{"id":98749,"date":"2019-01-08T11:00:08","date_gmt":"2019-01-08T14:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=98749"},"modified":"2019-01-08T09:20:40","modified_gmt":"2019-01-08T12:20:40","slug":"mata-atlantica-onde-vale-mais-a-pena-restaurar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/mata-atlantica-onde-vale-mais-a-pena-restaurar\/","title":{"rendered":"Mata Atl\u00e2ntica: onde vale mais a pena restaurar milh\u00f5es de hectares"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-98750\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ao instituir em 2017 o Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa, o governo brasileiro assumiu o compromisso internacional de restaurar 12 milh\u00f5es de hectares de florestas at\u00e9 2030. Deste total, 5,17 milh\u00f5es de hectares devem ser na Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Em meados de dezembro, duas semanas antes do in\u00edcio do governo de Jair Bolsonaro, foi publicado na revista\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-018-0743-8\" rel=\"noopener\"><em>Nature Ecology &amp; Evolution<\/em><\/a>\u00a0um estudo internacional com vistas a maximizar os resultados de restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica. Num momento em que a agenda ambiental do governo brasileiro ainda \u00e9 uma tremenda inc\u00f3gnita, tal publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser mais oportuna.<\/p>\n<p>Quais seriam as \u00e1reas mais indicadas para centrar esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica? Quais os locais onde seria poss\u00edvel fazer uma aloca\u00e7\u00e3o \u00f3tima de recursos, visando preservar o m\u00e1ximo de esp\u00e9cies nativas? Onde seria mais interessante aos propriet\u00e1rios rurais, do ponto de vista econ\u00f4mico, investir na restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica?<\/p>\n<p>A ci\u00eancia come\u00e7a a fornecer respostas para estas quest\u00f5es. Uma equipe integrada por 25 pesquisadores de seis pa\u00edses (Brasil, Reino Unido, Austr\u00e1lia, EUA, Su\u00e9cia e Pol\u00f4nia) desenvolveu um algoritmo capaz de identificar as \u00e1reas priorit\u00e1rias da Mata Atl\u00e2ntica a serem restauradas combinando tr\u00eas fatores essenciais: conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, mitiga\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e redu\u00e7\u00e3o de custos.<\/p>\n<p>O estudo foi liderado pelo economista e cientista ambiental Bernardo Strassburg, diretor do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), no Rio de Janeiro, e pesquisador da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).<\/p>\n<p>De acordo com Strassburg, o uso do algoritmo mapeou 362 solu\u00e7\u00f5es para recupera\u00e7\u00e3o florestal com um custo-benef\u00edcio oito vezes maior do que aquelas obtidas por m\u00e9todos usuais. Uma dessas solu\u00e7\u00f5es, por exemplo, poderia evitar a extin\u00e7\u00e3o de 26% dos 2.864 esp\u00e9cies da flora e da fauna (ou 745 esp\u00e9cies, um aumento de 257% em rela\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio base) e sequestrar 1 bilh\u00e3o de toneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico (um aumento de 105%), enquanto os custos seriam reduzidos na ordem de US$ 28 bilh\u00f5es (redu\u00e7\u00e3o de 57% de um custo total estimado em US$ 50 bilh\u00f5es) em compara\u00e7\u00e3o com o cen\u00e1rio base. Isso se traduz em um aumento de oito vezes na rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas vari\u00e1veis, centenas de cen\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>A Mata Atl\u00e2ntica cobria originalmente cerca de 1,5 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, espalhados pela costa atl\u00e2ntica brasileira, desde a Zona da Mata nordestina at\u00e9 Santa Catarina e o Mato Grosso do Sul. Mais de 500 anos de desmatamento e ocupa\u00e7\u00e3o humana acabaram por reduzir a floresta a uma fra\u00e7\u00e3o do que era.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo, acreditava-se que restassem apenas entre 7% e 11% do bioma original. Hoje, no entanto, novas estimativas indicam que ainda restam entre 22% e 28% da Mata Atl\u00e2ntica. A despeito das novas estat\u00edsticas, ainda \u00e9 pouco. Principalmente quando se sabe que para manter a biodiversidade de animais e plantas da Mata Atl\u00e2ntica aqueles n\u00edveis precisariam atingir no m\u00ednimo 30% do bioma original.<\/p>\n<p>Como o Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa determina que, em 20 anos, sejam restaurados 5 milh\u00f5es de hectares de Mata Atl\u00e2ntica, equivalentes a 4% da \u00e1rea original do bioma, isto, em tese, recuperaria a floresta a n\u00edveis entre 26% e 32% da \u00e1rea original.<\/p>\n<p>Trata-se de um objetivo ambicioso. De acordo com a Lei de Prote\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa, popularmente conhecida como Novo C\u00f3digo Florestal, de 2012, cada propriedade na Mata Atl\u00e2ntica deve conservar, no m\u00ednimo, 20% de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Aquelas propriedades que estiverem abaixo da meta devem fazer a restaura\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o necessariamente na sua pr\u00f3pria terra, pois a lei permite que o produtor pague por essa recupera\u00e7\u00e3o em outros locais.<\/p>\n<p>\u201cA metodologia do novo algoritmo trabalha com tr\u00eas vari\u00e1veis b\u00e1sicas: a diversidade de esp\u00e9cies da flora e da fauna end\u00eamicas da Mata Atl\u00e2ntica, a capacidade da floresta estocar carbono, e o custo de oportunidade do uso do solo,\u201d explica outro pesquisador envolvida no trabalho, o engenheiro agr\u00f4nomo Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>No caso da diversidade de esp\u00e9cies, os autores empregaram dados de aves, anf\u00edbios e r\u00e9pteis entre os animais (n\u00e3o foram usados dados de mam\u00edferos, peixes e invertebrados) e, no caso de plantas, apenas de esp\u00e9cies lenhosas.<\/p>\n<p>Foi registrada a \u00e1rea de ocorr\u00eancia de cada uma das 2.864 esp\u00e9cies, numa escala espacial com resolu\u00e7\u00e3o de 1 quil\u00f4metro quadrado.<\/p>\n<p>\u201cA capacidade de estoque de carbono por hectare \u00e9 decorr\u00eancia direta de vari\u00e1veis como o tipo de solo, a quantidade de insola\u00e7\u00e3o e a quantidade de oferta h\u00eddrica. No trabalho foram levadas em considera\u00e7\u00e3o 15 vari\u00e1veis clim\u00e1ticas, todas elas carregadas no algoritmo,\u201d explica o ec\u00f3logo Jean Paul Metzger, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 o custo de oportunidade, qual o valor econ\u00f4mico para o produtor rural em preservar ou reflorestar \u00e1reas desmatadas, quando confrontado com o ganho econ\u00f4mico potencial da utiliza\u00e7\u00e3o das mesmas \u00e1reas para agricultura, pecu\u00e1ria ou especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cTome o exemplo do interior de S\u00e3o Paulo, que tem bons solos, boa insola\u00e7\u00e3o e boa oferta h\u00eddrica, o que o torna a princ\u00edpio ideal para recupera\u00e7\u00e3o,\u201d observa Brancalion. \u201cQuando se coloca a vari\u00e1vel diversidade de esp\u00e9cies, percebe-se que a regi\u00e3o j\u00e1 foi de tal modo desmatada, que faz menos sentido despender esfor\u00e7os em seu reflorestamento, quando comparado a \u00e1reas de pastagem em Minas Gerais, por exemplo, que n\u00e3o sofreram tanto desmatamento, onde ainda restam fragmentos de Mata Atl\u00e2ntica e muitas esp\u00e9cies por salvar\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cAinda levando em conta o exemplo do interior paulista, quando se olha para o custo de oportunidade do uso do solo, percebe-se que \u00e9 tremendamente mais vantajoso ao dono da terra, por exemplo, plantar cana, do que reflorestar,\u201d explica Brancalion.<\/p>\n<p>Ao se alimentar o programa com todas as vari\u00e1veis, correspondentes ao 1,5 milh\u00e3o de quil\u00f4metros da Mata Atl\u00e2ntica original, surgem os pontos onde o investimento em recupera\u00e7\u00e3o florestal \u00e9 maximizado, como regi\u00f5es no litoral da Bahia, no interior de Minas Gerais, e in\u00fameros fragmentos no litoral dos Estados de S\u00e3o Paulo, Rio e Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa traz benef\u00edcios como a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade \u2012 por meio da preserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o \u2012, e mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2012 por meio do sequestro de carbono emitido na atmosfera pela pecu\u00e1ria e queima dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2012, mas implica em custos de restaura\u00e7\u00e3o (plantio e mudas e sementes) e de oportunidade (convers\u00e3o de \u00e1reas utilizadas para agricultura e pecu\u00e1ria em floresta).<\/p>\n<p>O algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores alcan\u00e7a a solu\u00e7\u00e3o considerada \u00f3tima para alinhavar todas as vari\u00e1veis do problema, \u201calcan\u00e7ando um desempenho 33% melhor em rela\u00e7\u00e3o aos obtidos pelas ferramentas dispon\u00edveis atualmente, que se baseiam em aproxima\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas,\u201d afirma Strassburg.<\/p>\n<p>\u201cA diferen\u00e7a que isso faz para a Mata Atl\u00e2ntica \u00e9 enorme: s\u00e3o 450 milh\u00f5es de toneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico (CO2) a menos na atmosfera, 308 esp\u00e9cies menos extintas e 4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de redu\u00e7\u00e3o de custos\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cEssas metas de restaura\u00e7\u00e3o, se alcan\u00e7adas, trar\u00e3o m\u00faltiplos benef\u00edcios para as pessoas e para a natureza. Mostramos que a ci\u00eancia pode ajudar a orientar decis\u00f5es sobre onde restaurar, multiplicando benef\u00edcios e economizando bilh\u00f5es de d\u00f3lares em custos.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao instituir em 2017 o Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa, o governo brasileiro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":98750,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/muda.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Ao instituir em 2017 o Plano Nacional de Recupera\u00e7\u00e3o da Vegeta\u00e7\u00e3o Nativa, o governo brasileiro","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98749"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98749\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/98750"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}