{"id":97218,"date":"2018-12-14T15:00:28","date_gmt":"2018-12-14T18:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=97218"},"modified":"2018-12-14T08:48:20","modified_gmt":"2018-12-14T11:48:20","slug":"originario-do-mexico-o-milho-e-mais-brasileiro-do-que-se-imaginava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/originario-do-mexico-o-milho-e-mais-brasileiro-do-que-se-imaginava\/","title":{"rendered":"Origin\u00e1rio do M\u00e9xico, o milho \u00e9 mais brasileiro do que se imaginava"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intro\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/milho.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-97219\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/milho-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/milho-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/milho.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A\u00a0<\/span>hist\u00f3ria do milho acaba de ser reescrita. Com origem no M\u00e9xico, a cren\u00e7a era que, por volta de 9 mil anos atr\u00e1s, as popula\u00e7\u00f5es locais come\u00e7aram a selecionar entre as melhores plantas da vers\u00e3o selvagem do milho e, completado o processo de domestica\u00e7\u00e3o, o milho como conhecemos se espalhou por outras regi\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Embora mais l\u00f3gica, a vers\u00e3o est\u00e1 errada. Um grupo internacional de pesquisadores, que conta com o brasileiro F\u00e1bio Freitas, da Embrapa Recursos Gen\u00e9ticos e Biotecnologia, acaba de descobrir que a jornada do milho \u00e9 muito mais complexa, e interessante, do que se imaginava.<\/p>\n<p>A descoberta, por\u00e9m, n\u00e3o foi atingida de forma f\u00e1cil, e muito menos r\u00e1pida. Come\u00e7ou ainda em meados da d\u00e9cada de 90, quando Freitas ainda estava cursando a gradua\u00e7\u00e3o em engenharia agron\u00f4mica pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq.<\/p>\n<p>\u201cA gente foi contactado com um grupo de arque\u00f3logos da Universidade Federal de Minas Gerais que estavam achando no norte de minas, nas Cavernas do Perua\u00e7u, uma s\u00e9rie de vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos de plantas cultivadas, como milho, feij\u00e3o e mandioca, e queriam algu\u00e9m que analisasse esse material\u201d, conta Freitas.<\/p>\n<p>Com vest\u00edgios de ocupa\u00e7\u00e3o que remetem h\u00e1 10 mil anos atr\u00e1s e vai at\u00e9 o per\u00edodo que coincide com a chegada dos portugueses h\u00e1 500 anos, a caverna abrigava diversos vest\u00edgios de cer\u00e2mica, ferramentas de pedra, esqueletos, sepultamentos, al\u00e9m de grandes cestas feitas com folhas tran\u00e7adas que serviam para abrigar material cultivado.<\/p>\n<p>Mais abundante das esp\u00e9cies encontradas, o milho da caverna tinha entre 1000 e 1.500 anos. \u201cQuer\u00edamos saber qual a rela\u00e7\u00e3o com o M\u00e9xico ou qual rela\u00e7\u00e3o que tinha com outras popula\u00e7\u00f5es. Qual o caminho que esse milho pegou para chegar ali\u201d, conta.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-800\"><img loading=\"lazy\" class=\"img-responsive\" title=\"Da vers\u00e3o selvagem do milho, no topo; passando pelo h\u00edbrido, no meio; at\u00e9 o milho como conhecemos, abaixo.  (Foto: Wikicommons)\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/aVmtENBiSGHdN096_48K2bAbsvc=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2018\/12\/13\/0_mxq4se6bvljokcxb.png\" alt=\"Da vers\u00e3o selvagem do milho, no topo; passando pelo h\u00edbrido, no meio; at\u00e9 o milho como conhecemos, abaixo.  (Foto: Wikicommons)\" width=\"639\" height=\"396\" \/><label class=\"foto-legenda\">DA VERS\u00c3O SELVAGEM DO MILHO, NO TOPO; PASSANDO PELO H\u00cdBRIDO, NO MEIO; AT\u00c9 O MILHO COMO CONHECEMOS, ABAIXO. (FOTO: WIKICOMMONS)<\/label><\/div>\n<div id=\"sc-ijs6e\" data-smartplay-instance-id=\"0\">\n<div id=\"sc-ijs6e-backdrop\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Mas foi s\u00f3 durante seu doutorado, parcialmente realizado na Universidade de Manchester, na Inglaterra, que as primeiras respostas foram encontradas. Trabalhando com o pesquisador Robin Allaby, come\u00e7aram a analisar os fragmentos do DNA encontrados nas amostras arqueol\u00f3gicas e comparar com amostras atuais, principalmente cultivadas em comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>Descobriram que o milho migrou para a Am\u00e9rica do Sul durante duas levas migrat\u00f3rias ao longo do tempo, mas n\u00e3o conseguiram ir muito al\u00e9m nas descobertas. \u201cEra o ano de 1999, e as ferramentas da \u00e9poca eram mais restritas\u201d, revela Freitas. \u201cS\u00f3 de extrair o DNA das amostras arqueol\u00f3gicas j\u00e1 era um feito, mas voc\u00ea s\u00f3 conseguia estudar pequenas por\u00e7\u00f5es dele. Estudamos uma parte de um gene.\u201d<\/p>\n<p>O trabalho ficou parado durante anos, at\u00e9 que em 2015 a tecnologia j\u00e1 havia evolu\u00eddo, e as an\u00e1lises genomas ficaram mais precisas, amplas e f\u00e1ceis. \u201cA gente viu que seria interessante resgatar esse estudo com base nas ferramentas novas\u201d, disse. \u201cHoje a gente consegue estudar o genoma todo.\u201d<\/p>\n<p>Voltou a se reunir com Robin Allaby, que hoje \u00e9 professor da Escola de Ci\u00eancias da Vida na Universidade de Warwick, tamb\u00e9m no Reino Unido, e outros pesquisadores, que ajudaram com mais amostras. Estudos anteriores j\u00e1 haviam seguido caminho semelhante, mas nunca com amostras de esp\u00e9cies encontradas no Brasil e na Amaz\u00f4nia. Quando tinha algum material da Am\u00e9rica do Sul, vinham de regi\u00f5es mais altas, como os Andes. \u201cFaltava parte da hist\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p>Com muito mais poder tecnol\u00f3gico e um n\u00famero muito maior de amostras de diversas partes do mundo do que na d\u00e9cada de 1990, retomaram o trabalho para reconstruir a trajet\u00f3ria do milho.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o surpreendeu a todos. Afinal, a pesquisa encontrou amostras de milho de 6 mil anos atr\u00e1s na regi\u00e3o oeste da Amaz\u00f4nia, entre o Acre, Peru e Bol\u00edvia. Ao mesmo tempo que outras amostras arqueol\u00f3gicas, no M\u00e9xico, mostram que h\u00e1 5 mil anos o milho ainda n\u00e3o estava totalmente domesticado por l\u00e1.<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\"><\/div>\n<p>\u201cSe n\u00e3o as caracter\u00edsticas de domestica\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o estavam fixadas por l\u00e1, ent\u00e3o provavelmente amostras que saiam do M\u00e9xico, come\u00e7aram a ser difundidas e chegaram aqui na Am\u00e9rica do Sul, sa\u00edram de uma maneira mais crua\u201d, revela Freitas. \u201cAinda estava semi-domesticado.\u201d<\/p>\n<p>Foi somente quando chegaram \u00e0s m\u00e3os dos \u00edndios da Amaz\u00f4nia que o processo de domestica\u00e7\u00e3o do minho foi finalmente conclu\u00eddo. \u201c\u00c9 uma regi\u00e3o onde as popula\u00e7\u00f5es humanas j\u00e1 tinham a parte agr\u00edcola muito forte e outras esp\u00e9cies estavam passando pelo processo de domestica\u00e7\u00e3o, como a mandioca.\u201d<\/p>\n<p>Freitas continua: \u201cAs popula\u00e7\u00f5es ali j\u00e1 estavam de olho em caracter\u00edsticas interessantes das esp\u00e9cies. J\u00e1 tinham mais de uma variedade de mandioca, umas tinham mais raiz, outra com gosto melhor, por exemplo\u201d. \u201cAs popula\u00e7\u00f5es humanas j\u00e1 estava ali com um olhar diferenciado para a sele\u00e7\u00e3o, e, ao terem contato com o milho, facilitou que a domestica\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O pesquisador, no entanto, fala que saber como esse milho chegou por aqui \u00e9 mais dif\u00edcil. Os cen\u00e1rios mais aceitos envolvem migra\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es do norte para o sul, motivados por fatores como guerras, ou por meio da troca entre as diversas comunidades tradicionais que ocupavam a Am\u00e9rica do Sul antes do dom\u00ednio europeu.<\/p>\n<p>Mas independente do trajeto, o fato s\u00f3 traz mais argumentos que demonstram qu\u00e3o complexas eram os povos da floresta naquele tempo, com estudos que dizem que milh\u00f5es de pessoas habitavam a floresta.<\/p>\n<p>\u201cHoje em dia tem tanta diversidade, tipos diferentes de milho, porque cada cultura humana tem suas prefer\u00eancias. Um gosta de milho mais redondo, outro mais comprido, outros com sementes vermelhas, outro rajada, outro amarela\u201d, afirma. \u201cEsse olhar diferente da diversidade cultural tamb\u00e9m se reflete na variedade dos cultivos.\u201d<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, por\u00e9m, a sele\u00e7\u00e3o por prefer\u00eancia deu lugar \u00e0 vantagem comercial, o milho amarelo se tornou padr\u00e3o, e muitas das diferentes variedades de milho passaram a correr risco de desaparecer. A Embrapa tenta fazer sua parte, j\u00e1 que preserva as popularmente chamadas de sementes crioulas, de diversas esp\u00e9cies. S\u00e3o cinco mil variedade s\u00f3 de milho.<\/p>\n<p>Freitas, no entanto, acredita que a estrat\u00e9gia \u00e9 insuficiente. Se guardar a semente preserva a variabilidade gen\u00e9tica, com ela parada, a evolu\u00e7\u00e3o deixa de acontecer.<br \/>\n\u201cPreservar as culturas locais ajuda a manter o material e, uma vez que est\u00e3o plantando, as esp\u00e9cies est\u00e3o sujeitas ao ambiente\u201d, afirma. \u201cApoiar a agricultura tradicional, mantendo as t\u00e9cnicas deles, os cultivos tradicionais, est\u00e1 permitindo que o processo evolutivo continue localmente, se adequando a qualquer mudan\u00e7a que ocorra ambientalmente.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito rico isso\u201d, finaliza F\u00e1bio Freitas. \u201cQuanto mais a gente puder estimular essa preserva\u00e7\u00e3o cultural e\u00a0 material, e puder apoiar as popula\u00e7\u00f5es localmente, a humanidade acaba sendo beneficiada como um todo.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0hist\u00f3ria do milho acaba de ser reescrita. 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