{"id":97221,"date":"2018-12-14T08:56:37","date_gmt":"2018-12-14T11:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=97221"},"modified":"2018-12-14T08:54:52","modified_gmt":"2018-12-14T11:54:52","slug":"arquiteto-americano-comenta-modernismo-brasileiro-urbanismo-de-brasilia-e-discute-funcao-da-arquitetura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/arquiteto-americano-comenta-modernismo-brasileiro-urbanismo-de-brasilia-e-discute-funcao-da-arquitetura\/","title":{"rendered":"Arquiteto americano comenta modernismo brasileiro, urbanismo de Bras\u00edlia e discute fun\u00e7\u00e3o da arquitetura"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Michael-Sorkin.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-97222\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Michael-Sorkin-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Michael-Sorkin-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Michael-Sorkin.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Quando era menino, o arquiteto americano Michael Sorkin sonhava com Bras\u00edlia. Ele nasceu em Washington, em 1948, e cresceu na mesma \u00e9poca em que os pr\u00e9dios curvil\u00edneos de Oscar Niemeyer e as superquadras de L\u00facio Costa tomavam forma no meio do cerrado goiano. Quando Bras\u00edlia foi inaugurada, em 1960, Sorkin era, em suas palavras, \u201cum modernista convicto de 12 anos, otimista e ut\u00f3pico\u201d. Ele acreditava nas promessas da arquitetura modernista, que associava a racionalidade das linhas retas e a transpar\u00eancia dos vidros \u00e0 democracia e prometia ajudar a construir, com muito concreto, um futuro mais justo e igualit\u00e1rio. \u201cDepois, percebi como era burro o sistema de mobilidade urbana de Bras\u00edlia, que uma superquadra n\u00e3o \u00e9 uma vizinhan\u00e7a e que havia uma cidade paralela, al\u00e9m do Plano Piloto, onde morariam os trabalhadores pobres\u201d, contou a \u00c9POCA de seu escrit\u00f3rio nova-iorquino, no s\u00e1bado 24, dias antes de embarcar para o Brasil. Em S\u00e3o Paulo, Sorkin participou do semin\u00e1rio<em>S\u00e3o Paulo: Evolu\u00e7\u00e3o Radical<\/em>\u00a0, no Insper, uma universidade privada.<\/p>\n<aside class=\"article-related-links article-related-links--inside\">\n<div class=\"article-related-links__container\"><\/div>\n<\/aside>\n<p>Sorkin visitou S\u00e3o Paulo em 1987 e ainda se lembra dos helic\u00f3pteros sobrevoando a cidade congestionada e dos pr\u00e9dios de Niemeyer e Lina Bo Bardi. Aproveitou para esticar a viagem at\u00e9 Bras\u00edlia, onde, no lobby do hotel, encontrou o fil\u00f3sofo americano Marshall Berman (1940-2013), um dos cr\u00edticos mais mordazes da arquitetura brasiliense. \u201cViajei com Zaha Hadid\u00a0<em>(arquiteta iraquiano-brit\u00e2nica, que se tornaria uma refer\u00eancia antes de morrer, em 2016)<\/em>\u00a0, e, quando chegamos ao hotel, colocamos nossos passaportes e outros pertences num cofre e tivemos de assinar um livro. Vi que o nome acima do meu era o de Marshall. Olhei a minha volta e l\u00e1 estava ele, com sua apar\u00eancia inconfund\u00edvel.\u201d O fil\u00f3sofo ostentava cabeleira e barba indom\u00e1veis, como um le\u00e3o marxista. Berman considerava Bras\u00edlia autorit\u00e1ria e um mau exemplo de modernismo, uma cidade constru\u00edda para impedir que as pessoas caminhassem e se encontrassem. Sorkin concorda com Berman, mas sua avalia\u00e7\u00e3o da arquitetura brasileira \u00e9 um pouco mais generosa. \u201cMinha forma\u00e7\u00e3o como arquiteto aconteceu na era dourada da arquitetura brasileira, quando voc\u00eas tinham Niemeyer, Lina Bo Bardi, Roberto Burle Marx. Era uma arquitetura fluida, muito exuberante e sensual. O Brasil deixou uma marca fant\u00e1stica no modernismo.\u201d<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<div class=\"block__advertising\"><\/div>\n<\/section>\n<p>Assim como Niemeyer, Sorkin tamb\u00e9m projeta cidades do zero \u2014 desenhou uma para 300 mil habitantes na China. Ele mant\u00e9m um escrit\u00f3rio de arquitetura em Nova York, o Michael Sorkin Studio, com filiais em Xangai e Xian. Em 2005, fundou o Terreform \u2014 Center for Advanced Urban Research, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que investiga solu\u00e7\u00f5es para os desafios urban\u00edsticos atuais. Sorkin se prop\u00f4s a pensar como uma metr\u00f3pole como Nova York pode ter uma vida comunit\u00e1ria vibrante e ser autossuficiente sem precisar depender tanto do governo ou da iniciativa privada. Ali\u00e1s, Sorkin \u00e9 bastante cr\u00edtico da alian\u00e7a entre o Estado e as empresas, as parcerias p\u00fablico-privadas \u2014 \u201celas tendem a reafirmar a desigualdade em vez de resolv\u00ea-la\u201d. Ele critica, por exemplo, os incentivos da prefeitura de Nova York \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil. A prefeitura permite que as empreiteiras driblem a lei de zoneamento da cidade e construam pr\u00e9dios mais altos desde que reservem alguns apartamentos para a habita\u00e7\u00e3o popular. \u201cEsse tipo de pol\u00edtica \u00e9 um cavalo de Troia da gentrifica\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou, sugerindo que, mais cedo ou mais tarde, as fam\u00edlias de baixa renda n\u00e3o ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de arcar com o aluguel.<\/p>\n<p>Sorkin tamb\u00e9m desconfia das \u201ccidades inteligentes\u201d, que prometem amenizar os problemas urban\u00edsticos com novas tecnologias, algoritmos e dados. \u201cO uso da tecnologia para aliviar os congestionamentos e buscar fontes de energia renov\u00e1veis \u00e9 ben\u00e9fico, mas precisamos tomar cuidado com ideias corporativas de monetizar tudo na cidade e introduzir regimes de vigil\u00e2ncia. Em vez de \u2018cidade inteligentes\u2019, prefiro pensar em \u2018cidades s\u00e1bias\u2019, na sabedoria que emerge da comunidade\u201d, disse. \u201cMuitos acham que a tecnologia vai nos salvar. Eu acho que a tecnologia \u00e9 muito \u00fatil, mas que a melhor solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a democracia.\u201d<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img loading=\"lazy\" class=\"article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23288563-9e6-716\/FT1086A\/652\/xSesc-Pompeia.jpg.pagespeed.ic.aX_YA9IsIp.jpg\" alt=\"Sesc Pompeia, espa\u00e7o cultural na Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, projetado por Lina Bo Bardi. Para Sorkin, a arquitetura modernista brasileira \u00e9 exuberante e sensual Foto: Richard Chivers\/View Pictures \/ UIG via Getty Images\" width=\"639\" height=\"384\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23288563-9e6-716\/FT1086A\/652\/xSesc-Pompeia.jpg.pagespeed.ic.aX_YA9IsIp.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Sesc Pompeia, espa\u00e7o cultural na Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, projetado por Lina Bo Bardi. Para Sorkin, a arquitetura modernista brasileira \u00e9 exuberante e sensual Foto: Richard Chivers\/View Pictures \/ UIG via Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m de arquiteto, professor universit\u00e1rio e autor de livros como\u00a0<em>Twenty minutes in Manhattan<\/em>\u00a0(\u00a0<em>Vinte minutos em Manhattan<\/em>\u00a0, numa tradu\u00e7\u00e3o livre) e\u00a0<em>All over the map: writing on buildings and cities\u00a0<\/em>(\u00a0<em>Por todo o mapa: escritos sobre edif\u00edcios e cidades<\/em>\u00a0), Sorkin tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico de arquitetura com passagens pela revista\u00a0<em>The Nation\u00a0<\/em>e pelo jornal\u00a0<em>The Village Voice<\/em>\u00a0. Em suas resenhas, ele se esfor\u00e7ava para, como os modernistas, juntar arte e pol\u00edtica, p\u00f4r na balan\u00e7a a beleza e o impacto social de um pr\u00e9dio. \u201cOlhar somente o aspecto est\u00e9tico da cria\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica \u00e9 imposs\u00edvel, exige uma miopia artificial\u201d, explicou. \u201cN\u00e3o podemos ignorar quest\u00f5es que est\u00e3o embutidas em cada trabalho de arquitetura: a origem do dinheiro, o gasto de energia, os efeitos do pr\u00e9dio no mercado imobili\u00e1rio da regi\u00e3o, a seguran\u00e7a dos moradores e vizinhos. Se escrever s\u00f3 sobre as propor\u00e7\u00f5es do pr\u00e9dio ou a beleza da fachada, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 vendo o todo.\u201d Talvez por isso que Sorkin recomende aos arquitetos ler\u00a0<em>Pol\u00edtica<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Po\u00e9tica<\/em>\u00a0de Arist\u00f3teles, conhecer os c\u00e1lculos de Antoni Gaud\u00ed para projetar a Sagrada Fam\u00edlia \u2014 a catedral em Barcelona \u2014 e estudar o Coeficiente de Gini, um \u00edndice usado para medir a desigualdade de distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<section class=\"block block--advertising\">\n<div class=\"block__advertising\"><\/div>\n<\/section>\n<p>No artigo\u00a0<a href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/250-licoes-de-arquitetura-23294510\">\u201c250 coisas que todo arquiteto deve saber\u201d<\/a>\u00a0, publicado em seu \u00faltimo livro,\u00a0<em>What goes up: the right and wrongs to the city\u00a0<\/em>(\u00a0<em>O que se constr\u00f3i: os erros e acertos para as cidades<\/em>\u00a0, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Sorkin d\u00e1 uma modesta e original contribui\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica dos arquitetos. Sugere que eles leiam o criador da psican\u00e1lise Sigmund Freud e os fil\u00f3sofos Walter Benjamin, Guy Debord e Friedrich Engels, caminhem por Calcut\u00e1, na \u00cdndia, e Curitiba e aprendam a assentar tijolos. Sorkin n\u00e3o lembra o que inspirou essa lista de conselhos, mas arquitetou uma met\u00e1fora inusitada para explic\u00e1-la. \u201cEsse artigo parece uma lista aleat\u00f3ria de 250 coisas, mas, na verdade, ele se comporta como o c\u00e3o que se embrenha na mata e faz xixi nas \u00e1rvores para marcar territ\u00f3rio. \u00c9 uma tentativa de reivindicar um campo de conhecimento e de investiga\u00e7\u00e3o mais amplos para a arquitetura.\u201d Ali\u00e1s, a 143\u00aa coisa que todo arquiteto deve saber \u00e9 \u201cComo as pessoas fazem xixi\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando era menino, o arquiteto americano Michael Sorkin sonhava com Bras\u00edlia. 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