{"id":97890,"date":"2018-12-24T13:50:57","date_gmt":"2018-12-24T16:50:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=97890"},"modified":"2018-12-24T13:51:40","modified_gmt":"2018-12-24T16:51:40","slug":"floresta-amazonica-vai-se-tornar-uma-commodity-com-a-construcao-de-megaempreendimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/floresta-amazonica-vai-se-tornar-uma-commodity-com-a-construcao-de-megaempreendimento\/","title":{"rendered":"Floresta Amaz\u00f4nica vai se tornar uma commodity com a constru\u00e7\u00e3o de megaempreendimento?"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-97891\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por Marcos Col\u00f3n (*)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 quase dois s\u00e9culos, os naturalistas e exploradores brit\u00e2nicos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.encyclopedia.com\/people\/literature-and-arts\/english-literature-20th-cent-present-biographies\/henry-walter-bates\">Henry Walter Bates<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.encyclopedia.com\/people\/science-and-technology\/biology-biographies\/alfred-russel-wallace\">Alfred Russel Wallace<\/a>\u00a0passaram cerca de tr\u00eas anos estudando animais e insetos na regi\u00e3o do Lago do Maic\u00e1, no munic\u00edpio de Santar\u00e9m, em plena Amaz\u00f4nia Legal. Apesar das dificuldades, a dupla celebrou o que chamaram de \u201cfloresta gloriosa\u201d. Estima-se que ao final da empreitada de tr\u00eas anos, eles tenham coletado mais de 14.000 esp\u00e9cies, que fizeram parte de um amplo estudo, que serviu de base para\u00a0<em>The Naturalist on the River Amazon<\/em>, considerado um cl\u00e1ssico de Bates.<\/p>\n<p>Assim, o que diriam os naturalistas da decis\u00e3o da C\u00e2mara de Vereadores de Santar\u00e9m que possibilita a transforma\u00e7\u00e3o de parte do lago em um porto privado para escoamento de soja?<\/p>\n<p>Hoje podemos apenas imaginar. Contudo, durante a \u00faltima sess\u00e3o da C\u00e2mara de Vereadores do munic\u00edpio de Santar\u00e9m, em 11 de dezembro, os representantes do legislativo alteraram, de forma secreta e apressada, a revis\u00e3o final do Plano Diretor Participativo (PDP), documento jur\u00eddico regido pelo Estatuto da Cidade e aprovado pela sociedade civil santarena de forma participativa em novembro de 2017. A decis\u00e3o rel\u00e2mpago visa facilitar a constru\u00e7\u00e3o de complexos portu\u00e1rios para o transporte do gr\u00e3o atrav\u00e9s do Lago do Maic\u00e1.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o invalida meses de discuss\u00f5es em grupos de trabalho e audi\u00eancias com representantes dos mais diferentes setores\u200a \u2014\u200a empresariais, acad\u00eamicos, entes p\u00fablicos e organiza\u00e7\u00f5es sociais. Viola a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ilo.org\/wcmsp5\/groups\/public\/@ed_norm\/@normes\/documents\/publication\/wcms_100907.pdf\">Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho<\/a>\u00a0(OIT). A reuni\u00e3o do plen\u00e1rio que alterou do Plano Diretor Participativo pegou popula\u00e7\u00f5es tradicionais, moradores e movimentos sociais em Santar\u00e9m e da Amaz\u00f4nia de surpresa.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o desse grande porto ser\u00e1 na regi\u00e3o do Lago do Maic\u00e1, \u00e1rea de elevada complexidade ambiental e lar de comunidades tradicionais, pescadores e cerca de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2016\/06\/20\/o-quilombo-que-parou-um-porto\/\">400 fam\u00edlias quilombolas<\/a>, totalizando aproximadamente 1.500 fam\u00edlias na regi\u00e3o. Maic\u00e1 \u00e9 um santu\u00e1rio ecol\u00f3gico, ber\u00e7\u00e1rio natural de esp\u00e9cies \u00fanicas da fauna aqu\u00e1tica e aves amaz\u00f4nicas. Al\u00e9m de ser um polo de visita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica, \u00e9 fonte de renda para as fam\u00edlias que vivem primariamente da pesca, respons\u00e1veis por\u00a0<a href=\"https:\/\/periodicos.unifap.br\/index.php\/biota\/article\/view\/3168\">30% do abastecimento de peixe da cidade<\/a>.<\/p>\n<p>Para a arque\u00f3loga Anne Rapp Py-Daniel da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (UFOPA), \u201co Lago do Maic\u00e1 \u00e9 um ecossistema extremamente rico, mas tamb\u00e9m muito fr\u00e1gil e com uma grande din\u00e2mica de forma\u00e7\u00e3o (terras ca\u00eddas, terras em forma\u00e7\u00e3o, aberturas de furos, etc.). A presen\u00e7a de grandes navios provocar\u00e1 importantes deslocamentos de \u00e1gua, alterando a din\u00e2mica das correntes fluviais, com risco de destrui\u00e7\u00e3o acelerada das v\u00e1rzeas mais baixas, onde moram muitas comunidades tradicionais. Acompanhamentos j\u00e1 foram realizados no rio Madeira, outra regi\u00e3o de v\u00e1rzea, mostrando o impacto das balsas e navios. \u00a0Al\u00e9m disso, a regi\u00e3o do Maic\u00e1 \u00e9 extremamente importante para a arqueologia, pois abriga o s\u00edtio arqueol\u00f3gico mais antigo conhecido do munic\u00edpio, o Sambaqui de Taperinha, de 8 mil anos. Tamb\u00e9m temos um grande n\u00famero de s\u00edtios mais recentes (que possuem entre 500 e 2 mil anos) que ainda est\u00e3o sendo mapeados, muitos deles identificados pelas manchas de Terra Preta. Na \u00e1rea mais alta ainda temos presen\u00e7a de comunidades ind\u00edgenas. A hist\u00f3ria dessa regi\u00e3o n\u00e3o para por a\u00ed, ocupa\u00e7\u00f5es quilombolas est\u00e3o presentes desde o s\u00e9culo XIX, com a adi\u00e7\u00e3o de nove territ\u00f3rios reconhecidos pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares na margem do Maic\u00e1\/Ituqui\u201d.<\/p>\n<p>Santar\u00e9m \u00e9 uma das cidades mais antigas do interior da Amaz\u00f4nia. Localizada diante do encontro das \u00e1guas dos rios Tapaj\u00f3s e Amazonas, foi fundada pelos padres jesu\u00edtas, em 1661, durante o processo de coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa na regi\u00e3o. Desde ent\u00e3o, Santar\u00e9m tem sido um polo estrat\u00e9gico, come\u00e7ando pela produ\u00e7\u00e3o do cacau, pecu\u00e1ria, extrativismo, borracha, juta e atualmente a monocultura da soja. Localizada a 475 milhas do Oceano Atl\u00e2ntico, sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica \u00e9 estrat\u00e9gica para o escoamento da produ\u00e7\u00e3o de soja, seja pela rodovia BR-163, pela hidrovia do Tapaj\u00f3s ou pelo Rio Amazonas chegando ao Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da zona portu\u00e1ria na regi\u00e3o do Lago do Maic\u00e1 faz parte da estrat\u00e9gia das empresas e produtores de soja da regi\u00e3o para o escoamento do gr\u00e3o oriundo do Mato Grosso pela regi\u00e3o Norte do pa\u00eds, precisamente atrav\u00e9s do eixo Tapaj\u00f3s-Teles Pires.<\/p>\n<p>Pedro Martins, da organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos Terra de Direitos, observa que \u201cos propriet\u00e1rios de soja come\u00e7am a aparecer num processo de usurpa\u00e7\u00e3o das terras dos camponeses. Esses propriet\u00e1rios, geralmente vindos de outros estados, iniciam cultivos extensos na regi\u00e3o do Planalto de Santar\u00e9m. A Embraps surge nesse contexto, a partir de propriet\u00e1rios de soja na regi\u00e3o do Mato Grosso que tem como interesse o escoamento da soja produzida em Santar\u00e9m, mas que tamb\u00e9m v\u00ea um potencial lucrativo enorme na constru\u00e7\u00e3o de portos\u201d, afirma Pedro Martins \u00e0 Terra de Direitos.<\/p>\n<p>Para o padre e ativista amaz\u00f4nico, Edilberto Sena, o processo tem in\u00edcio quando a Cargill, uma multinacional, empreendeu esfor\u00e7os na constru\u00e7\u00e3o de um terminal portu\u00e1rio em 1999.<\/p>\n<p>\u201cA companhia viu que Santar\u00e9m era um local estrat\u00e9gico para baratear a exporta\u00e7\u00e3o da soja do Centro-Oeste brasileiro. Pol\u00edticos locais e at\u00e9 parte da sociedade acreditaram que o porto da multinacional traria emprego, renda e desenvolvimento. Mas foi uma armadilha, com impactos negativos para a popula\u00e7\u00e3o. Os moradores dos bairros perif\u00e9ricos \u2013 P\u00e9rola do Maic\u00e1, \u00c1rea Verde, Jaderl\u00e2ndia, Juta\u00ed e mais cinco outros \u2013 precisar\u00e3o lidar com uma grande avenida. Com capacidade de tr\u00e1fego de 800 carretas por dia, pode-se imaginar os acidentes e outros problemas di\u00e1rios. Se essas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o se organizarem, se n\u00f3s n\u00e3o estivermos junto com elas na resist\u00eancia, a destrui\u00e7\u00e3o de nossa cidade vai se agravar, porque as autoridades n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para o respeito \u00e0s vidas humanas. Esse porto da Embraps na \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) do Lago do Maic\u00e1 pode ser \u00fatil para os empres\u00e1rios, mas trar\u00e1 graves preju\u00edzos para o ambiente e para os moradores de Santar\u00e9m, como j\u00e1 acontece com o porto da Cargill\u201d, sinaliza o ativista.<\/p>\n<p>Tr\u00eas empresas visam construir empreendimentos portu\u00e1rios no munic\u00edpio: o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cevital.com\/en\/\">Grupo Cevital<\/a>, da Arg\u00e9lia, a empresa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ceagro.com\/en\">CEAGRO<\/a>\u00a0e a Embraps. O caso da empresa\u00a0<a href=\"http:\/\/cnpj.info\/EMBRAPS-EMPRESA-BRASILEIRA-DE-PORTOS-DE-SANTAREM-LTDA-Av-Mendonca-Furtado-1680-Ponto-01-Santarem-PA-68040050\/NdKC\/\">Embraps<\/a>\u00a0\u00e9 significativo, pois seu licenciamento ambiental foi suspenso pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.semas.pa.gov.br\/2016\/02\/12\/e-adiada-audiencia-publica-sobre-terminal-portuario-em-santarem\/\">Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Par\u00e1<\/a>\u00a0ap\u00f3s a\u00e7\u00e3o judicial. A peti\u00e7\u00e3o partiu dos povos e comunidades tradicionais que vivem na regi\u00e3o do Lago do Maic\u00e1 junto ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual (MPE), que ajuizaram uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica contra as a\u00e7\u00f5es da Embraps. Na a\u00e7\u00e3o foi concedida liminar suspendendo o processo de licenciamento ambiental do Terminal de Uso Privado da Embraps at\u00e9 que fosse realizada a consulta pr\u00e9via, livre e informada \u00e0s comunidades quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais que ser\u00e3o atingidos pelo empreendimento. A empresa recorreu da decis\u00e3o no Tribunal Regional Federal da 1\u00aa Regi\u00e3o (TRF1) a liminar foi mantida e o licenciamento ambiental do porto permanece suspenso.<\/p>\n<p>A Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (UFOPA) produziu um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ufopa.edu.br\/media\/file\/site\/ufopa\/documentos\/2018\/16442e57019100334b689db1d21e93fb.pdf\">Relat\u00f3rio T\u00e9cnico<\/a>\u00a0a partir das fragilidades detectadas no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da Esta\u00e7\u00e3o de Transbordo do Lago do Maic\u00e1, apresentado pela Empresa Brasileira de Portos (Embraps).\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pa\/santarem-regiao\/noticia\/estudo-tecnico-da-ufopa-aponta-falhas-no-eia-do-projeto-de-construcao-de-porto-no-maica.ghtml\">Contrariando o estudo da Embraps<\/a>\u00a0a equipe multidisciplinar da UFOPA demonstra os danos ambientais, arqueol\u00f3gicos e humanos, que, se n\u00e3o forem sanados, colocar\u00e3o em risco as popula\u00e7\u00f5es de peixes e fitopl\u00e2nctons do Lago do Maic\u00e1, com danos irrevers\u00edveis \u00e0 vida dos humanos e n\u00e3o humanos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o professor do Instituto de Biodiversidade e Floresta (Ibef\/Ufopa), Jackson R\u00eago Matos, \u201cnossa grande preocupa\u00e7\u00e3o com a constru\u00e7\u00e3o do porto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com o Lago Maic\u00e1, mas com toda a cidade de Santar\u00e9m e regi\u00e3o do Rio Tapaj\u00f3s. Essas \u00e1reas, incluindo a praia de Alter do Ch\u00e3o, ter\u00e3o suas paisagens afetadas, tanto pela passagem de caminh\u00f5es circulando por toda a cidade quanto pelo tr\u00e1fego de comboios de balsas. Essa log\u00edstica, certamente, acarretar\u00e1 em mais polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, visual, sonora, al\u00e9m da perda do patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico, sendo Santar\u00e9m a cidade mais antiga pr\u00e9-colonial do Brasil, a qual abriga um dos mais expressivos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos das Am\u00e9ricas. Ressalta-se que a\u00a0<a href=\"http:\/\/amazonwaters.org\/basins\/great-sub-basins\/tapajos\/\">bacia do Tapaj\u00f3s<\/a>\u00a0\u00e9 a quinta maior bacia tribut\u00e1ria da Amaz\u00f4nia e abrange aproximadamente 492.000 km<sup>2<\/sup>, o que, por si s\u00f3, justificam pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam a manuten\u00e7\u00e3o desse patrim\u00f4nio para usufruto de suas popula\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o somente dar seguran\u00e7a jur\u00eddica aos empreendedores, como alega o prefeito, N\u00e9lio Aguiar, para justificar o desrespeito dos vereadores aos tr\u00e2mites constitucionais do plano diretor constru\u00eddo com a participa\u00e7\u00e3o popular\u201d explica R\u00eago Matos.<\/p>\n<p><strong><em>Vozes aut\u00f4nomas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Como bem aponta a reportagem do jornal\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2016\/06\/20\/o-quilombo-que-parou-um-porto\/\">Brasil de Fato<\/a><u>,<\/u>\u00a0o modo de vida das comunidades do Maic\u00e1 est\u00e1 em risco por um desejo alheio \u00e0s necessidades delas: a busca por um caminho mais curto para a soja brasileira sair do pa\u00eds. Com a constru\u00e7\u00e3o do porto, seria poss\u00edvel diminuir em cerca de 800 quil\u00f4metros o trajeto dos gr\u00e3os que saem do Mato Grosso por rodovias e, atualmente, necessitam passar pelo Porto de Santos. O Porto do Maic\u00e1, em Santar\u00e9m, encurtaria em sete dias o tempo que os navios levam para chegar \u00e0 Europa. No entanto, a voz das popula\u00e7\u00f5es locais precisa ser ouvida, de acordo com M\u00e1rio Pantoja, lideran\u00e7a quilombola santarena.<\/p>\n<p>\u201cOs grandes beneficiados com a constru\u00e7\u00e3o do porto s\u00e3o exatamente os grandes empres\u00e1rios. N\u00e3o estamos impedindo o progresso, estamos ajudando no desenvolvimento de forma sustent\u00e1vel. Por qu\u00ea? Porque a gente trabalha com a pesca. Constru\u00eddo o porto, isso aqui vai acabar\u201d alerta.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica ultrapassada de progresso vai na contram\u00e3o do que o mundo tem discutido, fato muito bem posicionado pelo ativista ambiental, Padre Guilherme Cardona, ao afirmar que \u201cesse modelo de desenvolvimento est\u00e1 criando cidades insustent\u00e1veis, e uma din\u00e2mica que se tem hoje em todo o mundo, \u00e9 a de como criar cidades sustent\u00e1veis para que a popula\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento possam caminhar juntos\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de serem defendidos como obras para desenvolvimento da regi\u00e3o, os projetos dos portos atingem nove bairros da cidade, habitados por comunidades tradicionais que se estabeleceram for\u00e7adamente na \u00e1rea urbana ap\u00f3s uma s\u00e9rie de deslocamentos devido \u00e0 aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas. A constru\u00e7\u00e3o do porto, al\u00e9m de n\u00e3o ser aceita, compromete a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia das pessoas.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yYBjKya9lFA\">Dona Sebastiana<\/a>, pescadora no Lago do Maic\u00e1, \u00e9 enf\u00e1tica: \u201cNingu\u00e9m concorda com isso [a cria\u00e7\u00e3o do porto]. Porque a gente precisa do Lago. Porque daqui mais uns tempos voc\u00ea n\u00e3o tem mais o peixe pra pegar, porque isso aqui vai ser aterrado e os peixes v\u00e3o sumir daqui\u201d. O mesmo questionamento faz o quilombola\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yYBjKya9lFA\">Jo\u00e3o Lira<\/a>. \u201cA pergunta \u00e9: por que um porto na \u00e1rea do Maic\u00e1? Pra quem vai trazer benef\u00edcios? Pro povo da regi\u00e3o? Eu creio em nenhum benef\u00edcio; benef\u00edcio zero\u201d.<\/p>\n<p>O padre Edilberto Sena acredita ser crucial pensar o futuro da Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica diante do quadro de amea\u00e7as ambientais,\u00a0sociais e culturais com que a regi\u00e3o se depara em face da press\u00e3o virulenta do capital externo.<\/p>\n<p>\u201cA disputa pelo territ\u00f3rio (terra, floresta, rios, subsolo e povos) est\u00e1 cada vez mais agressiva. Nossa regi\u00e3o, Oeste do Par\u00e1, \u00e9 um exemplo do que ocorre em toda a Amaz\u00f4nia. S\u00e3o 70 mil hectares de invas\u00e3o do plantio de soja com intenso uso de agrot\u00f3xicos; a invas\u00e3o de portos graneleiros para exporta\u00e7\u00e3o de soja do Mato Grosso. Existem 23 portos, constru\u00eddos e em constru\u00e7\u00e3o, no rio Tapaj\u00f3s; uma ferrovia de 930 kms de extens\u00e3o entre Cuiab\u00e1 e Miritituba; e sete hidroel\u00e9tricas previstas no rio Tapaj\u00f3s. Por fim a cidade de Santar\u00e9m, centro de toda essa explora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sendo ocupada por pr\u00e9dios de 20 andares que empurram os moradores do centro para periferias, inchando uma cidade que hoje tem 300 mil habitantes\u201d, afirma Sena.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando o poder econ\u00f4mico vai corromper os poderes executivo e legislativo para burlar leis internacionais em prol de uma insignificante parcela de acionistas que n\u00e3o respeita os biomas e povos amaz\u00f4nicos? At\u00e9 quando a Floresta amaz\u00f4nica ficar\u00e1 a merc\u00ea de vereadores, pol\u00edticos e empres\u00e1rios que formulam leis na calada da noite para prejudicar o social, agredindo comunidades, povos tradicionais e o meio ambiente, com a devasta\u00e7\u00e3o em prol da monocultura t\u00f3xica da soja, com a desculpa de equilibrar a balan\u00e7a comercial nacional?<\/p>\n<p>Certamente Bates e Wallace n\u00e3o aprovariam a decis\u00e3o tomada pela C\u00e2mara de vereadores de Santar\u00e9m, como bem disse Henry Bates depois de passar 11 anos documentando a beleza dos tr\u00f3picos: \u201cFui obrigado, por fim, a concluir que a contempla\u00e7\u00e3o da natureza n\u00e3o basta para o cora\u00e7\u00e3o e mente humanos\u201d. Ou como diria o escritor Brasileiro\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Euclides_da_Cunha\">Euclides da Cunha<\/a>, ao descrever a regi\u00e3o durante sua visita em 1905, \u201cA Amaz\u00f4nia \u00e9 a \u00faltima p\u00e1gina, ainda a escrever-se, do G\u00eanesis\u201d.<\/p>\n<p>Se depender dos vereadores santarenos, os \u00faltimos redutos da biodiversidade mundial ficar\u00e3o escritos nos registros dos livros de ci\u00eancias naturais de Bates e Wallace, incorporados nas prateleiras dos livros de hist\u00f3ria como um passado que n\u00e3o existe mais.<\/p>\n<p>(*) Marcos Col\u00f3n \u00e9 Professor Assistente (TA) no Departamento de Portugu\u00eas e Espanhol e membro do Center for Culture, History and Environment (CHE) do Nelson Institute for Environmental Studies, da Universidade de Wisconsin-Madison; \u00e9 tamb\u00e9m diretor e produtor do document\u00e1rio\u00a0<em>Beyond Fordl\u00e2ndia: An Environmental Account of Henry Ford\u2019s Adventure in the Amazon.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcos Col\u00f3n (*) H\u00e1 quase dois s\u00e9culos, os naturalistas e exploradores brit\u00e2nicos\u00a0Henry Walter Bates\u00a0e\u00a0Alfred<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":97891,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/empreendimento_amazonia.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Marcos Col\u00f3n (*) H\u00e1 quase dois s\u00e9culos, os naturalistas e exploradores brit\u00e2nicos\u00a0Henry Walter Bates\u00a0e\u00a0Alfred","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97890"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97890\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}