de fauna silvestre amplia as oportunidades para que vírus e bactérias saltem entre espécies. Doenças como o HIV, a epidemia de Ebola na África Ocidental em 2014, surtos de mpox e a pandemia de COVID-19 já foram associados ao contato com animais silvestres comercializados.

O comércio global de animais silvestres — legal e ilegal — está diretamente associado ao aumento da transmissão de doenças de animais para humanos. A conclusão é de um estudo publicado na revista Science, que analisou milhares de espécies comercializadas ao redor do mundo.

Segundo a pesquisa, 41% das 2.079 espécies de mamíferos presentes no comércio global compartilham ao menos um patógeno com humanos. Entre espécies que não são comercializadas, essa proporção cai para 6,4%. Os animais negociados também são cerca de 1,5 vez mais propensos a hospedar doenças zoonóticas, aquelas transmitidas de animais para humanos.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Friburgo, na Suíça, e aponta que o risco de transmissão ocorre em todas as etapas da cadeia — da captura ao consumo, passando por transporte, criação e venda.

Doenças como o HIV, a epidemia de Ebola na África Ocidental em 2014, surtos de mpox e a pandemia de COVID-19 já foram associados ao contato com animais silvestres comercializados.

A análise também identificou um fator de risco crescente: quanto mais tempo uma espécie permanece no comércio global, maior a probabilidade de compartilhar patógenos com humanos. Em média, a cada dez anos no mercado, um mamífero passa a carregar um patógeno adicional capaz de infectar pessoas.

Isso indica que microrganismos que hoje não afetam humanos podem, no futuro, dar origem a novos surtos. “Há uma necessidade urgente de avaliar os riscos associados ao comércio de fauna”, aponta o estudo, que defende o fortalecimento da vigilância sanitária.

Especialistas destacam que os dados ainda têm lacunas importantes, sobretudo em mercados locais e no comércio de animais vivos, onde o contato direto aumenta o risco de transmissão. De toda forma, o padrão geral é claro: a circulação global de fauna silvestre amplia as oportunidades para que vírus e bactérias saltem entre espécies.

Para a organização Wildlife Health Australia, os resultados ajudam a orientar políticas públicas. “Esses dados mostram onde estão as interações mais arriscadas e podem apoiar decisões para reduzir esses riscos”, afirmou a pesquisadora Tiggy Grillo ao site australiano ABC Net.

O alerta ganha peso em um cenário de aumento de doenças zoonóticas. Só em 2026, a Austrália já registrou centenas de casos envolvendo infecções transmitidas por animais. Para os autores, ampliar o monitoramento de patógenos em populações selvagens, cativas e domésticas será essencial para prevenir futuras epidemias. “Se perturbamos a natureza, perturbamos a vida de todos nós”, disse Grillo.

O tráfico de vida selvagem segue como um problema global, apesar de décadas de tentativas de controle, segundo relatório de 2024 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Entre 2016 e 2020, o comércio legal movimentou cerca de US$ 11 bilhões, sendo aproximadamente US$ 1,8 bilhão com animais e US$ 9,3 bilhões com plantas. Já o mercado ilegal, que inclui tanto animais quanto plantas e produtos derivados, é estimado entre US$ 7 bilhões e US$ 23 bilhões por ano. A atividade atinge cerca de 4 mil espécies em 162 países e tem impactos diretos sobre a biodiversidade, os ecossistemas e também economias locais