{"id":97397,"date":"2018-12-16T18:00:36","date_gmt":"2018-12-16T21:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=97397"},"modified":"2018-12-16T18:04:10","modified_gmt":"2018-12-16T21:04:10","slug":"leonardo-boff-amigo-do-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/leonardo-boff-amigo-do-bem\/","title":{"rendered":"Leonardo Boff: amigo do bem"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97402\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a>&#8220;<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0fez ao longo da vida quatro grandes balan\u00e7os: nos 50, 60, 70 e agora aos 80. Minha inten\u00e7\u00e3o aqui, neste breve texto, \u00e9 captar o que ocorreu nesta revis\u00e3o de vida que\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0foi fazendo em cada um desses passos&#8221;.<\/p>\n<p>O artigo \u00e9 de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/585334-estar-simplesmente-presente-merton-e-a-vida-contemplativa-entrevista-especial-com-faustino-teixeira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Faustino Teixeira<\/a>, professor e pesquisador do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais &#8211; PPCIR-UFJF. \u00c9 doutor e p\u00f3s-doutor em Teologia pela Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana, de Roma.\u00a0 \u00c9 autor de\u00a0<strong>Caminhos da m\u00edstica<\/strong>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2018),\u00a0<strong>Em que Creio Eu<\/strong>\u00a0 (S\u00e3o Paulo: Terceira Via, 2017),\u00a0<strong>Finitude e Mist\u00e9rio. M\u00edstica e Literatura Moderna<\/strong>(Rio de Janeiro: Mauad, 2014).\u00a0 Tamb\u00e9m organizou, entre outros,\u00a0<strong>Nas teias da delicadeza<\/strong>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2006),\u00a0<strong>As religi\u00f5es no Brasil: continuidades e rupturas<\/strong>\u00a0(Petr\u00f3polis: Vozes, 2006), este em parceria com\u00a0<strong>Renata Menezes<\/strong>, e\u00a0\u00a0<strong>As ora\u00e7\u00f5es da humanidade<\/strong>\u00a0(Petr\u00f3polis: Vozes, 2018), em parceria com\u00a0<strong>Volney Berkenbrock<\/strong>.<\/p>\n<p>O texto \u00e9 elaborado por ocasi\u00e3o da\u00a0celebra\u00e7\u00e3o dos 80 anos de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5924\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Boff<\/a>, em 14 de dezembro de 2018.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582815-modelo-de-carisma-de-leonardo-boff-oferece-roteiro-para-sair-do-clericalismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Boff<\/a>\u00a0\u00e9 doutor em teologia pela\u00a0<strong>Universidade de Munique<\/strong>, na Alemanha. Foi professor de teologia sistem\u00e1tica e ecum\u00eanica com os Franciscanos em\u00a0<strong>Petr\u00f3polis<\/strong>\u00a0e depois professor de \u00e9tica, filosofia da religi\u00e3o e de ecologia filos\u00f3fica na\u00a0<strong>Universidade do Estado do Rio de Janeiro<\/strong>. Refer\u00eancia no campo da Teologia, \u00e9 um dos fundadores da\u00a0<strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong>. Em 1985, foi condenado a um ano de sil\u00eancio obsequioso pelo ex-Santo Of\u00edcio, por suas teses no livro\u00a0<strong>Igreja: carisma e poder<\/strong>\u00a0(Record). A partir da d\u00e9cada de 1980, dedicou-se \u00e0 quest\u00e3o ecol\u00f3gica como prolongamento da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Foi membro da\u00a0<strong>Ordem dos Frades Menores<\/strong>\u00a0(franciscanos) at\u00e9 1992, quando pediu seu desligamento da congrega\u00e7\u00e3o e do sacerd\u00f3cio, dedicando-se exclusivamente aos estudos teol\u00f3gicos. Agora em 2018, quando celebra seus 80 anos de vida, est\u00e1 lan\u00e7ando\u00a0<strong>Reflex\u00f5es de um velho te\u00f3logo e pensador<\/strong>\u00a0(Petr\u00f3polis: Vozes, 2018).<\/p>\n<p>Entre os in\u00fameros livros publicados, destacamos:\u00a0<strong>Reflex\u00f5es de um velho te\u00f3logo e pensador<\/strong>\u00a0(Petr\u00f3polis: Vozes, 2018),\u00a0<strong>Ecologia, Mundializa\u00e7\u00e3o, Espiritualidade<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Record, 1993),\u00a0<strong>Civiliza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Sextante, 1994),\u00a0<strong>A voz do arco-\u00edris<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Sextante, 2000),\u00a0<strong>Saber cuidar<\/strong>\u00a0(Ed. 20. Petr\u00f3polis: Vozes, 2014),\u00a0<strong>\u00c9tica e ecoespiritualidade<\/strong>\u00a0(Petr\u00f3polis: Vozes, 2011),<strong>\u00a0Homem: sat\u00e3 ou anjo bom<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Record, 2008),<strong>\u00a0Evangelho do Cristo c\u00f3smico<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Record, 2008),\u00a0<strong>Do iceberg \u00e0 Arca de No\u00e9<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Sextante, 2002),\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Terra. A solu\u00e7\u00e3o da Terra n\u00e3o cai do c\u00e9u<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Sextante, 2009),\u00a0<strong>Proteger a Terra-cuidar a vida. Como evitar o fim do mundo<\/strong>\u00a0(Rio de Janeiro: Record, 2010),\u00a0<strong>Ecologia: grito da Terra, grito do pobre<\/strong>\u00a0(Petr\u00f3polis: Vozes, 1995).<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97403\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff1.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff1.jpg 640w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boff1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><img src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Leonardo Boff\u00a0(Foto: Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n<\/div>\n<h3>Eis o artigo.<\/h3>\n<p>\u00c9 t\u00e3o bonito poder celebrar a vida com alegria e esperan\u00e7a. Esse \u00e9 o caso do amigo querido,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/577424-ressurreicao-e-uma-revolucao-na-evolucao-entrevista-especial-com-leonardo-boff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Boff<\/a>, que neste dia 14 de dezembro de 2018 completa<strong>\u00a080 anos<\/strong>. Longe daquele esp\u00edrito sombrio do livro do\u00a0<strong>Eclesiastes<\/strong>, no in\u00edcio do cap\u00edtulo 12,\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0continua lembrando com vigor do Criador que sempre o inspirou e o animou nas veredas da vida. No seu caso, a luz do sol n\u00e3o se obscureceu, mas ganhou um significado novo, de uma proximidade que encanta a todos que o rodeiam.<\/p>\n<p><strong>Leonardo<\/strong>\u00a0fez ao longo da vida quatro grandes balan\u00e7os: nos 50, 60, 70 e agora aos 80. Minha inten\u00e7\u00e3o aqui, neste breve texto, \u00e9 captar o que ocorreu nesta revis\u00e3o de vida que Leonardo foi fazendo em cada um desses passos. Os tr\u00eas primeiros balan\u00e7os resultaram em textos ou artigos que foram publicados [1]. O \u00faltimo, rec\u00e9m ocorrido, resultou num livro de beleza novidadeira [2].<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O primeiro sentimento \u00e9 de perplexidade. Eu ainda existo e continuo no minist\u00e9rio! &#8211; Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>No balan\u00e7o dos 50,\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0inicia falando do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/575043\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mist\u00e9rio<\/a>\u00a0que faz viver. Ali\u00e1s, esse \u00e9 um tema que vai acompanhar esse m\u00edstico franciscano por toda a sua vida. Dizia na ocasi\u00e3o que \u201co primeiro sentimento \u00e9 de perplexidade. Eu ainda existo e continuo no minist\u00e9rio! Quantos em nossa idade j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o e quantos seguir\u00e3o outros caminhos! Por que estou ainda a\u00ed? Isso n\u00e3o se deixa explicar por nada neste mundo\u201d (B50:11).\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0n\u00e3o imaginava que fosse ultrapassar o tempo de vida de seu pai, que morreu aos 54 anos, justamente no dia em que ele estava de partida para\u00a0<strong>Munique<\/strong>, de navio, onde iria fazer seu doutorado em teologia [3]. E Leonardo tinha nascido fragilizado, \u201cmarcado para morrer\u201d, como expressou sua irm\u00e3,\u00a0<strong>\u00cdris Boff<\/strong>, em recente depoimento [4]. Aquele \u201cpacotinho de carne\u201d sobreviveu, gra\u00e7as tamb\u00e9m aos conselhos de uma famosa benzedeira da redondeza e de suas ervas curativas, bem como ao forno de barro em que foi colocado algumas vezes para fazer vibrar a for\u00e7a da vida. Foi, assim, uma \u201cbruxaria\u201d que o salvou [5]. E assim vingou esse menino-te\u00f3logo. Ainda como diz sua irm\u00e3, foi essa sua inicia\u00e7\u00e3o que o preparou para \u201ctoda a sorte de intemp\u00e9ries e perigos\u201d para adentrar-se \u201cna densa floresta da consci\u00eancia humana e planet\u00e1ria\u201d [6].<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O\u00a0mist\u00e9rio consiste num des\u00edgnio cujo \u00faltimo sentido nos escapa, mas que passa por n\u00f3s, nos usa como um subsistema de algo maior para prosseguir sua trajet\u00f3ria que termina no cora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus &#8211; Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Voltando ao balan\u00e7o dos 50,\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0escreveu na \u00e9poca que a percep\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Mist\u00e9rio<\/strong>\u00a0foi crescendo em sua vida: \u201cMist\u00e9rio \u00e9 muito mais que um enigma. Como os antigos sabiam melhor que n\u00f3s, mist\u00e9rio consiste num des\u00edgnio cujo \u00faltimo sentido nos escapa, mas que passa por n\u00f3s, nos usa como um subsistema de algo maior para prosseguir sua trajet\u00f3ria que termina no cora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus\u201d (B50:11). Como lembra\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>, \u00e9 esse Mist\u00e9rio \u201cque faz viver\u201d. Recordou que teve que amadurecer no sofrimento, a acreditar \u201cque n\u00e3o s\u00e3o ideias que mudam o mundo, mas atitudes\u201d e que a mais \u201cpenosa\u201d viagem \u00e9 aquela que fazemos \u201cpara dentro de n\u00f3s mesmos, rumo ao nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o\u201d (B50:11). Relata que sua perplexidade aumenta quando relembra de sua trajet\u00f3ria, desde a inf\u00e2ncia: \u201cAquele menino de p\u00e9s descal\u00e7os, maldizendo os dias gelados de junho-julho, montado num velho cavalo para ir ao moinho, levando trigo e trazendo farinha para o p\u00e3o de mam\u00e3e, feito no forno de pedras r\u00fasticas\u201d (B50:12). Esse menino, tido como um dos mais inteligentes dos irm\u00e3os, foi galgando etapas bonitas na sua forma\u00e7\u00e3o, que culminou num doutorado na\u00a0<strong>Alemanha<\/strong>. Ele diz:<\/p>\n<p><em>\u201cH\u00e1 alguma raz\u00e3o transcendental que explique por que esse menino mag\u00e9rrimo, que fora dado como perdido e morto aos seis meses, tenha que ir a Roma, enfrentar o ex-Santo Of\u00edcio, sentir-se em profunda comunh\u00e3o de destino com Galileu, Giordano Bruno e outros infinitamente mais s\u00e1bios e defender a teologia da liberta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aplic\u00e1vel \u00e0 Igreja, para que tenha mais pr\u00e1ticas que pr\u00e9digas sobre a eminente centralidade dos pobres no projeto de Jesus\u201d (B50:12).<\/em><\/p>\n<p>E assim, seguiu a vida de\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>, e como diz<strong>\u00a0Carlos Drummond<\/strong>, foi ser \u201cgauche na vida\u201d. E ele agradece a todos que favoreceram essa trajet\u00f3ria benfazeja, mas sobretudo a Deus, o\u00a0<strong>Mist\u00e9rio Maior<\/strong>, sem nome, cujos \u201cdes\u00edgnios s\u00e3o insond\u00e1veis, al\u00e9m de surpreendentes\u201d. E ao fazer o balan\u00e7o de sua vida, agradece, e n\u00e3o tem dificuldade de faz\u00ea-lo, pois tem a viva consci\u00eancia de que o que conta mesmo na vida \u00e9 viver \u201ca partir dos outros\u201d. Recorda que durante sua condena\u00e7\u00e3o, em raz\u00e3o da causa dos oprimidos, recebeu muito apoio e solidariedade: \u201cmilhares de cartas e gestos de solidariedade do mundo inteiro\u201d (B50:13). E segue tranquilo em sua consci\u00eancia de ser, como falou um dia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573249-neruda-pinochet-e-os-rumores-de-um-homicidio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pablo Neruda<\/a>, \u201co portador da esperan\u00e7a dos oprimidos\u201d.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Em sua mem\u00f3ria, Boff recorda aqueles que tiveram import\u00e2ncia em sua forma\u00e7\u00e3o, como no caso do te\u00f3logo Karl Rahner &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em sua mem\u00f3ria,\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0recorda aqueles que tiveram import\u00e2ncia em sua forma\u00e7\u00e3o, como no caso do te\u00f3logo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/446\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Karl Rahner<\/a>, que apontou-lhe \u201cum cristianismo para al\u00e9m de todas as fronteiras confessionais, aderente ao mist\u00e9rio do mundo e da pessoa\u201d. Fizeram-se depois amigos e ele, inclusive, tomou sua defesa no momento necess\u00e1rio (B50:13). Sobre ele, recorda.<\/p>\n<p><em>\u201cCerta vez, j\u00e1 velhinho com 79 anos, sabendo que estava em Munique, tomou o trem em Innsbruck, onde vivia, e veio ver-me para discutir com toda a seriedade e esp\u00edrito cr\u00edtico o que significa uma teologia da liberta\u00e7\u00e3o, o que vem a ser um cristianismo popular e uma Igreja na base. Deu-me todo apoio e seguia minhas produ\u00e7\u00f5es como se fora um filho e afilhado muito querido e tamb\u00e9m preocupante\u201d (B50:13).<\/em><\/p>\n<p>Lembra\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0de outros mestres que encontrou pelo caminho, como\u00a0<strong>Otto Kuss<\/strong>, na \u00e1rea de exegese do Novo Testamento, nos tempos de\u00a0<strong>Munique<\/strong>\u00a0(1965-1970) e dos amigos da revista internacional de teologia,\u00a0<strong>Concilium<\/strong>, onde atuou por muitos anos. Fala tamb\u00e9m de seu irm\u00e3o,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/527555-clodovis-boff-celebra-70-anos-uma-singela-e-sincera-homenagem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Clodovis Boff<\/a>, tamb\u00e9m te\u00f3logo, que \u201cfoi mestre na articula\u00e7\u00e3o entre discurso da f\u00e9 e discurso do mundo, entre compreens\u00e3o s\u00e9ria e compromisso pol\u00edtico com os oprimidos\u201d (B50:14). Agradece ainda as comunidades populares, que assessorou ao longo de d\u00e9cadas de trabalho teol\u00f3gico-pastoral. Reconhece o grande aprendizado que ali recebeu: \u201cEstou seguro de que s\u00e3o eles que levam, de verdade, o sonho de Jesus com radicalidade e coer\u00eancia pelos s\u00e9culos afora\u201d (B50:14). E por causa deles, reitera\u00a0<strong>Boff<\/strong>, encontra as raz\u00f5es essenciais para se manter firme no caminho de fidelidade ao projeto de Jesus.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Boff tem uma\u00a0teologia que sempre brotou do cora\u00e7\u00e3o, tocada pela emo\u00e7\u00e3o, &#8216;uma paix\u00e3o acesa&#8217; que desperta a paix\u00e3o dos outros &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Na \u00e9poca em que fez o balan\u00e7o dos 50, final da d\u00e9cada de 1980, estava ainda vinculado como frade aos\u00a0<strong>franciscanos<\/strong>, dedicado ao ensino da teologia e\u00a0\u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Como ele gosta sempre de lembrar, ensinou todos os tratados de<strong>\u00a0teologia sistem\u00e1tica<\/strong>, e aproveitou para escrever sobre eles, bem no estilo alem\u00e3o. Tinha assumido a c\u00e1tedra de teologia sistem\u00e1tica no\u00a0<strong>Instituto Franciscano<\/strong>\u00a0desde 1970: \u201cObriguei-me a reciclagens, acompanhando a produ\u00e7\u00e3o mundial em cada \u00e1rea do pensamento sistem\u00e1tico\u201d (B50:15), e sempre numa perspectiva interdisciplinar, tendo em conta as demandas do tempo. Indica que passou \u201cpor v\u00e1rias crises criativas\u201d, n\u00e3o vendo nisto um problema, pois \u201ctoda crise significa uma chance de acrisolamento e de crescimento, apesar de seu car\u00e1ter doloroso\u201d (B50:18). Ao lado do ensino, o trabalho de assessoria pastoral. Sublinha que \u201cfoi o campo mais dif\u00edcil e de maior aprendizado\u201d, sobretudo depois de seu regresso ao Brasil, em fevereiro de 1970. Percorreu os rinc\u00f5es mais distantes do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0e da\u00a0<strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>, bem como outros pa\u00edses da\u00a0<strong>Europa<\/strong>,\u00a0<strong>Canad\u00e1<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Estados Unidos<\/strong>. Tinha uma paix\u00e3o particular pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/211\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0(B50:20). Viajou tamb\u00e9m para os pa\u00edses socialistas, como\u00a0<strong>Cuba<\/strong>,\u00a0<strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>China<\/strong>. Lembrava a respeito: \u201cConsidero muito mais dif\u00edcil dar uma assessoria a qualquer diocese com trabalho pastoral popular do que falar em qualquer prestigiosa c\u00e1tedra de universidades europeias ou norte-americanas\u201d (B50:15).<\/p>\n<p>Outro motivo de alegria foi sua conviv\u00eancia com \u201cbispos verdadeiramente pastores\u201d da<strong>\u00a0igreja latino-americana<\/strong>, que resgataram \u201ca velha tradi\u00e7\u00e3o que via nos bispos os \u00b4<em>deffensores et advocati populi<\/em>`\u201d (B50:16), em viva conson\u00e2ncia com o projeto de Jesus. Menciona ainda o seu trabalho por anos no editorial religioso da\u00a0<strong>Editora Vozes<\/strong>\u00a0e na reda\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira<\/strong>\u00a0(<strong>REB<\/strong>). Anos que foram prof\u00edcuos, com a abertura de espa\u00e7o para grandes nomes da sociologia, hist\u00f3ria, antropologia e lingu\u00edstica. Um lindo servi\u00e7o prestado pela Vozes \u201c\u00e0 cultura brasileira e \u00e0 liberdade de pensamento\u201d. Foi quando ent\u00e3o aconteceu a repress\u00e3o romana e todas as suas consequ\u00eancias para os desdobramentos de sua atua\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Voltando \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, ele lembra que seus diversos livros foram produzidos n\u00e3o para convencer os outros, mas para \u201ctirar a limpo\u201d suas \u201cindaga\u00e7\u00f5es de crist\u00e3o pensante\u201d (B50:16). Uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/514443-teologia-da-libertacao-e-a-preocupacao-ecologica-leonardo-boff-e-o-chamado-a-mae-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">teologia<\/a>\u00a0que sempre brotou do cora\u00e7\u00e3o, tocada pela emo\u00e7\u00e3o, \u201cuma paix\u00e3o acesa\u201d que desperta a paix\u00e3o dos outros. \u00c9 o que sempre ou\u00e7o falar de Leonardo, um te\u00f3logo doce e apaixonado, com voz sedutora e um brilho \u00fanico no olhar. Um livro em particular provocou a admira\u00e7\u00e3o de muitos, sempre citado:\u00a0<strong>Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos<\/strong>\u00a0(1975), que j\u00e1 est\u00e1 na 29\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Em depoimento sobre este livro, diz a te\u00f3loga e amiga,\u00a0<strong>Teresa Cavalcanti<\/strong>: \u201cAli, uma simples caneca de uso caseiro ou um toco de cigarro tornaram-se s\u00edmbolos da comunidade familiar e da figura do pai. O afeto se acha involucrado nos objetos do cotidiano e remete \u00e0 rela\u00e7\u00e3o mais \u00edntima com as pessoas\u201d [7]. Ao falar sobre este livro,\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0diz que ali, sim, conseguiu entender de fato a \u201csignifica\u00e7\u00e3o dos sacramentos\u201d (B50:17).<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Ali, uma simples caneca de uso caseiro ou um toco de cigarro tornaram-se s\u00edmbolos da comunidade familiar e da figura do pai. O afeto se acha involucrado nos objetos do cotidiano e remete \u00e0 rela\u00e7\u00e3o mais \u00edntima com as pessoas &#8211; Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>E assim continuou sua jornada, sempre mirando ao alto, com coragem e altivez, mantendo sempre acesa a humildade para n\u00e3o se esquecer de suas ra\u00edzes simples e evang\u00e9licas. Diz ele: \u201cMe transformei num te\u00f3logo discutido e contestado, num te\u00f3logo suspeito e perseguido, num te\u00f3logo amaldi\u00e7oado e condenado, num te\u00f3logo absolvido e mesmo depois, sob permanente controle\u201d (B50:17). E tudo isto n\u00e3o lhe roubou a ternura, a delicadeza, o cuidado e a\u00a0<strong>hospitalidade<\/strong>. N\u00e3o guardou nenhuma m\u00e1goa ou hostilidade, o que \u00e9 muito bom. Essa ternura e vigor o acompanham at\u00e9 hoje. E foi tamb\u00e9m ganhando liberdade, talvez uma das palavras mais nobres que expressam hoje o seu modo de ser: algu\u00e9m livre e despojado. Dizia: \u201cUm te\u00f3logo condenado goza de inestim\u00e1vel liberdade. Ele n\u00e3o tem, com efeito, nada a perder\u201d (B50:17). Na sua bagagem, a frase genial de\u00a0<strong>Antonio Machado<\/strong>: \u201c<em>Caminante, no hay caminho, se hace caminho al andar<\/em>\u201d. A liberdade para\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>\u00a0\u00e9 tudo o que de mais importante pode acolher no mundo interior, pois \u201cser livre \u00e9 conquistar seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o\u201d (B50:17).<\/p>\n<p>Em seu balan\u00e7o aos 50, busca voltar os olhos ao passado e reconhece que \u201ca pessoa n\u00e3o muda porque quer. Muda como forma de adequa\u00e7\u00e3o a novas situa\u00e7\u00f5es e como condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia espiritual\u201d (B50:18). \u00c9 como\u00a0<strong>Boff<\/strong>v\u00ea a sua caminhada, um alargar permanente dos horizontes da liberdade. Reconhece que na sua caminhada, grandes mestres do saber o acompanharam, aqueles seminais como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/294\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Plat\u00e3o<\/a>,\u00a0<strong>Arist\u00f3teles<\/strong>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/585502-breve-comentario-sobre-as-sete-peticoes-ou-pedidos-do-pai-nosso-de-sant-agostino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Agostinho<\/a>\u00a0e\u00a0<strong>Bo\u00e9cio<\/strong>, e tamb\u00e9m os grandes mestres medievais e modernos. Reconhece que o contato com esses mestres fizeram sempre \u201cum bem imenso\u201d, servindo tamb\u00e9m de \u201cterapia contra todas as mediocridades\u201d que abundam nos campos do saber (B50:18). Fala tamb\u00e9m da import\u00e2ncia de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/185\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Heidegger<\/a>\u00a0em sua forma\u00e7\u00e3o, que o ajudou a refazer todo o seu caminho da teologia, com base na\u00a0<strong>fenomenologia existencial<\/strong>, depois enriquecida com o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/525\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">marxismo<\/a>. Sua tese doutoral, sobre a igreja como sacramento, foi publicada em alem\u00e3o em 1972, e parte dela saiu tamb\u00e9m em portugu\u00eas, na revista\u00a0<strong>Numen<\/strong>\u00a0do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o (<strong>PPCIR<\/strong>) da\u00a0<strong>UFJF<\/strong>, onde\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0atuou por um tempo como professor visitante, quando eu era o coordenador do Programa [8].<\/p>\n<p>No per\u00edodo em que fez o balan\u00e7o dos anos\u00a0<strong>50<\/strong>,\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0estava ent\u00e3o dedicado a \u201cdesenhar as dimens\u00f5es libertadoras intr\u00ednsecas \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, \u00e0 experi\u00eancia de Deus, \u00e0 doutrina sobre Cristo, sobre o Esp\u00edrito, sobre a Igreja, sobre a imagem b\u00edblica e crist\u00e3 do ser humano, a escatologia\u201d (B50:20). Da\u00ed nasceram muitos artigos e livros, publicados na ocasi\u00e3o. Fala ainda da import\u00e2ncia que teve, na ocasi\u00e3o, o seu encontro com o\u00a0<strong>marxismo<\/strong>: \u201cO encontro com\u00a0<strong>Marx<\/strong>\u00a0\u00e9 fundamental para quem fizer uma<strong>\u00a0op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/strong>\u00a0e contra sua pobreza\u201d (B50:21). Fala tamb\u00e9m de seu trabalho na recupera\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>heran\u00e7a franciscana<\/strong>, que o acompanha com emo\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. O franciscanismo, diz, \u201c\u00e9 naturalmente libertador porque coloca os pobres como a centralidade do carisma e como reveladores de Cristo pobre e servo sofredor\u201d (B50:22). Reconhece que a partir da d\u00e9cada de 1980 apercebeu-se que \u201co verdadeiro problema teol\u00f3gico, na verdade, n\u00e3o \u00e9 a Igreja, mas o povo e a humanidade\u201d. Em linha semelhante \u00e0 do te\u00f3logo dominicano\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/570375-%20edward-schillebeeckx-um-teologo-para-hoje\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Edward Schillebeeckx<\/a>, percebe que a humanidade \u00e9 a verdadeira hist\u00f3ria de Deus. Passa ent\u00e3o a ver com clareza que \u201co presbiterato, a vida religiosa e a teologia s\u00f3 possuem sentido radical se nos aproximarem mais diretamente dos demais humanos, companheiros e companheiras de caminhada\u201d (B50:24).<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><\/div>\n<p>Ao final de seu balan\u00e7o dos 50, assinala a presen\u00e7a de um tema que come\u00e7ava a tocar o seu cora\u00e7\u00e3o, sobretudo em raz\u00e3o da grande\u00a0<strong>crise ecol\u00f3gica mundial<\/strong>, ou seja, a quest\u00e3o do\u00a0<strong>mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o<\/strong>. A percep\u00e7\u00e3o de que \u201co verdadeiro mist\u00e9rio, este realmente radical, \u00e9 o mist\u00e9rio do mundo\u201d. Estava aberta a chave que iria fecundar o terreno vindouro de sua nova reflex\u00e3o teol\u00f3gica: seu cuidado com a quest\u00e3o da\u00a0<strong>preserva\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o<\/strong>. N\u00e3o podia, por\u00e9m, deixar de apontar outro tema que foi ganhando corpo em sua reflex\u00e3o, j\u00e1 naquele tempo: o encontro com o feminino. Reconhece que se trata de uma dimens\u00e3o fundamental, pois \u00e9 atrav\u00e9s dela que podemos redesenhar \u201cum novo rosto de Deus\u201d (B50:25). Ele mesmo faz na ocasi\u00e3o uma retrospectiva de sua trajet\u00f3ria nos 25 \u00faltimos anos:<\/p>\n<p><em>\u201cPrimeiro vem o entusiasmo pela ordem franciscana, depois pelo sacerd\u00f3cio, em seguida pela teologia; da teologia passei \u00e0 Igreja, da Igreja ao povo; do povo aos pobres, dos pobres \u00e0 humanidade; da humanidade ao mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o. Na medida em que o leque ia se abrindo e o horizonte se dilatando, ia tamb\u00e9m crescendo em mim as dimens\u00f5es de universalidade e de aut\u00eantica liberdade\u201d (B50:25).<\/em><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Avaliando sua caminhada,\u00a0Boff\u00a0se d\u00e1 conta de dois eixos essenciais que devem alimentar toda caminhada existencial: o amor a Deus e aos outros &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Avaliando sua caminhada,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/561757-a-morte-como-conclusao-do-nascimento-entrevista-especial-com-leonardo-boff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Boff<\/a>\u00a0se d\u00e1 conta de dois eixos essenciais que devem alimentar toda caminhada existencial: o amor a Deus e aos outros. Ele diz: \u201cO amor que vai a Deus constitui o mesmo movimento que vai ao outro. Com fina raz\u00e3o disse Jesus que o amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo coincidem\u201d (B50:26). O que faz lembrar um beato e m\u00e1rtir, terci\u00e1rio franciscano,\u00a0<strong>Raimundo L\u00falio<\/strong>. Em seu\u00a0<strong>Livro do amigo e do Amado<\/strong>, escrito no s\u00e9culo XIII, bem ao estilo dos m\u00edsticos sufis, dizia em duas passagens:<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c0 direita do amor reside o Amado, e \u00e0 esquerda o amigo; por isso, sem passar pelo amor, n\u00e3o se pode alcan\u00e7ar o Amado. \/ O Amado est\u00e1 de permeio entre o amigo e o amor; por isto o amigo n\u00e3o pode atingir o amor sem atravessar, com pensamentos e desejos, o Amado\u201d [9].<\/em><\/p>\n<p>Ao final de sua retrospectiva dos 50,\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0chama a aten\u00e7\u00e3o para um dado essencial, que foi descobrindo em seu itiner\u00e1rio: \u201cA vida humana \u00e9 parecida com uma \u00e1rvore. Quanto mais sobe a copa mais fundas devem ser as ra\u00edzes. Quanto mais avan\u00e7amos na vida, tanto mais retrocedemos \u00e0s nossas matrizes iniciais\u201d (B50:28). Na base, a presen\u00e7a desse\u00a0<strong>Mist\u00e9rio<\/strong>\u00a0maior que nos ilumina e aponta os caminhos, do Deus que nos d\u00e1 \u201co dom da f\u00e9\u201d. Estava aberta a vereda da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582642-a-mistica-nos-leva-a-escutar-o-grito-da-terra-e-o-clamor-desolador-de-milhoes-de-pessoas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">m\u00edstica<\/a>, que vai se firmar cada vez com mais vigor e ternura na vida desse pensador.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vem o balan\u00e7o dos 60, dez anos depois, quando lecionava no\u00a0<strong>PPCIR<\/strong>\u00a0da\u00a0<strong>UFJF<\/strong>, como visitante. Come\u00e7a sua revis\u00e3o de vida, agradecendo a Deus pela exist\u00eancia (B60:141), e dizendo \u2013 como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/585334-estar-simplesmente-presente-merton-e-a-vida-contemplativa-entrevista-especial-com-faustino-teixeira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Merton<\/a>\u00a0\u2013 que n\u00e3o sabe o que Deus prop\u00f5e no seu caminho e quais as raz\u00f5es peculiares de seu chamado: \u201cNunca me propus um projeto espec\u00edfico. Vivo ao sabor do que me ocorre. Atendo a demandas que me s\u00e3o propostas\u201d (B60:141). Uma beleza, essa gratuidade que acompanha o ritmo de seus momentos, de sua trajet\u00f3ria e empenho. Esse \u00e9 o Leonardo que conhecemos e que amamos. Fala de seu \u201c<strong>ciganismo teol\u00f3gico<\/strong>\u201d, das in\u00fameras viagens, realizadas por todo canto, atendendo a pedidos de amigos, de igrejas e pastores. Um ciganismo que se revela igualmente \u201cpr\u00e1tico\u201d, que o faz mergulhar de vida aberta nas mais distintas veredas, nos incont\u00e1veis espa\u00e7os, seja no mundo dos pobres ou nas academias e espa\u00e7os culturais.<\/p>\n<p>Reconhece agora que o tempo escapa, que \u00e9\u00a0<em>tempus fugit<\/em>, ou como diz\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/43-espiritualidade\/oracoes-inter-religiosas-ilustradas\/582972-rainer-maria-rilke-na-oracao-inter-religiosa-desta-semana-21-09-2018\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rilke<\/a>, que ele \u201cflutua e desaparece\u201d. Recorda que j\u00e1 em Munique, em seus estudos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, estava mergulhado neste\u00a0<em>milieu divin<\/em>, no\u00a0<strong>Mist\u00e9rio de Deus<\/strong>. Um tra\u00e7o que o acompanha desde longe: \u201cMergulhar no mist\u00e9rio de Deus\u201d. E acrescenta:<\/p>\n<p><em>\u201cExperimentei uma felicidade incompar\u00e1vel, nunca superada por nada no mundo. O efeito mais imediato \u00e9 a absoluta liberdade interior e a aus\u00eancia de todo medo. O amor-encontro-com-Deus te enche de tal superabund\u00e2ncia de sentido e de certeza que a vida se torna um brinquedo diante dos olhos do Deus-M\u00e3e. Tudo possui asas e por isso \u00e9 leve. O universo \u00e9 jovial. N\u00e3o andamos. Voamos (B60:144).<\/em><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O seu exerc\u00edcio teol\u00f3gico n\u00e3o foi realizado por obriga\u00e7\u00e3o, mas por prazer, no ritmo da alegria &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O seu exerc\u00edcio teol\u00f3gico n\u00e3o foi realizado por obriga\u00e7\u00e3o, mas por prazer, no ritmo da alegria. E procurou sempre uma\u00a0<strong>teologia diversa<\/strong>, capaz de evocar a beleza, com fluidez lingu\u00edstica e inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, pontuada por um m\u00e9todo que pudesse garantir sobretudo a\u00a0<strong>liberdade<\/strong>, esse bem maior que pautou sua vida e caminhada (B60: 145). Uma teologia de cara distinta, aberta \u00e0 cria\u00e7\u00e3o permanente, mesmo nos momentos mais duros no embate com o\u00a0<strong>Vaticano<\/strong>. Da\u00ed o seu carinho particular com os\u00a0<strong>m\u00edsticos<\/strong>, sobretudo daqueles que trazem no peito o dom da poesia (B60:146). Os que a ele est\u00e3o mais pr\u00f3ximos, sabem dessa paix\u00e3o antiga pelos m\u00edsticos das\u00a0<strong>diversas tradi\u00e7\u00f5es religiosas<\/strong>, a come\u00e7ar pela\u00a0<strong>m\u00edstica franciscana<\/strong>, peculiar na sua capacidade de amor universal, que \u201cabra\u00e7a o mundo, acarinha as pessoas e se enternece com todas as criaturas\u201d (B60:146).<\/p>\n<p>Assinala seu carinho especial em tratar os<strong>\u00a0temas da Igreja<\/strong>, sempre com o toque cr\u00edtico, pois nunca esteve em plena sintonia com ela. A irac\u00fandia sagrada foi sua parceira nessas contendas. Retoma o epis\u00f3dio do conflito com o\u00a0<strong>Vaticano<\/strong>, onde assentou-se na cadeira de\u00a0<strong>Galileu<\/strong>\u00a0[10], do convite ao sil\u00eancio obsequioso feito pelo\u00a0<strong>Ministro Geral da Ordem Franciscana<\/strong>\u00a0durante a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/172-noticias\/noticias-2012\/510430-da-eco-92-a-rio20-duas-decadas-de-debate-ambiental\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eco-92<\/a>. Foi quando ent\u00e3o resolveu \u201cmudar de trincheira\u201d, mas n\u00e3o de batalha. Uma decis\u00e3o de dedicar-se de corpo e alma ao \u201ctempo da profanidade e da fragmenta\u00e7\u00e3o\u201d (B60:152). Assume com alegria a sua caminhada com a companheira\u00a0<strong>M\u00e1rcia<\/strong>, que \u201ccomungava e comunga do mesmo amor\u201d (B60:152). O grande te\u00f3logo belga,\u00a0<strong>Adolphe Gesch\u00e9<\/strong>, lembra num de seus livros, que o cristianismo precisa dessa\u00a0<em>pars paganorum<\/em>, dessa interface com a paganidade, de certa \u201caus\u00eancia crist\u00e3\u201d ou \u201cpitada de ate\u00edsmo\u201d para poder penetrar com mais densidade no seu\u00a0<strong>Mist\u00e9rio<\/strong>\u00a0[11].<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O tema da\u00a0ecologia\u00a0vai ganhando cada vez mais import\u00e2ncia na sua\u00a0teologia, atenta ao ritmo fren\u00e9tico da globaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando ocorre, de forma imperativa, sua preocupa\u00e7\u00e3o maior com o\u00a0futuro da Terra, o seu destino que se assomava sombrio &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O tema da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/554538-ecologia-grito-da-terra-grito-dos-pobres-uma-resenha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ecologia<\/a>\u00a0vai ganhando cada vez mais import\u00e2ncia na sua\u00a0<strong>teologia<\/strong>, atenta ao ritmo fren\u00e9tico da globaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando ocorre, de forma imperativa, sua preocupa\u00e7\u00e3o maior com o<strong>\u00a0futuro da Terra<\/strong>, o seu destino que se assomava sombrio. Vislumbrava na passagem do mil\u00eanio um horizonte nebuloso, de afirma\u00e7\u00e3o do<em>homo demens<\/em>\u00a0(B60: 155). Da\u00ed seu empenho decisivo pela causa da Terra, de constru\u00e7\u00e3o de um novo paradigma em favor da salvaguarda do criado.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da\u00a0<strong>espiritualidade<\/strong>\u00a0ganha tamb\u00e9m for\u00e7a em sua reflex\u00e3o do per\u00edodo. Dizia: \u201cComparo-a a uma \u00e1guia escondida dentro de n\u00f3s que deve ganhar asas e voar. E ao voar nos carregar para o infinito de nosso desejo, para o cora\u00e7\u00e3o de Deus que habita nas profundidades de nosso cora\u00e7\u00e3o e do cora\u00e7\u00e3o do universo\u201d (B60:156). Via essa a miss\u00e3o do te\u00f3logo, com suas palavras, presen\u00e7a e escritos, a de \u201ctrazer \u00e0 mem\u00f3ria de todos a bem-aventurada presen\u00e7a de Deus em tudo o que existe e vive\u201d (B60:156).<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg\" alt=\"\" \/>Na ocasi\u00e3o, aos sessenta, comparando-se com a expectativa vital m\u00e9dia dos brasileiros, sentia-se j\u00e1 um velho, um sobrevivente. Percebia o tempo escorrer, buscando ent\u00e3o concentrar-se nas tarefas mais fundamentais. J\u00e1 antevia a presen\u00e7a da morte, como possibilidade mais iminente: \u201cO \u00fanico problema importante de meu futuro \u00e9 a morte. Com temor e tremor vou ao encontro dela como se vai ao encontro da bem amada\u201d (B60:156). Sentindo-se irmanado a todas as coisas, reconhecia que estava \u201cnascendo a bilh\u00f5es de anos\u201d e com sua morte ocorreria simplesmente um renascer \u201cpara nunca mais morrer\u201d, para se enredar no ritmo do cosmos, no \u201critmo da dan\u00e7a divina\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>No balan\u00e7o dos 70, j\u00e1 fala com mais serenidade da velhice que chega, entendida como uma oportunidade oferecida por Deus para \u201cconcluir o que um dia come\u00e7ou: a plasma\u00e7\u00e3o de minha pr\u00f3pria vida\u201d (B70:439). Recorre ao Salmo 90 para dizer que a vida \u00e9 como um \u201csonho matinal\u201d, pontuada pela transitoriedade, assim como a erva. Retoma os marcos de sua caminhada, j\u00e1 lembrada antes aqui neste texto, desde a<strong>\u00a0inser\u00e7\u00e3o franciscana<\/strong>\u00a0at\u00e9 o envolvimento de cora\u00e7\u00e3o com a irm\u00e3 e m\u00e3e\u00a0<strong>Terra e Gaia<\/strong>. Sinaliza sua vida com uma express\u00e3o bonita: \u201cHabitar o mundo franciscanamente\u201d (B60: 440). Sobre o compromisso com a Terra, dizia:<\/p>\n<p><em>\u201cDesde os anos 80 do s\u00e9culo passado que se tornou para mim clara esta quaestio magna. Se a teologia da liberta\u00e7\u00e3o quer ser integral, como sempre quis, deve incluir a liberta\u00e7\u00e3o da natureza e da Terra, chamada por S\u00e3o Francisco de irm\u00e3 e m\u00e3e e pelos modernos, de Gaia. Deve ouvir e articular os dois gritos, o dos pobres e o da Terra. Deve ser uma ecoteologia da liberta\u00e7\u00e3o integral\u201d (B70:443).<\/em><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Deus-Trindade permanece para mim mist\u00e9rio insond\u00e1vel. Termino sempre no nobre sil\u00eancio. Mas \u00e9 um mist\u00e9rio de ternura, de embra\u00e7amento e de inenarr\u00e1vel comunh\u00e3o &#8211; Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Fala em seguida da quest\u00e3o de Deus, tamb\u00e9m imperativa na sua reflex\u00e3o, com uma contribui\u00e7\u00e3o ousada e original, sobretudo no campo da trindade. Todas as quest\u00f5es silenciam-se diante deste\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/435\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mist\u00e9rio Maior<\/a>. Diante Dele revelam-se \u201crelativas\u201d e \u201cfogo f\u00e1tuo\u201d. Sublinha sua paix\u00e3o pelo\u00a0<strong>mist\u00e9rio da Trindade<\/strong>, que sempre o desafiou intelectualmente e misticamente. E complementa: \u201cDefrontei-me com o melhor de minha capacidade de pensamento. Creio que contribu\u00ed com algo que n\u00e3o estava claramente presente na tradi\u00e7\u00e3o\u201d (B70:444). E de uma forma ousada: \u201cSustentei a tese de que o Pai se personalizou em<strong>\u00a0S\u00e3o Jos\u00e9<\/strong>, o Filho se encarnou em Jesus, e o Esp\u00edrito Santo se espiritualizou em\u00a0<strong>Maria<\/strong>\u201d. Ou seja, uma verdadeira fam\u00edlia divina. E em seu jardim, em\u00a0<strong>Araras<\/strong>, plantou tr\u00eas con\u00edferas para expressar plasticamente essa Trindade humana e divina. Mas apesar de toda sua reflex\u00e3o sistem\u00e1tica a respeito, n\u00e3o busca esgotar o Mist\u00e9rio, que permanecia guarnecido: \u201cDeus-Trindade permanece para mim mist\u00e9rio insond\u00e1vel. Termino sempre no nobre sil\u00eancio. Mas \u00e9 um mist\u00e9rio de ternura, de embra\u00e7amento e de inenarr\u00e1vel comunh\u00e3o\u201d (B70:444).<\/p>\n<p>A longa caminhada, adverte\u00a0<strong>Boff<\/strong>, n\u00e3o foi apenas de luzes, mas tamb\u00e9m de sombras. E diz: \u201cParticipo, penosamente, da\u00a0<em>condition humaine<\/em>\u00a0onde vige a por\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sim-b\u00f3lica<\/em>\u00a0junto com a por\u00e7\u00e3o\u00a0<em>dia-b\u00f3lica<\/em>. Sou te\u00f3logo, mas tamb\u00e9m pecador\u201d (B70:444). Recorda o momento doloroso de seu enfrentamento e \u201csubmiss\u00e3o\u201d \u00e0s altas inst\u00e2ncias doutrin\u00e1rias da Igreja e sua puni\u00e7\u00e3o dolorosa. Reconhece, por\u00e9m, que tudo ocorreu em raz\u00e3o de seu compromisso com \u201ca sagrada causa dos oprimidos, os amados do Pai\u201d (B70:444). Com tudo isso, jamais olhou para tr\u00e1s. Seguindo os passos de<strong>\u00a0Pseudo-Dion\u00edsio Areopagita<\/strong>, buscou sempre olhar para o alto [12], sustentado por raz\u00f5es nobres, ainda que em \u201coutra trincheira\u201d.<\/p>\n<p>Conclui seu balan\u00e7o dos 70 dizendo que ficou uma semente. Apesar das perdas \u201crestou a f\u00e9, a esperan\u00e7a, o amor, a vida, alguma experi\u00eancia e, principalmente, restou a semente\u201d (B70:445). Nas grandes labutas conheceu o<\/p>\n<p><em>\u201cdestino da \u00e1rvore. Ela perdeu a copa e, com isso, o di\u00e1logo com o mundo se tornou mais dif\u00edcil. Perdi o tronco e, assim tive que me fortalecer muito para me manter sustent\u00e1vel. Perdi as ra\u00edzes e empreendi grande empenho para continuamente me renovar. Perdi a seiva e tive que aprender a conviver com a solid\u00e3o e a detra\u00e7\u00e3o. Mas sobrou a semente. Sinto-me hoje apenas semente. E como semente me sinto inteiro. Pois na semente se esconde o frescor da copa, o vigor do tronco, o segredo das ra\u00edzes e a vitalidade da seiva\u201d (B70:445).<\/em><\/p>\n<p>E veio agora, finalmente, o balan\u00e7o dos 80, celebrado com alegria numa bonita\u00a0<strong>festa em Petr\u00f3polis<\/strong>, no dia 07 de dezembro de 2018, quando ent\u00e3o foram lan\u00e7ados dois livros, um de testemunho dos amigos [13] e outro como uma esp\u00e9cie de s\u00edntese das reflex\u00f5es de\u00a0<strong>Boff<\/strong>, tecidas a partir de provoca\u00e7\u00f5es de especialistas nas v\u00e1rias \u00e1reas onde ele atuou [14].<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7cG00C3-sZo\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>O livro de\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0\u00e9 um livro solto, escrito em 15 dias, sem nota alguma, onde passa em revis\u00e3o os v\u00e1rios temas que ocuparam a sua reflex\u00e3o ao longo da vida. Come\u00e7a falando dos sonhos, passa em seguida para os grandes temas da antropologia teol\u00f3gica, da cristologia [15], da trindade, da Igreja, da ecologia, da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565565-uma-etica-para-a-mae-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e9tica para a Casa Comum<\/a>, concluindo com a espiritualidade. O pref\u00e1cio vem escrito pelo grande pensador marxista,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/581444-marxismo-so-tem-sentido-como-um-pensamento-aberto-entrevista-especial-com-michael-loewy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Michael L\u00f6wy<\/a>, que celebra esse precioso livro como \u201cuma s\u00edntese da obra e do pensamento de Leonardo Boff\u201d (B80:13).<\/p>\n<p>O que me impressionou muito nesse livro de\u00a0<strong>Leonardo Boff<\/strong>\u00a0foi a sua sensibilidade ecol\u00f3gica, no sentido mais nobre que podemos conferir \u00e0 express\u00e3o, e tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o que \u00e9 comum ao\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/522\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">papa Francisco<\/a>, de pontuar diversas vezes o tra\u00e7o da interliga\u00e7\u00e3o que permeia todos os seres em sua presen\u00e7a no Tempo [16].\u00a0<strong>Leonardo Boff<\/strong>, em sintonia com\u00a0<strong>Francisco<\/strong>, vai sublinhar esse tra\u00e7o por diversas vezes: \u201cTodas as coisas est\u00e3o interligadas entre si\u201d (B80:145) [17]. Leonardo insiste em lembrar que a\u00a0<strong>teologia<\/strong>\u00a0\u00e9 provocada a abrir suas malhas, de forma a viver em profundidade a dimens\u00e3o da multidisciplinaridade. Diz que \u201co te\u00f3logo que s\u00f3 entende de teologia acaba n\u00e3o entendendo sequer a teologia\u201d (B80:32). H\u00e1 que assumir radicalmente a\u00a0<strong>dimens\u00e3o globalizante da teologia<\/strong>, assevera, de forma a saber pensar todas as coisas \u00e0 luz do Mist\u00e9rio sempre maior.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">O te\u00f3logo \u00e9 algu\u00e9m que deve estar sempre aceso, em acordo com o tempo, ou seja \u201cvivo para o mundo\u201d &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A\u00a0<strong>teologia<\/strong>\u00a0\u00e9 habitada por um ser humano que \u00e9 abertura ilimitada, devendo, assim, seguir os seus rastros. E nesse s\u00e9culo XXI, h\u00e1 o desafio de falar de Deus de outra forma, com os recursos imprescind\u00edveis da\u00a0<strong>nova cosmologia<\/strong>\u00a0(B80:41). Uma teologia que seja tocada pelo fogo do Esp\u00edrito, com sua l\u00f3gica de movimento, processo e novidade, que sempre surpreende (B80:67). O te\u00f3logo, como todo ser humano, est\u00e1 envolvido numa teia de vida, num campo de relacionamentos, em \u201credes de energia vibracional\u201d. E toda essa vida est\u00e1 em movimento e resson\u00e2ncia. N\u00e3o h\u00e1 um mundo pronto, j\u00e1 finalizado, mas em processo cont\u00ednuo de vitaliza\u00e7\u00e3o. Como diz\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/527726-a-antropologia-em-crise-entrevista-com-tim-ingold\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tim Ingold<\/a>, \u201conde quer que haja vida, h\u00e1 movimento\u201d [18]. O ser humano n\u00e3o est\u00e1 confinado em espa\u00e7os fechados, mas como num rizoma, ele habita num campo de linhas que n\u00e3o se encerram, mas que s\u00e3o linhas de \u201cfuga ou desterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d [19]. O te\u00f3logo \u00e9 algu\u00e9m que deve estar sempre aceso, em acordo com o tempo [20], ou seja \u201cvivo para o mundo\u201d [21].<\/p>\n<p><strong>Leonardo Boff<\/strong>, em seu novo balan\u00e7o, fala de duas cosmologias em tens\u00e3o: uma\u00a0<strong>cosmologia de conquista<\/strong>\u00a0e outra de\u00a0<strong>transforma\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0(B80:101-102). A primeira, t\u00edpica da modernidade p\u00f3s-cartesiana, \u00e9 plasmada pelo\u00a0<strong>antropocentrismo<\/strong>\u00a0e pela\u00a0<strong>hybris<\/strong>, a desmesura ou pretens\u00e3o arrogante, que busca tudo dominar e controlar. \u00c9 a cosmologia t\u00edpica do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/572820-a-era-do-antropoceno-e-duplo-impacto-do-sapiens-sapiens-urbis-entrevista-especial-com-rualdo-menegat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Antropoceno<\/a>\u00a0[22], com todas as terr\u00edveis consequ\u00eancias que o acompanham. E\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0assinala algumas dessas consequ\u00eancias, como a destrui\u00e7\u00e3o das florestas, o desaparecimento das esp\u00e9cies, o aquecimento global, a perda da biodiversidade e eros\u00e3o do solo (B80:101-102 e 117). Com base no pensamento de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/511732-conceitos-de-energia-irritam-ambientalistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">James Lovelock<\/a>, aquele que formulou a\u00a0<strong>teoria de Gaia<\/strong>,\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0sublinha que os riscos de desaparecimento da humanidade s\u00e3o iminentes (B80:156). Pode inclusive ocorrer a situa\u00e7\u00e3o em que \u201ca Terra n\u00e3o nos queira mais\u201d (B80:144) [23]. J\u00e1 dizia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584423-consideracoes-de-uma-filosofa-da-ciencia-sobre-o-fim-do-mundo-no-tempo-das-catastrofes-de-isabelle-stengers\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Isabelle Stengers<\/a>, que Gaia n\u00e3o \u00e9 apenas uma m\u00e3e bondosa, mas tem tamb\u00e9m uma face de \u201cintrus\u00e3o\u201d, que n\u00e3o perdoa os ataques que vem sofrendo nesse sombrio tempo do\u00a0<strong>Antropoceno<\/strong>. Na vis\u00e3o de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/apresentacoes_palestrantes\/23_10_2018_no_tempo_das_catastrofes-ricardo_machado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Stengers<\/a>, \u201cGaia \u00e9 a transcend\u00eancia que responde, de modo brutalmente implac\u00e1vel, \u00e0 transcend\u00eancia igualmente indiferente, porque brutalmente irrespons\u00e1vel\u201d [24].<\/p>\n<p>A segunda\u00a0<strong>cosmologia<\/strong>, da\u00a0<strong>transforma\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o<\/strong>, \u00e9 a defendida por\u00a0<strong>Leonardo Boff<\/strong>. A seu ver, ela ganhou express\u00e3o viva na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/174-noticias\/noticias-2010\/562508-a-carta-da-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carta da Terra<\/a>\u00a0(2000) [25] e na enc\u00edclica\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/469\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Laudato Si&#8217;<\/a>, do\u00a0<strong>papa Francisco<\/strong>\u00a0[26]. Com essa segunda cosmologia, firma-se a import\u00e2ncia do cuidado, em lugar da domina\u00e7\u00e3o. Boff assinala que hoje, mais do que nunca, se imp\u00f5e uma \u00e9tica do cuidado (B80:117), que busca recuperar a\u00a0<em>re-liga\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0perdida no\u00a0<strong>Antropoceno<\/strong>. Estudos recentes da antropologia nos indicam um caminho novo, que quebra a ruptura entre cultura e natureza, vislumbrando outros modos de relacionamento com a natureza, entendida em sua dimens\u00e3o \u201cencantada\u201d e viva. Trata-se de uma\u00a0<strong>ecoantropologia<\/strong>\u00a0relacional. Uma perspectiva singular, que rompe com a ideia de exclusividade do humano e o situa numa teia de rela\u00e7\u00f5es, como parte do vivente [27].<\/p>\n<p>Faz-se urgente, diz\u00a0<strong>Boff<\/strong>, um \u201c<strong>processo de cura<\/strong>\u201d, que n\u00e3o envolve apenas as religi\u00f5es, mas todos os humanos, em comunh\u00e3o com as esp\u00e9cies companheiras [28]. Diz ele: \u201cA cura reside na re-liga\u00e7\u00e3o com todas as coisas. N\u00e3o necessariamente precisa ser mais religioso, mas importa ser mais humilde, sentindo-se parte da natureza, mais respons\u00e1vel por sua sustentabilidade e mais cuidadoso com tudo o que faz\u201d (B80:109).<\/p>\n<p>H\u00e1 que romper, diz\u00a0<strong>Boff<\/strong>, com a \u201cvaidade (<em>matai\u00f3tes<\/em>)\u201d t\u00edpica de um ser humano ainda deca\u00eddo e em processo de amadurecimento. O des\u00edgnio de Deus, descrito no livro do\u00a0<strong>G\u00eanesis<\/strong>, quando diz que tudo o que tinha sido feito \u201cera muito bom\u201d (Gn 2,31) \u00e9, na verdade, um \u201cdes\u00edgnio terminal\u201d, como lembrou\u00a0<strong>Boff<\/strong>, com base na reflex\u00e3o de\u00a0<strong>Ernst Bloch<\/strong>: \u201cO g\u00eanesis est\u00e1 no fim, e n\u00e3o no come\u00e7o\u201d (B80:108). Para poder garantir essa bondade, \u00e9 necess\u00e1rio muito cuidado, muita cura. O ser humano precisa \u201cvoltar \u00e0 Terra da qual se exilou e sentir-se seu guardi\u00e3o e cuidador (B80:109) [29]. A\u00ed, sim, poderemos ter um \u201cmundo humano que ama a vida, dessacraliza a viol\u00eancia, tem cuidado e piedade para com todos os seres, realiza a justi\u00e7a verdadeira, social e ecol\u00f3gica\u201d (B80:160). Com esse \u201cretorno\u201d, o ser humano poder\u00e1 recuperar o seu\u00a0<em>pathos<\/em>, seu sentimento de afeto axial, de respeito e rever\u00eancia pelo criado, numa comunh\u00e3o profunda com todas as esp\u00e9cies companheiras.<\/p>\n<p>No belo pref\u00e1cio do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/570809-o-incomparavel-olhar-yanomami-de-davi-kopenawa-entrevista-especial-com-jose-antonio-kelly-luciani\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A queda do c\u00e9u<\/a>, de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3449&amp;secao=340\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Davi Kopenawa<\/a>\u00a0e\u00a0<strong>Bruce Albert<\/strong>, o antrop\u00f3logo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/559817-eduardo-viveiros-de-castro-o-que-se-ve-no-brasil-hoje-e-uma-ofensiva-feroz-contra-os-indios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Eduardo Viveiros de Castro<\/a>\u00a0assinala que estamos hoje recuperando cosmologias antigas, de povos que s\u00e3o especialistas em \u201c<strong>fim de mundo<\/strong>\u201d [30]. E nos damos conta que suas \u201cinquietudes\u201d t\u00eam uma base importante de sustenta\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Leonardo Boff<\/strong>\u00a0vai em dire\u00e7\u00e3o semelhante, ao indicar a import\u00e2ncia da escuta do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/575966-demarcacao-de-terras-indigenas-x-latifundios-a-grande-tramoia-brasileira-entrevista-especial-com-vincent-carelli\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clamor dos ind\u00edgenas<\/a>\u00a0de nossa\u00a0<strong>Am\u00e9rica<\/strong>, em favor de uma nova rever\u00eancia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o (B80:137). Diz Boff com raz\u00e3o, que para a nova m\u00fasica precisamos de ouvidos novos (B80:122). Da\u00ed a essencialidade de uma nova \u00e9tica da compaix\u00e3o, de um ritmo novo de cuidado e rever\u00eancia para com todas as esp\u00e9cies companheiras, com sensibilidade e esp\u00edrito novos. Entender ainda que todos os seres s\u00e3o portadores de direitos caracter\u00edsticos, e n\u00e3o apenas n\u00f3s humanos como mostrou com pertin\u00eancia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/Michel%20Serres\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Michel Serres<\/a>\u00a0(B80:151-152).<\/p>\n<p>Tudo isso envolve a necessidade de uma\u00a0<strong>nova espiritualidade<\/strong>, uma espiritualidade cordial e companheira. Uma espiritualidade habitada pela din\u00e2mica da \u201cflorestania\u201d. O\u00a0<strong>papa Francisco<\/strong>\u00a0falava tamb\u00e9m em uma \u201c<strong>espiritualidade ecol\u00f3gica<\/strong>\u201d. Dizia: \u201cA paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado com a\u00a0<strong>ecologia<\/strong>e com o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584084-proposta-pelo-bem-comum-e-a-verdade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bem comum<\/a>, porque autenticamente vivida, reflete-se em um equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admira\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 profundidade da vida\u201d (LS 216 e 225). E esta espiritualidade, pontua\u00a0<strong>Boff<\/strong>, n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio dos religiosos, mas de todas \u201cas pessoas consideradas comuns, que vivem a retid\u00e3o da vida, o sentido da solidariedade e cultivam o espa\u00e7o sagrado do Esp\u00edrito, seja em suas religi\u00f5es e Igrejas, seja no modo como pensam, agem e interpretam a vida\u201d (B80:164).<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>espiritualidade<\/strong>, como mostrou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581427-o-dalai-lama-ordena-jovens-rebelem-se\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dalai Lama<\/a>\u00a0\u2013 retomado por\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0\u2013 \u00e9 \u201caquilo que produz no ser humano uma mudan\u00e7a interior\u201d (B80:165); \u00e9 algo que toca a dimens\u00e3o profunda do humano e tem a ver com as \u201cqualidades do esp\u00edrito humano\u201d (B80:166-167) [31]. Para alcan\u00e7ar esse horizonte de um mundo interior renovado, teremos, em casos concretos, que desmontar o edif\u00edcio religioso que nos cerca e rodeia (B80:185), bem como ampliar nossa capacidade de audi\u00e7\u00e3o, para captar as energias do Esp\u00edrito que se irradiam por todo canto. A\u00a0<strong>espiritualidade<\/strong>, indica Boff, \u201cvive da gratuidade e da disponibilidade, vive da capacidade de entendimento e de compaix\u00e3o, vive da honradez face \u00e0 realidade e da escuta da mensagem que vem permanentemente dessa realidade\u201d (B80:187).<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Leonardo Boff\u00a0revela que o\u00a0desenvolvimento da espiritualidade\u00a0est\u00e1 intimamente relacionado com nossa capacidade contemplativa, de escuta do Real, dos pequenos sinais e \u201cvalores que impregnam o mundo \u00e0 nossa volta\u201d &#8211; Faustino Teixeira<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em sintonia com o pensamento de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/3467-em-memoria-de-raimon-panikkar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Raimon Panikkar<\/a>,\u00a0<strong>Leonardo Boff<\/strong>\u00a0revela que o\u00a0<strong>desenvolvimento da espiritualidade<\/strong>\u00a0est\u00e1 intimamente relacionado com nossa capacidade contemplativa, de escuta do Real, dos pequenos sinais e \u201cvalores que impregnam o mundo \u00e0 nossa volta\u201d (B80:188) [32]. Na base da vida espiritual, uma \u201cpoderosa e amorosa energia\u201d, que desafia a todos \u201cabrir-se generosamente\u201d ao seu convite. Ao final do livro, Boff sinaliza: \u201cSe a vida p\u00f4de surgir num contexto de cuidado, \u00e9 pelo cuidado permanente, ao longo de todo o tempo em que existir sobre a face da Terra, que a vida se mant\u00e9m, se reproduz e coevolui\u201d (B80:192). Trata-se de um imperativo essencial, t\u00e3o bem captado por\u00a0<strong>Milton Nascimento<\/strong>, na can\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Cora\u00e7\u00e3o de estudante<\/em>: \u201cH\u00e1 que se cuidar do broto para que a vida nos d\u00ea flor e fruto\u201d.<\/p>\n<p>Na bela reflex\u00e3o de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/514096-o-absoluto-e-deus-e-o-coabsoluto-sao-os-pobres-entrevista-especial-com-jon-sobrino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jon Sobrino<\/a>\u00a0no livro de homenagem a<strong>\u00a0Leonardo Boff<\/strong>, ele lembra uma passagem de um livro do amigo franciscano em torno da\u00a0<strong>espiritualidade libertadora<\/strong>, onde\u00a0<strong>Boff<\/strong>\u00a0fala sobre Jesus. A passagem \u00e9 linda: \u201cPara mim, o mais importante que se disse de Jesus no Novo Testamento n\u00e3o \u00e9 tanto que Ele \u00e9 Deus, Filho de Deus, Messias, mas que passou pelo mundo fazendo o bem, curando a uns e consolando a outros. Como gostaria que se dissesse isso de todos e tamb\u00e9m de mim\u201d [33]. Curioso \u00e9 que em outro testemunho no mesmo livro,\u00a0<strong>Waldemar Boff<\/strong>\u00a0imagina uma situa\u00e7\u00e3o em que vem indagado para opinar sobre seu irm\u00e3o franciscano. E a resposta, sempre certeira: \u201cele foi um homem bom e basta!\u201d [34]. Foi nisto que tamb\u00e9m pensei, quando li em ora\u00e7\u00e3o a ep\u00edstola a\u00a0<strong>Tito<\/strong>\u00a0que exorta os que creem em Cristo a serem \u201csol\u00edcitos na pr\u00e1tica do bem\u201d. Digo que o que me veio instantaneamente \u00e0 mente foi a pessoa do amigo\u00a0<strong>Leonardo<\/strong>, e assim nasceu o t\u00edtulo desta minha reflex\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m testemunho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Leonardo\u00a0fez ao longo da vida quatro grandes balan\u00e7os: nos 50, 60, 70 e agora aos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":97405,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",1280,720,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem-300x169.jpg",300,169,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",640,360,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem-1024x576.jpg",640,360,true],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",1280,720,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",1280,720,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",800,450,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",720,405,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/leonardo-boff-amigo-do-bem.jpg",450,253,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"&#8220;Leonardo\u00a0fez ao longo da vida quatro grandes balan\u00e7os: nos 50, 60, 70 e agora aos","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97397"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97397"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97397\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97405"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}